Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Algumas palavras, alguns livros, 24

O sumiço das flores

                                 ninfa parreiras

Segundo livro de Filomena Silman (ilustrações Emerson Pereira, J. A. Cursino Editores), O sumiço das flores relata a história da menina Fifi, que se depara com baldes de flores chegando em casa. Ia ter festa? O que era aquilo? Ela e sua amiga separaram as flores pelas cores. Brincadeira e muita imaginação foram vividas atreladas a pensamentos cheios de dúvida pelo quintal e pela vizinhança. Os adultos ficavam ora em silêncio, ora sem palavras. 
Aquelas horas transcorreram rapidamente e Fifi se surpreendeu com os baldes vazios e algumas folhas boiando. Para onde foram aqueles coloridos buquês? Por que os adultos não conversavam com as crianças?
A perda da avó é o assunto deste conto que mostra o ponto de vista das meninas, com as suas inseguranças e questionamentos. E mostra ainda a dificuldade dos adultos em conversarem sobre as perdas com as crianças.
Filomena Silman estudou na Estação das Letras, no curso de Literatura Infantil, por muitos anos. Atualmente, mora fora do Rio de Janeiro e volta todo mês para compartilhar seus escritos com um pequeno grupo de amigas. No encontro de fevereiro, trouxe seu lindo livro pronto.

Falar com as crianças sobre morte, partida, doença, perdas é uma forma de respeitar a infância. Uma boa conversa nos ajuda a elaborar as coisas que não entendemos bem e que as explicações racionais não dão conta.  
Na literatura, os assuntos e temas tabus podem e devem ser abordados, preservando o olhar da criança, seus sentimentos e indagações. Foi o que Filomena fez, com muito cuidado e lirismo. Que venham outros contos compartilhados entre amigas. Afinal, a literatura e a amizade são alimentos para nossa alma.


Lúcia Morais lê o conto O sumiço das flores no grupo de amigas.
(fotos: arquivo pessoal, verão 2017)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A Vida é um Mosaico

                                      Ninfa Parreiras

Conheci o projeto da APAC - Associação de Proteção e Assistência aos Condenados, de Itaúna, MG, por meio destes artesanatos em mosaicos. Uma entidade dedicada à recuperação e reintegração social dos presos a penalidades privativas de liberdade. Ela tem desenvolvido diversos projetos na minha cidade. A delicadeza e a simplicidade são as marcas destas artes, verdadeiras recriações. Há pessoas voluntárias que atuam diretamente com os artistas-aprendizes.
A vida é um mosaico, feita das muitas partes que nos constituem: as memórias, o passado, o presente, os sonhos, as frustrações. Todo dia estamos juntando os caquinhos e re-começando novos processos. Ou retomando o mesmo de sempre, com os pedaços que escolhemos. A colocação de tesselas, num jogo de encaixe, é um exercício de paciência, de reinvenção de si.
A antiga arte do mosaico remonta à Mesopotâmia, ao Egito e, posteriormente, à Grécia e a Roma. Curiosamente, a palavra Mosaico quer dizer, em grego, obra das Musas. Algo que transcende o âmbito racional. Conecta-se com o divino, o mais além, o inconsciente.
Em Ravena, última capital do Império Romano no Ocidente, após a queda de Roma no século V, encontramos os mosaicos bizantinos, tombados pela UNESCO. Encantam aos visitantes pela riqueza de detalhes. São dezenas de museus, batistérios, capelas e igrejas, ornados com painéis, tetos, altares e pisos. Foi nesta cidade italiana que a Idade Média começou.

Um passeio em Conímbriga, Portugal, nos revela mosaicos de museus ao ar livre, de ruínas romanas do século II d.C. Passeios a céu aberto fazem os olhos dos turistas riscarem o espaço de tanto olhar para cima e para baixo.
Mais perto de nós, no Matutu, em Aiuruoca, MG, Candido de Alencar Machado, mantém um ateliê integrado a uma deliciosa pousada campestre. Seu trabalho é digno de reconhecimento e aplausos: minúsculos pedacinhos de azulejos moldam rostos, cenas religiosas, cenários místicos e diversos. O artista mineiro faz sua arte pacientemente, rodeado de montanhas da Serra do Papagaio.
Foi uma surpresa saber que, em Itaúna, a APAC é exemplo para associações de condenados e que a arte e o artesanato existem ali para transformar afetos e dar dignidade aos presos. Um modelo a ser conhecido e copiado por penitenciárias e cidades.
(fotos: arquivo pessoal, APAC-Itaúna, verão 2017)
Conheça mais:
Sobre a APAC: http://www.apacitauna.com.br/
Sobre Ravena: http://www.viajarpelomundo.com/2012/10/os-mosaicos-bizantinos-de-ravena.html
Sobre Conímbriga: http://www.conimbriga.pt/index.html
Sobre Candido de Alencar Machado: http://www.pousadamatutu.com.br/mosaicos.htm

terça-feira, 22 de novembro de 2016

De Xambioá

Gente que o Brasil não conhece
                                                                        Ninfa Parreiras
Conheci Xambioá pelas palavras e imagens que brotaram dos relatos deles. Mãe e filho atravessaram o norte escaldante das terras tocantinenses para participarem da oficina de criação literária promovida pelo SESC Palmas. Como me garantiu a Ana Isabel logo que cheguei, em Tocantins, há um sol pra cada pessoa. Tem luz e calor derramados pra todas!
Com o correr dos dias, aquele sol banhava os papeis de textos que nasceram, generosos, compartilhados entre os integrantes do grupo. Contos, mini contos, poemas, haicais, aldravias, cordéis salpicavam vôos das tantas aves que sobrevoam a capital.
Alcancei os mais de 500 km de Palmas até esta pitoresca cidade na fronteira do Tocantins com o Pará, conduzida pelos olhares molhados das águas do Araguaia. Lá, onde aconteceu, com toda a efervescência, a Guerrilha do Araguaia nas décadas de 60/70.
Xambioá é pássaro veloz. É cidade que resiste. Dizem que as armas da guerrilha foram atiradas de um helicóptero sobre o rio e hoje dormem banhadas de lama. Estariam sendo carregadas para a revolução dos peixes?
Nos idos da exploração dos minerais, quando as terras pertenciam a Goiás, um matuto encontrou uma pedra de cristal do tamanho de uma geladeira dupla. Foi guardada em casa e o temporal não cedeu por muitos dias. Com o passar da chuvarada, o cristal desapareceu. Teria derretido?
Quem me contou essas e outras histórias foi João Emanuel, rapaz de 13 anos, acompanhado de Madalena, sua mãe. Quando moça, ela pescava com tal habilidade que até os peixes punham as mãos na cabeça! Balaios de pescados era fartura na família!
Ele escreve com inventividade e aposta no fazer do escriba. Leitor de literatura, sabe observar e escutar, o que o torna um grande contador de causos. Cria histórias em cordel, contos, poemas... isso vai crescendo do papel para a fala mansa, que baila com aquele vocabulário regional.
O que me chamou a atenção foi o envolvimento do jovem com a palavra. Como ele fica mobilizado com o que vive e transforma os sentimentos em escrita livre. Brinca com as pessoas e as sonoridades. Ao final, Madalena desabrochou seus textos e a dupla encantou a todos. Ela continua a pescar, só que agora, textos.
Xambioá se transformou em um sonho para os que não a conhecem e João Emanuel é uma aposta jovem para um país sem rumo. Ele sabe aonde quer ir e o que precisa fazer. Sua voz vai ecoar veloz como o pássaro da sua cidade e inundar o Brasil de poéticas palavras - as armas mais revolucionárias que conheço.
 
(participaram da oficina no SESC Palmas: Ana Isabel, Andrea, Cecília, João, João Emanuel, Laura, Mariany, Madalena. E a Geovana. Primavera de 2016)
Fotos: pesquisadas na internet.
http://www.portalnabocadopovo.com.br/2012/08/28/governo-do-estado-reinicia-obra-de-asfaltamento-em-xambioa/ acesso em 22nov, 10h15
http://www.cidade-brasil.com.br/municipio-xambioa.html acesso em 22nov, 10h18