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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Jornal velho para abrir o ano novo




Enrolados em jornal velho para ler o ano novo

Frangos enrolados em jornais. Na calçada da Biblioteca Nacional. Bem na esquina histórica do centro do Rio. Não eram livros para serem lidos, mas traziam histórias. Obras raras da roça, um território em extinção.
Era uma oferenda aos santos? Uma encomenda que o dono desistiu de vender? A ceia de fim de ano? Uma cria para ser engordada?

Cerca de meia dúzia de pacotes de frangos, com as cabeças e os pés à mostra. Bichos empacotados. Com barbantes que prendiam os pés e as cabeças. Presos, os frangos se foram. Não contaram histórias. Nem foram saboreados na virada do ano. Teriam deixado rolar a última lágrima do ano que se foi? Lágrima de tristeza ou de sorte, com cacarejos calados.


O ar era quente e cheirava a podre. Sujeira acumulada de urina ao asfalto, restos de chuva, de poeira urbana. Quantas dívidas a pagar e missas a rezar! O ano se foi entre chuvas e tempestades. Derramou insucessos, transbordou dores. Líquidas, as certezas se foram pelas enxurradas e calaram a voz da cidade. Solitária, ela contava os últimos transeuntes. O centro ficou abandonado na virada do ano. Restaram papéis picados ao vento, dançantes como bailarinos que improvisam os passos do que vai começar.

Nas filas de embarque, os sorrisos brotavam com coragem de abrir a janela de um novo ano. E o choro embaçava o que está por vir. Gente que vai pra lá e pra cá. Gente que parte. De carro, carona, caminhão, carroça, camionete, charrete. Gente que chega ao aeroporto, ao porto, à estação rodoviária e ferroviária. Gente cansada, molhada de suor e fadiga.

O que dizer dos frangos enrolados e amassados? Que notícias nos trazem? Ou o que levaram daqui? Perderam a altivez do terreiro, os restos de comida, as minhocas pela cabeça. Perderam até a faca atravessada ao pescoço. E a pose na ceia de natal. A companhia da farofa ou simplesmente do feijão com arroz de todo dia.

Para onde terão ido? Para um lixão de periferia, abarrotado de sobras do ano que passou? Juntaram-se às flores depositadas ao mar para Iemanjá? Viraram o que o mar devolve? Os frangos partiram com 2008 e deixaram perguntas para os que ficamos. Um jornal velho para descortinar o novo...


Ninfa Parreiras
(foto: arquivo pessoal, Papagaio, MG)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Do Fundo

Do Fundo

Do fundo, bem do fundo...

Era um auditório, ou era um galpão? Isso pouco importa. Estava cheio de educadores inscritos em um curso de literatura. Lá numa pequena cidade do centro-oeste de Minas, num final de semana. Alguns eram supervisores, outros coordenadores, outros diretores de escolas, uns setenta. De Papagaio, de Maravilhas, de Catita, de Vargem Grande.

Fui testemunha do que vou lhes contar. Vi um senhor e duas senhoras descobrindo o sabor do texto. O brilho das ilustrações.

No primeiro dia, às horas da noite, o senhor esticava os olhos e os ouvidos para a aula que eu ministrava. Buscava as ilustrações de um livro de histórias, o relato de um conto. Seu corpo cansado tombava, mesmo de pé, próximo a uma cadeira vazia. E suas mãos não disfarçavam a curiosidade pela aula, folheavam cada palavra. Foram muitas suas expressões, como um ator de um monólogo.

Depois de alguns minutos, atento aos conteúdos, aquele senhor se entregou à cadeira e pôde, confortavelmente, ser um ouvinte daquela aula num início de noite chuvosa. Quem seria ele? O esposo ou o pai de uma das professoras? Um diretor de escola? Um vigia da escola? Seria um analfabeto, num país onde o analfabetismo ainda é um fantasma? Saberia ler alguma coisa? Gostava de histórias?

Não importa quem fosse ele, era um interessado na aula e nas histórias. Seus olhos não desgrudavam dos livros e dos contos e das falas. Senti-me acolhida com aquela cumplicidade do olhar.

A presença daquele senhor foi somada a de duas senhoras de avental e de toca na cabeça, mais uma mocinha, atentas às falas. As merendas servidas por elas nos intervalos foram fartas, variadas entre biscoitos de queijo, broas, rosquinhas... Chá de canela, café grosso, leite gordo. E muita simpatia das pessoas.

No lado oposto deles, eu via e fotografava os olhares, as escutas, as curiosidades silenciadas... Quando chegava a hora deles se aproximarem, ao fundo do auditório, eu já me sentia emocionada. Afinal, foram três chances que me deram, ao final dos três diferentes turnos do curso.

Tive vontade de tomar em minhas mãos a câmera fotográfica e registrar aquele conjunto de pessoas que não estavam inscritas no curso, mas se deixavam levar pelas palavras que ouviam. Quem seriam as senhoras? Cantineiras? Serventes? Auxiliares da diretoria? Que faziam elas tão atentas ao fundo do auditório? Pareciam cansadas, mas também concentradas e curiosas. Tive ainda vontade de ouvi-las, conhecer seus casos.

Do fundo, vinha uma voz calada, de quem não pôde freqüentar as carteiras escolares, de quem não folheou os livros, nem deixou o lápis deslizar pelo papel branco, a criar composições.
Do fundo, eu via marcas no rosto de quem trabalha e fecha a escola. Mas eles queriam histórias, ou simplesmente ouvir a voz de quem conta.

Do fundo, aqueles senhores, cidadãos de um Brasil dos campos e das minas. Senhores da enxada? Da pá? Das vassouras? E onde entram os livros em suas vidas? Teriam filhos? Sobrinhos? Netos? E estes seriam leitores?

Do fundo, gritavam mudos, avançando pela escuridão do outono.

Na terra da ardósia, ardia a poeira molhada na minha fala. Com a chuva que caía mansa e com a escuridão que tomou conta do final do curso, fui assombrada pela cena que vivi.

O escuro se misturava às imagens deles, trazendo figuras, ao mesmo tempo, contentes e cansadas. Contentes com o que? Com as histórias, os livros, as ilustrações, a fala que ouviam. Cansadas de que? Dos anos sem histórias lidas e contadas. Dos anos sem. Sem leitura. Queriam, sim, cem livros de histórias!

Não sou a mesma professora de antes. Aqueles senhores, meus novos alunos, entregaram seus olhares para mim, em voto de confiança.

- Conta aí mais uma história, dona.

- Abra aqueles outros livros de figuras e vai passando os meses e os anos.

Para ver se a vida é outra. Se o sapo vira mesmo príncipe. Isso! Era isso que me pediam. E eu não podia negar-lhes. Eles tinham sede de livros, como as professoras, numa cidade onde não há uma livraria. Mas há o desejo de alguns de trazer os livros e os autores e a literatura. E lá estão!
Nas páginas dos olhos de cada um daqueles senhores, nas letras borradas escritas em suas faces enrugadas, nas lombadas de suas dores de velhos.



Ninfa Parreiras
Papagaio, MG, outono, 2008

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(Para a Rosa Filgueiras, que me deixou perto da turma do fundo)

(foto: arquivo pessoal, Papagaio, 2008)



terça-feira, 14 de outubro de 2008

PASSE LIVRE


O Passe Livre



Era uma tarde de sábado, céu aberto e calor, como tantas outras em São Luís do Maranhão. Calor ao vento, nas gentes, nas águas. Mas aquela era uma tarde da 2ª Feira do Livro na Praça Maria Aragão, entre o Rio Anil e uma escadaria colossal que dava para um mirante do centro histórico da cidade. Ruínas, degraus, coretos, igrejas, azulejos, tambores, histórias e livros eram lambidos pelos rios e pelo oceano que cercam a ilha.

O lançamento de livros do qual participei acontecia na Casa do Escritor, espaço montado especialmente para a Feira, com uma infra-estrutura impecável e a presença constante dos maranhenses que nos recebiam com um cuidado singular. Para meu contentamento, poetas, usuários do Hospital Psiquiátrico Nina Rodrigues, também lançariam livros naquele momento.

Fui convidada a iniciar o encontro e li Com a maré e o sonho, minha primeira história publicada. Um conto curto que discorre sobre os sentimentos de uma menina que sonha em conhecer o mar e acompanha as mudanças de um coco verde que trinca, perde a água, ganha cheiro forte, se transforma... Conversamos sobre a história e ouvi comentários dos presentes:

- A senhora sabe então que o coco dá numa árvore-comprida-fina.
- Aqui no Maranhão tem coco de tudo que é tamanho e cor. Do babaçu, conhece?
- E a senhora descobriu que o coco se parece com gente, tem olhos, boca e até barba.
- O coco é seco, mas tem mesmo a água dentro.

Prossegui à leitura de outro conto, agora sobre uma perda e os sonhos que escorrem com a chuva dos olhos da personagem: A velha dos cocos. Risos calados e olhos molhados. As pessoas me olhavam duras, enterradas nas cadeiras, feito o coqueiro plantado na areia. Conversamos mais um pouco e o público foi se animando. Em sua maioria, adultos, idosos; cada um levantava a mão para falar, perguntar... Frases curtas, olhares que pediam. Pediam o que? Para terem voz? Quem os ouvisse? Pediam histórias? Senti que me falavam tanto com o silêncio.

Passei a palavra aos outros autores que timidamente apresentaram seus livros em meia dúzia de palavras contidas. Ali parecia que o encontro de autores havia terminado. Mas aqueles olhos que percorriam as páginas do pequeno auditório... Aqueles corpos enterrados na areia...

Sugeri que lessem ou declamassem seus poemas. Escutamos versos apaixonados, outros cheios de perguntas à vida e ao tempo. Depois dos poemas, passaram aos depoimentos. Eram palavras que saiam de dentro d’alma:

- Não quero sair do Hospital Nina Rodrigues, é lá que sou feliz.
- Agradeço ao meu filho que me levou pro Nina.
- Gosto daqui, aqui quero ficar, no Nina Rodrigues.
- Eu confio em Nosso Senhor, com fé, esperança e amor. Vá embora qualquer tentação, eu confio em Nosso Senhor, com fé, esperança e amor... Eu confio...

Era uma voz doce e aguda. Vinha de uma boca com poucos dentes e muitas rugas. Quanta vontade de falar!, de declamar, de ser ouvida!

Um senhor da platéia levantou a mão e falou baixo, dirigindo-se a mim:

- A senhora tem sabedoria do coco, das palavras, das coisas, mas...

Pedi que falasse ao microfone. No fundo, no fundo, eu não sabia o que podia vir dali. Sabia que ele falava de algo que me faltava. E agora?

- A senhora tem a sabedoria do coco, da brincadeira de palavras, dessa poesia, das coisas todas... Mas. Só lhe falta uma coisa:
O Passe Livre.

Perguntei-lhe o que era o Passe Livre, ao que ele me mostrou o cartão de passe livre dentro de sua carteira.

Pois é, não tenho mesmo o Passe Livre, Seu João. O passe... O livre... Palavras cheias de liberdade!

Ainda sorteei alguns exemplares da obra Com a maré o sonho. Perguntei quem fazia aniversário naquele dia, para facilitar o sorteio. Nenhuma resposta.

No dia anterior? Ninguém.
No dia seguinte? Também ninguém. Continuavam enterrados na areia.
Semana passada?

Então, no mês de outubro? Um senhor levantou a mão e se dirigiu a mim com a alegria de quem ganhava pela primeira vez um livro para ler.

Em seguida, uma senhora me diz já abraçada ao meu livro:

- Faço aniversário no mês que a doutora quiser.

Aquele exemplar já era dela!

E outro senhor: faço aniversário em junho.
E mais outro: em dezembro. Em janeiro. Maio. Julho. Setembro... As mãos erguidas, a voz alta, o mês de aniversário. Os corpos brotaram das cadeiras. Como cocos dos coqueiros.

Os meses todos despertaram e em voz alta nos contaram que o ano que vem tem mais Feira do Livro.

Ninfa Parreiras
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Para a Lucia Nascimento e a Rosinha Ferreira Lima, que me proporcionaram o Passe Livre para este encontro inesquecível em São Luís do Maranhão, primavera, 2008
(foto: arquivo pessoal, São Luís, primavera, 2008)

sábado, 4 de outubro de 2008

Linguagens cortadas


Linguagens cortadas


Era uma tarde de sexta-feira, de euforias e de alegrias. De recolhimentos. De pessoas que circulavam a pé, de bicicleta, de carro, de ônibus, de van... Vão embora que o sol arde! A última hora trabalhada. A última compra da semana. A última de tudo: da fila, do supermercado, da Praça Nossa Senhora da Paz de Ipanema... O último paciente, a última escuta. Último corte. Um recorte do cotidiano na praça.

Vi e ouvi uma mãe que surrava um filho pequeno de uns cinco anos. E o filho surrava a mãe. E a mãe era também pequena, não tinha mais que vinte anos. Mais que um metro e meio. Uma surra de amarguras, de perdas, de cortes. Surra. Cada qual com um pé de chinelo na mão, que se engrandecia como uma prancha de borracha. Chlap! Seu vagabundo! Chlap! Sua puta! Seu bando de merda, tu não vale nada! Chlap!

Parei, estarrecida, imóvel, diante da falta de palavras e do excesso de tapas e berros. E urros e dores. Não grita no meu ouvido! Meu ouvido não é penico, oh! Mas havia pessoas que emudeceram junto comigo. Os olhos pularam assustados em cima de tamanha crueldade.

E as mãos? E as palavras? Minhas e dos outros? Onde foram parar? Onde foram falar? Chlap! Chlap! Seu! Sua! Seus transeuntes que passam! Que cena é esta? Que praça é esta?

A linguagem cortada, serrada ao meio, aos trancos e aos ventos. Meus ouvidos seguiram os dois. E a brutalidade se perdia ao longo das esquinas. Estaria escondida? Era uma fugitiva?


Ninfa Parreiras
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(foto: arquivo pessoal, Rio de Janeiro, inverno, 2007)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Quem sabe de si?





Quem sabe de si?

Foi procurada por algumas pessoas pelo telefone. Seu telefone celular não havia chamado. Estaria mudo? No silencioso? Não ouvira nenhum ruído diferente do que o da campainha de sempre. O que se passou, então? Mas havia pessoas que insistiam. Em dizer que ligaram e não foram atendidas.

E que recados de reunião seriam aqueles no escritório? Sentia como se as pessoas soubessem mais dela do que ela mesma. Seu telefone celular emitia uma mensagem para recados que ela desconhecia. Seu telefone de casa, depois de três ou quatro toques, anunciava uma mensagem genérica com uma gravação de que estava ocupada. E o telefone do trabalho transmitia uma mensagem de reunião. O que mais faltava?

Entre uma reunião, o estar ocupada, o estar fora de casa, sentia-se fora de si. Fora do mundo. Fora de controle. Que raios de controles eram aqueles!

Se, por um lado, o uso da telefonia se especializava cada vez mais, por outro lado, era menos dona de si, dos seus recados. Do seu estar no mundo. Não podia nem optar por atender ou não uma chamada de telefone. Nem sequer as escutava todas!

E o que pensavam as pessoas? Em cada chamada não atendida, com uma mensagem mecânica daquelas, quantas frustrações? E quantos sonhos e fantasias? E nãos e sins. E talvezes. Quantas mensagens automáticas! E pessoas não atendidas. Quem sabe de si?

Ninfa Parreiras
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(foto: arquivo pessoal, Pedro do Rio, outono, 2008)

domingo, 15 de junho de 2008

UM HOMEM AO TEMPO




Um homem ao tempo

Ontem, dei voltas pelo bairro e vi em todas as voltas o mesmo homem. O mesmo cheiro de falta. De banho. De cuidado. O mesmo cobertor furado e rasgado. Rasgado pelo tempo que dá voltas na gente. Furado por balas de tiroteio? Tiroteios ao peito, batidas fortes de quem acorda com a sirene do corpo de bombeiros e dorme com as cantadas de pneus no asfalto. Ou de quem acorda com a obra do metrô da Praça General Osório e dorme com o baile funk do Pavãozinho.


Volta e meia lembro-me daquele homem e dos seus traços de meia idade pelas ruas do bairro. Suas linhas de velhice que bate à porta do tempo. Mora só, na rua. Mas vive rodeado por gentes, camelôs, carros, ônibus, tratores... Vive rodeado da solidão urbana que nos persegue.


- Paga um café, pra mim, madami?


O que pede aquela assombração humana, coberta de cobertores rasgados e furados, de pele drapeada ao vento? Que café deseja beber? Um gole de vida dormida? Café ralo, coado sobre os jornais de ontem? Um gole amargo, com gosto de bebida passada?


O que se passou ontem com o homem que dá voltas pelo bairro? Uma melancolia profunda? A solidão de todos os dias? Homem do nosso tempo. Flutua sobre os restos de todos. Sobrevive do que sobrou da sua, da minha casa. Restos de gente. Torresmo, há? Há restos. Ele é um resto de gente que o tempo arrasta com o cobertor pela voltas do bairro.




Ninfa Parreiras
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(foto: arquivo pessoal, Lapa, Rio de Janeiro, verão, 2008)