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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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terça-feira, 14 de outubro de 2008

PASSE LIVRE


O Passe Livre



Era uma tarde de sábado, céu aberto e calor, como tantas outras em São Luís do Maranhão. Calor ao vento, nas gentes, nas águas. Mas aquela era uma tarde da 2ª Feira do Livro na Praça Maria Aragão, entre o Rio Anil e uma escadaria colossal que dava para um mirante do centro histórico da cidade. Ruínas, degraus, coretos, igrejas, azulejos, tambores, histórias e livros eram lambidos pelos rios e pelo oceano que cercam a ilha.

O lançamento de livros do qual participei acontecia na Casa do Escritor, espaço montado especialmente para a Feira, com uma infra-estrutura impecável e a presença constante dos maranhenses que nos recebiam com um cuidado singular. Para meu contentamento, poetas, usuários do Hospital Psiquiátrico Nina Rodrigues, também lançariam livros naquele momento.

Fui convidada a iniciar o encontro e li Com a maré e o sonho, minha primeira história publicada. Um conto curto que discorre sobre os sentimentos de uma menina que sonha em conhecer o mar e acompanha as mudanças de um coco verde que trinca, perde a água, ganha cheiro forte, se transforma... Conversamos sobre a história e ouvi comentários dos presentes:

- A senhora sabe então que o coco dá numa árvore-comprida-fina.
- Aqui no Maranhão tem coco de tudo que é tamanho e cor. Do babaçu, conhece?
- E a senhora descobriu que o coco se parece com gente, tem olhos, boca e até barba.
- O coco é seco, mas tem mesmo a água dentro.

Prossegui à leitura de outro conto, agora sobre uma perda e os sonhos que escorrem com a chuva dos olhos da personagem: A velha dos cocos. Risos calados e olhos molhados. As pessoas me olhavam duras, enterradas nas cadeiras, feito o coqueiro plantado na areia. Conversamos mais um pouco e o público foi se animando. Em sua maioria, adultos, idosos; cada um levantava a mão para falar, perguntar... Frases curtas, olhares que pediam. Pediam o que? Para terem voz? Quem os ouvisse? Pediam histórias? Senti que me falavam tanto com o silêncio.

Passei a palavra aos outros autores que timidamente apresentaram seus livros em meia dúzia de palavras contidas. Ali parecia que o encontro de autores havia terminado. Mas aqueles olhos que percorriam as páginas do pequeno auditório... Aqueles corpos enterrados na areia...

Sugeri que lessem ou declamassem seus poemas. Escutamos versos apaixonados, outros cheios de perguntas à vida e ao tempo. Depois dos poemas, passaram aos depoimentos. Eram palavras que saiam de dentro d’alma:

- Não quero sair do Hospital Nina Rodrigues, é lá que sou feliz.
- Agradeço ao meu filho que me levou pro Nina.
- Gosto daqui, aqui quero ficar, no Nina Rodrigues.
- Eu confio em Nosso Senhor, com fé, esperança e amor. Vá embora qualquer tentação, eu confio em Nosso Senhor, com fé, esperança e amor... Eu confio...

Era uma voz doce e aguda. Vinha de uma boca com poucos dentes e muitas rugas. Quanta vontade de falar!, de declamar, de ser ouvida!

Um senhor da platéia levantou a mão e falou baixo, dirigindo-se a mim:

- A senhora tem sabedoria do coco, das palavras, das coisas, mas...

Pedi que falasse ao microfone. No fundo, no fundo, eu não sabia o que podia vir dali. Sabia que ele falava de algo que me faltava. E agora?

- A senhora tem a sabedoria do coco, da brincadeira de palavras, dessa poesia, das coisas todas... Mas. Só lhe falta uma coisa:
O Passe Livre.

Perguntei-lhe o que era o Passe Livre, ao que ele me mostrou o cartão de passe livre dentro de sua carteira.

Pois é, não tenho mesmo o Passe Livre, Seu João. O passe... O livre... Palavras cheias de liberdade!

Ainda sorteei alguns exemplares da obra Com a maré o sonho. Perguntei quem fazia aniversário naquele dia, para facilitar o sorteio. Nenhuma resposta.

No dia anterior? Ninguém.
No dia seguinte? Também ninguém. Continuavam enterrados na areia.
Semana passada?

Então, no mês de outubro? Um senhor levantou a mão e se dirigiu a mim com a alegria de quem ganhava pela primeira vez um livro para ler.

Em seguida, uma senhora me diz já abraçada ao meu livro:

- Faço aniversário no mês que a doutora quiser.

Aquele exemplar já era dela!

E outro senhor: faço aniversário em junho.
E mais outro: em dezembro. Em janeiro. Maio. Julho. Setembro... As mãos erguidas, a voz alta, o mês de aniversário. Os corpos brotaram das cadeiras. Como cocos dos coqueiros.

Os meses todos despertaram e em voz alta nos contaram que o ano que vem tem mais Feira do Livro.

Ninfa Parreiras
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Para a Lucia Nascimento e a Rosinha Ferreira Lima, que me proporcionaram o Passe Livre para este encontro inesquecível em São Luís do Maranhão, primavera, 2008
(foto: arquivo pessoal, São Luís, primavera, 2008)

sábado, 4 de outubro de 2008

Linguagens cortadas


Linguagens cortadas


Era uma tarde de sexta-feira, de euforias e de alegrias. De recolhimentos. De pessoas que circulavam a pé, de bicicleta, de carro, de ônibus, de van... Vão embora que o sol arde! A última hora trabalhada. A última compra da semana. A última de tudo: da fila, do supermercado, da Praça Nossa Senhora da Paz de Ipanema... O último paciente, a última escuta. Último corte. Um recorte do cotidiano na praça.

Vi e ouvi uma mãe que surrava um filho pequeno de uns cinco anos. E o filho surrava a mãe. E a mãe era também pequena, não tinha mais que vinte anos. Mais que um metro e meio. Uma surra de amarguras, de perdas, de cortes. Surra. Cada qual com um pé de chinelo na mão, que se engrandecia como uma prancha de borracha. Chlap! Seu vagabundo! Chlap! Sua puta! Seu bando de merda, tu não vale nada! Chlap!

Parei, estarrecida, imóvel, diante da falta de palavras e do excesso de tapas e berros. E urros e dores. Não grita no meu ouvido! Meu ouvido não é penico, oh! Mas havia pessoas que emudeceram junto comigo. Os olhos pularam assustados em cima de tamanha crueldade.

E as mãos? E as palavras? Minhas e dos outros? Onde foram parar? Onde foram falar? Chlap! Chlap! Seu! Sua! Seus transeuntes que passam! Que cena é esta? Que praça é esta?

A linguagem cortada, serrada ao meio, aos trancos e aos ventos. Meus ouvidos seguiram os dois. E a brutalidade se perdia ao longo das esquinas. Estaria escondida? Era uma fugitiva?


Ninfa Parreiras
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(foto: arquivo pessoal, Rio de Janeiro, inverno, 2007)