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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Bolo da Bebel


O Bolo da Bebel

Ninfa Parreiras

Bebel gosta de costurar, cerzir, cortar, recortar. Palavras? Por anos, costura tecidos, cria vestidos, adorna quartos: retalhos, panos, recortes. Cortinas, saias, tapetes, casacos. Casamentos, batizados, mudanças, andanças, baladas, shows, pagodes, sambinhas de raiz: a vida por um triz. O que atravessa o coração; o que viaja no sopro do vento.
Criou os filhos, acolhe os sobrinhos e os vizinhos. Bebel é dona de casa, zelosa, companheira. Costura a vida inteira e trança por bairros distantes.
Ela mora em Bangu, sai de casa um dia da semana para viver as histórias dos livros, ler, associar... Um encontro com a literatura. Soma-se a outras pessoas, descobre as gavetas dos contos, os silêncios dos poemas. Ela interrompe os tecidos de panos, faz tecidos de palavras.
Bebel toma um ônibus, um trem, um bonde... chega à Santa Teresa. Caminha por ruas apertadas, trilhos escorregadios, dribla a vida, teima em descobrir. A vida, cheia de encantos, de palavras esquecidas.
Para uma tarde de encontros literários, ela preparou um bolo de fubá, coberto por fina camada de raspa de laranja. E uma porção de açúcar. Seu bolo ficou um encanto. Qual peça de cerâmica rebordada. Cheio de cuidados, presságios, avisos, carinhos. O bolo mel de Bebel.

Bolo e olhar: a vida em pedaços.
Ela aprecia o saborear das amigas, cada pedaço uma história. Da infância, Espírito Santo, fazendas, luares, a fantasia. De que cor é o medo? E a curiosidade? O bolo dela é multicor: verde-branco; branco-esverdeado; amarelinho; verde-amarelo, saboroso... O bolo é sua arte, sua criação, sua história: de menina, de mulher, de esposa, de mãe, de companheira, de costureira, cerzideira de casos.

Mulher do Brasil multicolorido de ruas, de casas, de costuras, de bolos, de gestos, de colheres, de talheres... Precisamos de você, Bebel, para encantar as pessoas com sua arte-menina.


(foto: arquivo pessoal, Inhotim, MG, inverno, 2009)
Para a Maria Izabel, pela companhia agradável, entre livros e bolos, outono de 2010

INHOTIM


INHOTIM

Uma das boas coisas das Minas Gerais é a transformação da linguagem, da fala das pessoas. Do chegar perto pela palavra. Para uma mineira que mora longe de casa, é bom retornar às Minas. E redescobrir as falas, os sotaques, as palavras cortadinhas, os cantos da língua, os diminutivos, as abreviações, as reduções dos nomes. Vó Nhá, Candin, Sô, Toin, Sãozinha, Sá... A intimidade se revela numa palavra pronunciada. O sentimento chega pelo que foi dito. Sagrada é a palavra! O que foi pronunciado mostra quem é você. Quem é o outro. Qual a relação há entre os dois.


Inhotim é um nome de gente. De um senhor? Um parque natural de arte contemporânea. De visita obrigatória. Bem perto da capital, no município de Brumandinho, rodeado de serras gerais. Lagos, instalações de arte, bosques, jardins, trilhas... Árvores centenárias, arbustos, rastejantes, muitas aves e esculturas te surpreendem pelo passeio. Rodeado de montanhas de mata de cerrado, o parque te leva a lugares para sentir cheiros, tocar texturas, ouvir rangidos. Uma diversão ir com crianças! Olhar, escutar, sentir, imaginar, pisar, sonhar, descortinar tantas janelas!

Gentes minerais, esculturas líquidas, cadeiras vegetais... Uma comunhão de gestos, de vestes, de coreografias. Faz bem aos olhos, aos ouvidos, ao coração. Inhotim é bom demais!
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Ninfa Parreiras
(foto: arquivo pessoal, gente de Brumadinho, julho 2009, Inhotim)