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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Quem sabe de si?





Quem sabe de si?

Foi procurada por algumas pessoas pelo telefone. Seu telefone celular não havia chamado. Estaria mudo? No silencioso? Não ouvira nenhum ruído diferente do que o da campainha de sempre. O que se passou, então? Mas havia pessoas que insistiam. Em dizer que ligaram e não foram atendidas.

E que recados de reunião seriam aqueles no escritório? Sentia como se as pessoas soubessem mais dela do que ela mesma. Seu telefone celular emitia uma mensagem para recados que ela desconhecia. Seu telefone de casa, depois de três ou quatro toques, anunciava uma mensagem genérica com uma gravação de que estava ocupada. E o telefone do trabalho transmitia uma mensagem de reunião. O que mais faltava?

Entre uma reunião, o estar ocupada, o estar fora de casa, sentia-se fora de si. Fora do mundo. Fora de controle. Que raios de controles eram aqueles!

Se, por um lado, o uso da telefonia se especializava cada vez mais, por outro lado, era menos dona de si, dos seus recados. Do seu estar no mundo. Não podia nem optar por atender ou não uma chamada de telefone. Nem sequer as escutava todas!

E o que pensavam as pessoas? Em cada chamada não atendida, com uma mensagem mecânica daquelas, quantas frustrações? E quantos sonhos e fantasias? E nãos e sins. E talvezes. Quantas mensagens automáticas! E pessoas não atendidas. Quem sabe de si?

Ninfa Parreiras
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(foto: arquivo pessoal, Pedro do Rio, outono, 2008)