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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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domingo, 15 de junho de 2008

UM HOMEM AO TEMPO




Um homem ao tempo

Ontem, dei voltas pelo bairro e vi em todas as voltas o mesmo homem. O mesmo cheiro de falta. De banho. De cuidado. O mesmo cobertor furado e rasgado. Rasgado pelo tempo que dá voltas na gente. Furado por balas de tiroteio? Tiroteios ao peito, batidas fortes de quem acorda com a sirene do corpo de bombeiros e dorme com as cantadas de pneus no asfalto. Ou de quem acorda com a obra do metrô da Praça General Osório e dorme com o baile funk do Pavãozinho.


Volta e meia lembro-me daquele homem e dos seus traços de meia idade pelas ruas do bairro. Suas linhas de velhice que bate à porta do tempo. Mora só, na rua. Mas vive rodeado por gentes, camelôs, carros, ônibus, tratores... Vive rodeado da solidão urbana que nos persegue.


- Paga um café, pra mim, madami?


O que pede aquela assombração humana, coberta de cobertores rasgados e furados, de pele drapeada ao vento? Que café deseja beber? Um gole de vida dormida? Café ralo, coado sobre os jornais de ontem? Um gole amargo, com gosto de bebida passada?


O que se passou ontem com o homem que dá voltas pelo bairro? Uma melancolia profunda? A solidão de todos os dias? Homem do nosso tempo. Flutua sobre os restos de todos. Sobrevive do que sobrou da sua, da minha casa. Restos de gente. Torresmo, há? Há restos. Ele é um resto de gente que o tempo arrasta com o cobertor pela voltas do bairro.




Ninfa Parreiras
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(foto: arquivo pessoal, Lapa, Rio de Janeiro, verão, 2008)