Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Quando eu atendi, tive uma tristeza

Quando eu atendi, tive uma tristeza
Ninfa Parreiras
Quatro de setembro de 2015. Indo de um trem pro outro e o telefone chama. Incendeia o dia (e os seguintes) de tristeza. Uma ligação que você nunca queria receber. Perder um amigo é uma parte de nós que vai embora. Uma parte cheia de solidariedade, no caso do Joel Rufino dos Santos. Ficamos órfãos deste historiador, escritor, pensador da cultura, humanista, defensor dos direitos humanos. O Brasil sofreu uma grande perda!
Conheci o Joel com a sua coleção de livros de Dudu CalungaRainha Quiximbi, estudante de Letras na PUC - Rio. Que escrita mais gostosa, colocava a gente dentro da história, sem a gente nem perceber! Ele falava de tantas coisas necessárias, tão nossas: a cultura popular, as tradições orais, os negros, os indígenas, os excluídos, os preconceitos, os estereótipos. Isso estava tudo ali, brotando de dentro da história pros olhos de quem lia. Não era o pretexto dos contos.
Depois li outros livros, mais volumosos, pra todos os públicos: novelas, romances, ensaios, não ficção. E os títulos, sempre uma novidade: Gosto de África, Bichos da terra tão pequenos, Quem ama literatura não estuda literatura... Carregados da polissemia que nos alimenta a alma.
O livro das cartas que ele escreveu pro filho (Quando eu voltei, tive uma surpresa) é uma das coisas mais bonitas de se ver, tocar, ler. A escrita aflita de um preso político transformada em arte da palavra, pintada de cores várias, com desenhos, um tratamento acolhedor ao filho. Um holding pros que se sentem desamparados.
Joel foi homenageado na Festa Literária de Santa Teresa – FLIST, do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT, em 2012. Muitos amigos queriam falar sobre ele (professores, escritores, músicos, psicanalistas...). Ampliamos o horário da atividade, porque a lista era grande.
Costumava começar as apresentações de palestras, mesas redondas, falando baixo, discretamente. Sua fala crescia na grandiosidade do que abordava, do que refletia. Nunca ouvi o Joel levantar a voz em uma apresentação pra crianças, jovens ou adultos. Ele puxava um caso e dele nos levava a um mergulho na nossa existência. Com a fineza que o acompanhava.
Também não me lembro de ver o Joel carregando um livro dele pra divulgar em uma feira ou festa de literatura. Ele ia muito disponível pra escutar os outros. Uma vez, o taxista descobriu que éramos escritores e passamos a longa corrida ouvindo as histórias que aquele senhor havia escrito e queria publicar. Joel conversou com ele como se estivesse conversando com uma autoridade da literatura. Quando percebi, os papeis estavam invertidos.
Tive a oportunidade de trabalhar na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ quando ele foi indicado por três vezes ao maior prêmio mundial da literatura infantil e juvenil, o Hans Christian Andersen do International Board on Books for Young People - IBBY. Por duas vezes, foi finalista. Em todas as preparações do seu material, ele foi de uma delicadeza, que me lembrava aquele bom colo de mãe. Chegava a me perguntar se valia à pena mesmo ser candidato. Claro! Ele já estava premiado pela indicação!
Nos últimos anos, participou de antologias que organizei, de encontros literários, cursos. Comparecia pontualmente e dissertava com simplicidade e sofisticação ao mesmo tempo. Até porque Joel era mais que um escritor, era um pensador e pesquisador da cultura. Muitas vezes, ia acompanhado da Teresa, sua esposa.  Não há como falar do Joel, sem falar de sua mulher de toda a vida, mãe dos seus dois filhos (Nelson e Juliana), sua companheira nos caminhos de literatura, de escrita, da defesa dos direitos humanos. Ela foi guardiã das cartas enviadas do presídio e, graças a ela, pudemos conhecer aqueles textos, que falam da história do nosso País. Salve Teresa!
Vez em quando, ele me ligava e pedia um contato de uma pessoa, quando, por exemplo, organizou o desenforcamento do Tiradentes pro Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Eu pensava: Nossa! Como o Joel tem idéias boas, inventa coisas de uma necessidade e de uma beleza! Isso vale pro Baile Charme de Madureira que aconteceu no centro do Rio, mês passado, uma das suas últimas ações políticas. Sem falar no ladrão que estava sendo espancado em Copacabana e ele o salvou, há semanas atrás.
Uma das coisas que ele mais dizia e que repetiu no lançamento do nosso livro Mapas literários: o Rio em histórias, na editora Rovelle, em agosto passado: “Estou sempre do lado dos mais fracos, pobres, pretos, índios, desfavorecidos...”
Perdemos. Um homem sério, de coragem, cheio de generosidade.
Não queria ter recebido aquele telefonema no dia quatro de setembro. Joel seguiu pra alguma estação e não pude me despedir do saudoso amigo. Fiquei com as palavras, as memórias, as histórias. Isso vou compartilhar com muita gente!

(fotos: Shala Felippi, Festa Literária de Santa Teresa - FLIST, do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT, outono, 2015)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A Poesia e os Caminhos de Ler

A Poesia e Os Caminhos de ler
 Ninfa Parreiras
 A canção dos tamanquinhos
Troc…  troc…  troc…  troc…
ligeirinhos, ligeirinhos,
troc…  troc…  troc…  troc…
vão cantando os tamanquinhos…

Madrugada.   Troc…  troc… 
pelas portas dos vizinhos
vão batendo, Troc…  troc… 
vão cantando os tamanquinhos…

Chove.  Troc…  troc…  troc… 
no silêncio dos caminhos
alagados, troc…  troc…
vão cantando os tamanquinhos…

E até mesmo, troc…  troc…
os que têm sedas e arminhos,
sonham, troc…  troc…  troc…
com seu par de tamanquinhos…   
(Cecília Meireles, in Obra poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997)
Poema bom de ler, ouvir, repetir. Isso me alegrava. Puro contentamento. Era algo simples. Gostava de, a cada vez, descobrir mais coisas:
que os tamancos podiam cantar.
que os tamancos podiam bater às portas dos vizinhos.
o silêncio e a solidão dos caminhos.
o barulho da chuva na pisada dos tamancos.
que os tamancos serviam para outra coisa além de calçar os pés.
que os tamancos podiam ser para todas e todos, como um livro em uma biblioteca.
que as coisas e os objetos tinham sons bonitos, na Poesia.
que um tamanco podia estar num poema e ganhar um lugar diferente.
que a repetição de sons e de palavras podia ter um efeito estético legal.
que havia poemas que não eram sonetos (conhecia sonetos lidos e declamados por meu pai, de poetas clássicos, Camões e Shakespeare, e outros feitos por ele).
Descobrir a Poesia!
Sentir o cheio das ruas.
o chuá da chuva.
o cheiro do barro.
Sonhar também com um par de tamanquinhos. Fiquei encantada pela sonoridade e pelo non sense. Podia sentir o gosto, o cheiro, a espessura, o som, a imagem... Comecei a ler e escutar outros poemas em versos livres da Cecília e de outros poetas. A Poesia não saiu mais da minha vida. A palavra poética e a literatura me habitam. Nos textos que crio, os versos chegam primeiro. Mesmo que seja um ensaio. Muitas vezes, preciso dos versos para começar a criar e depois os subtraio dos textos.
            Não foi menor o meu contentamento quando conheci na adolescência:
 Seiscentos e Sessenta e Seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
(Mario Quintana, in Esconderijos do Tempo, 1980, de Poesia completa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005)
Gostei da casa que queria dizer tanta coisa, inclusive a vida. Era bom pensar numa palavra que abarcasse tantos sentidos. (A metáfora) A grande vida que enfrentamos todos os dias. Na adolescência, a gente ganha formas indefinidas no corpo, na voz, na personalidade. Meio tronchos, os jovens amarram casacos na cintura, nas costas. Deixam os cabelos crescer, pintam, fazem tatuagens, colocam piercings. Há excessos e extravagâncias, haja casas para colocar isso tudo.
A gradação do tempo: 6 horas, 6ª feira, 60 anos... A repetição de quando nos revelando a fugacidade do tempo, o quão passageira é a vida. E as contradições do tempo: já, há, se.
A casca inútil é algo superficial, de fora, supérfluo. Há uma gozação com o tempo inventado pelos homens. Com a própria poesia. Quintana aborda aqui a vida, o tempo, a velhice, a morte, a memória e a poética.
Gosto do aspecto metapoético deste poema, que fala do fazer poesia sem falar. Fala de uma perda desnecessária de tempo, para seguir em frente com o fazer os versos. Deixar o extremamente necessário, enxugar a poesia.
E me deleito com as imagens que surgem, que me tomam de surpresa a cada vez que leio. É um poema contemporâneo, com um recado para o que vivemos (a falta de tempo), e, ao mesmo tempo, tem uma carga de espiritualidade belíssima.
Como psicanalista, nos textos e trabalhos clínicos, os versos chegam para abrir a página. Meus primeiros rascunhos. Interesso-me pelo ritmo da fala de um paciente. Por vezes, traz uma dor, algo indizível, sem linguagem verbal. Na sonoridade da sua fala, do seu silêncio, do seu gestual, do seu franzir de testa, do seu piscar de olhos, escapa a música do sofrimento. É aí que vou escutar, dar um contorno, um holding. Sua queixa e seus sintomas surgem na música do que me conta: silenciosa, chorosa, melancólica, gritona, apagada, repetitiva, indefinida, dubitativa, amedrontada...
Cada pessoa tem sua música na fala e a Poesia é o arranjo cuidadoso e bem acabado disso. Quando você junta palavras e prima pela beleza, pela combinação delas na construção de imagens, você faz Poesia. É a primeira forma, o primeiro gênero literário. A mãe de toda a literatura, a que embala o bebê, o faz dormir. A que consola os desesperados.
A Poesia costuma ser lida e passada adiante em duas situações principais da vida: a morte e a paixão desmedida. Reparem quando alguém morre: as pessoas enviam, postam, escrevem versos ou poemas de autores consagrados e desconhecidos.
Quando alguém está profundamente apaixonado, gosta de enviar versos. Só a Poesia dá conta da perda e da paixão, duas coisas que não sabemos explicar. Nem nomear.
            A Poesia me acompanha na leitura de romances, ensaios, contos... Sempre vai comigo. Quando conheci a obra de Bartolomeu Campos de Queirós, uma das coisas que me encantou é que ele abre cada texto com versos, epígrafes (na maioria das vezes, de autoria dele). Isso me prepara para a leitura.
Aprecio o conceito de poesia do Erza Pound, grande poeta norte-americano, de que o poema deve reproduzir a ordem natural da sintaxe de uma língua (falada) e não afastar-se demais da música ou da própria língua falada, já que o poema deve soar natural ao ouvido se for lido em voz alta.  A poesia de cordel é assim: reproduz nos versos a música da fala.Pound falava em diferentes maneiras de escrever dos poetas:
- uma ligada às qualidades sonoras da poesia (melopeia)
- outra às qualidades representativas sensoriais-imagéticas, especialmente visuais (fanopeia),
- e outra ligada ao jogo semântico, nomeada por ele de a dança das ideias (logopeia)
            Bom pensar a poesia com idéias, sons/musicalidade e sensações/imagens.
Organizo um sarau, em Santa Teresa, no Rio, a Poesia no Parque. Temos umas 20 pessoas voluntárias que se mantem na leitura dos poemas. Um grupo de escritores, ilustradores, contadores de histórias. Nunca faltam leitores e, cada vez mais, a Poesia aproxima, faz encontros, laços.
O que será que a Poesia diz a essas pessoas que a leem e a escutam? Convidada pelo SESC de algumas cidades (Paraty, Vitória, Canoinhas, São Bento do Sul, Rio Branco) para ministrar uma oficina de Poesia tenho me surpreendido. Em Paraty, houve fila e discussão na porta no primeiro dia. As quinze vagas foram preenchidas antes de começar a Festa Literária. Muita gente queria fazer a oficina. Em Vitória, eram mais de trinta inscritos e muitos deles profissionais com trabalhos publicados. Bom saber que há muitos que querem escrever, ler e estudar os versos.
Ministro uma aula de Poesia para professores do município do Rio de Janeiro no curso Jovens leitores (organizado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), há alguns anos. A maioria dos participantes diz não gostar ou não entender a Poesia. Quando começamos a ler, brincar com palavras em exercícios despretensiosos, eles se soltam. Saem satisfeitos com as leituras que fazemos e com as escritas que experimentamos.
No Rio, estava em cartaz, em 2014, uma vez por mês, agosto, setembro, outubro e novembro, a aula com Antonio Cícero, A Poesia. Auditório cheio em todas as apresentações. E o que ele faz é ler e comentar poemas dos poetas consagrados e dele.
Neste mundo tão cheio de adversidades, só mesmo a Poesia para desarmar e fazer amar. 


Margeia o mar, Poesia marginal

Margeia o mar, poesia marginal
                                                                      Ninfa Parreiras
                                                              Seja marginal
Seja herói
                             Helio Oiticica
             De muitas margens é feita a nossa vida. De tantas margens, a literatura. Na Poesia, a terceira margem reúne a musicalidade, o poder da imagem visual e a combinação de forma/conteúdo (a estética). São a melopeia, a fanopeia e a logopeia, definidas, por Erza Pound, como modos retóricos para a linguagem poética. Essa terceira margem habita um universo subjetivo, além de fronteiras e de cânones. A metáfora da existência, sem sentidos, sem explicações, sem racionalidades. A que vem do mundo ilógico, puro nonsense. Estranha no primeiro olhar, ela é estrangeira. Encanta, desconcerta. São falas de dentro para fora. Viscerais.  
            Tenho uma estreita afinidade com a linguagem marginal, seja a de um Grande Sertão: Veredas, seja a palavra cantada da poesia periférica, seja a dos cordeis. Poetrix, aldravias, invenções e reinvenções de formas: tudo isso entra na minha cesta de preferências poéticas. A economia de palavras, a condensação de imagens e a linguagem polissêmica: bom demais!
            Há pouco, tomei um livro emprestado, Antologia Poética de Vinicius de Moraes, Editora do Autor, autografado para a Condessa Pereira Carneiro, avó da amiga Maria Teresa. Veio com uma dedicatória de 1960, caligrafia do Poetinha e os poemas, antes (?) marginais.

A morte
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
p. 114 (Antologia poética de Vinícius de Moraes. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960)
            Fala fundo cada verso deste poema. Fala hoje, de hoje, para amanhã. Fiquei afagando as páginas amareladas do livro, reparando as costuras, os cortes à mão das folhas e as manchas. O papel, a impressão: tudo me revela um lado marginalizado da poesia. Ela se posiciona contra o já estabelecido e inaugura um modo de ser. Os poemas, agora clássicos. Parece que a marginalidade de um texto está apegada ao tempo. A poesia seria marginal quando nasce? Das bordas para o centro?
            Quando cheguei ao Rio, estudante de Letras, escutei falar de poetas que em Minas eu não conhecia. Chegaram para mim esparsos, não necessariamente na ordem em que aqui estão. Os cinco me marcaram e posteriormente me alegrei em tê-los reunidos em um livro da editora Ática. Tocavam fundo em mim. Coisas sem muita explicação.
            Ana Cristina Cesar vinha com uma intimidade assim surpreendente. Era a Ana Cristina C, uma coisa muito carioca para os meus ouvidos. Parecia que a gente estava no quarto com ela lendo os poemas, as cartas, os diários. Ela havia partido há alguns anos, mas continuava ali, viva. Era um entrar nos rascunhos, no fazer, algo na pele do papel, no esqueleto da tinta e do lápis. E também certo atrevimento com a escrita:
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
p 19
Ela escrevia coisas que eu imaginava pensadas, não escritas. Parecia que eu lia escondida os seus versos. Meus sentimentos eram traduzidos ali sem conjunções. A identidade, o acaso, a tentativa de um descobrir-se:

Poema óbvio
Não sou idêntica a mim mesmo
sou e não sou ao mesmo tempo, no mesmo lugar e sob
[o mesmo ponto de vista
Não sou divina, não tenho causa
Não tenho razão de ser nem finalidade própria:
Sou a própria lógica circundante
p 172

definição
poeta é onda
onda é canto
canto é espera
espera é adeus
adeus é morte
morte é nódoa
nódoa é ostra
ostra é ensaio
ensaio é busca
busca é poeira
poeira é poeta.
Anos 1960/1970
p 406 (Póetica. São Paulo: Companhia das Letras, 2013)
            Veio o Cacaso, com uma coisa gostosa das lembranças. Brincava com os sons, a polissemia. De uma delicadeza poética. Um desdobrar-se, em segredos e intimidades, sentimentos que não damos conta de entender. Sua vida, breve como sua poesia. Ele punha uma memória afetiva nos versos. Amor e humor juntos. Um sopro lírico:
Se o porco é espinho
caço e asso
se o corpo é sozinho
traço e passo
p 22

Álgebra elementar
Perder um amor é muito duro.
perder dois é bem menos.
p 26 (Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2006)
              E o Leminski? Sua poesia trazia formas concisas, a precisão. E desenhos, imagens feitas com / de palavras. De vocabulário comum, parecia ir fundo no avesso e nas roupas das palavras. Revestia-as de beleza sonora, de uns cem números de sentidos. Irreverência e uma surpresa a cada verso. A poesia dele nascia a cada leitura.
            esta vida é uma viagem
pena eu estar
            só de passagem
p 313

  de som a som
ensino o silêncio
  a ser sibilino

  de sino em sino
o silêncio ao som
  ensino
p 149 (Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013)
            Com o Chacal, vinha uma poesia irônica, irreverente e pop, seus versos chegavam a me desconcertar. Dava vontade de ler de novo. E de trás para frente. De novo. Uma velocidade musical. Falava de poesia associada às coisas mais banais.

Rápido e rasteiro
vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida
p 353 (Belvedere. São Paulo: CosacNaify, 2007)

Papagaio
Estranho o poder do poeta
escolhe entre quase e cais
quais palavras lhe convêm.
depois as empilha papagaio
e as solta no céu do papel
p 34 (Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2006)
            E o Francisco Alvim. Seus versos eram um painel da sociedade da época. Um brincar com palavras. Um falar, desfalar, desfolhar, o olhar lírico sempre presente.

Discordância
Dizem que quem cala consente
eu por mim
quando calo dissinto
quando falo minto
p 49 (Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2006)
            Eu achava que todo esse povo da poesia era carioca, porque chegaram para mim junto com a descoberta das coisas do Rio: a informalidade, a musicalidade, as gírias, a escrita feita como a fala, o uso de minúsculas. Isso foi na PUC, no curso de Letras. Comecei a ler esses poetas em papeis colados nos murais por não sei quem, ora mimeografados, ora xerocados. Junto com anúncios de aulas particulares, redação de monografias, revisão de textos, os poemas estavam lá. Gostava de circular silenciosa pelos corredores e descobrir os poetas que chegavam nas paredes. Foram meus primeiros colegas na faculdade. Pareciam anunciar algo, mas também gritar pela liberdade. Eu não entendia aquele movimento, mas gostava daquilo.
            Tinha uma reprodução direta da fala, sem exageros, nem rebuscamentos. Mais tarde, soube das edições artesanais que fizeram, da geração mimeógrafo. Uma poesia na contra ordem: a letra minúscula para iniciar o verso. Isso não funcionaria hoje numa digitação no computador. Briguei com o teclado para copiar aqui os poemas iniciados por minúsculas.
            Além disso, o fazer nascer o poema escrito à mão. Como seria isso hoje? Gosto da ideia desse feito à mão, como o livro homônimo da Lygia Bojunga, que assim fez pelos idos de 1996, em prosa. Foi tão bacana que se transformou depois num impresso! Teria sido marginal quando artesanalmente criou alguns exemplares?
            É bom reparar o modo de se comunicar das pessoas. As idiossincrasias na linguagem. A Nazir trabalha na casa da amiga Glória, em Porto Velho, RO, há alguns anos. Vejam como ela nos recebia para uma refeição:
chupar laranja
pensando na lima
engolir os caroço da tangerina
e já completou a rima

fazer cachorro quente
pra comer e quebrar o dente
é sinal
que vai dar muita gente

é dureza
casar com a Maria
sustentar a Teresa
que tem a perna tesa
e não sabe arrumar uma mesa
só sabe dar despesa
            Isso fazia com que as crianças comessem o que fosse posto na mesa, fosse lá um prato típico do norte. Os peixes, os legumes, as ervas. Tudo fazia sucesso. Na verdade, a Nazir fazia sucesso. Um dia, minha filha, com uns oito anos, observou: Mãe, o que ela faz é que nem a Cecília do Ou isto ou aquilo que você me diz pra ler. Só que ela não é famosa. Seria poesia marginal o que cria a Nazir?
            Gosto de escrever em folhas caídas das árvores. Páginas prontas para receber a escrita, com as manchas, os fungos, os ferrugens, os alto-relevos, as irregularidades. A escrita nasce neste terreno adubado de memórias vegetais. Nasce de modo diverso, sem computador, sem papel branco. Seria marginal? A palavra além de si mesma. O verso brotando da terra. Raízes poéticas.