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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Algumas palavras, alguns livros 7

Lino
Texto e ilustrações André Neves
São Paulo: Callis, 2010

Se o brinquedo é o objeto simbólico, por excelência, da infância, ele estaria presente nas produções culturais destinadas às crianças? Como ele estaria representado na literatura infantil? Em Lino, obra de autoria de André Neves, os brinquedos são as personagens da história. Desaparecer, mudar, surpreender-se são algumas das vivências daqueles bonecos. Na verdade, situações que nos remetem às experiências das crianças: sentir medo, estar angustiada, não saber o que vai acontecer, descobrir o novo...

Em uma narrativa breve, pontuada por uma riqueza sonora das palavras (Lino, Lua, Estrela, rodas, rodopios, reviravoltas...), o autor nos leva a passear num mundo de brinquedos. Histórias para bebês e crianças pequenas devem explorar a musicalidade da nossa língua, como notamos em Lino. Devem surpreender o leitor em cada passar de páginas, como um brinquedo que possibilita um mergulho num faz-de-conta.

Em capa dura, papel couché, grandes ilustrações que parecem desenhos em 3D: são imagens que pulam aos nossos olhos e nos transportam a um mundo mágico, de fantasias e de brincadeiras. Curioso como o artista criou brinquedos com botões e com formas ao gosto dos pequenos que exploram os sentidos, principalmente o tocar, o puxar. Dá vontade de tocar o porquinho, mexer em seu focinho de botão; de apertar a barriguinha de Lua e descobrir o que acontece. E como é acolhedor ser recebido numa casa de estranhos e encontrar um lugar para se acomodar e ser do jeito que se é, com suas peculiaridades.

Obra indicada para os pequenos leitores e para os adultos que lidam com as crianças. Mesmo que elas ainda não saibam ler o texto, passearão os olhos nas imagens e ouvirão com gosto a história lida por alguém. Não faltam, em Lino, objetos, situações e afetos que são tão próprios da primeira infância. Se aprendemos, na psicanálise, com Winnicott, que as crianças precisam de um objeto transacional para se constituírem como sujeitos, como um apoio, uma segurança, em Lino há objetos e espaços a serem descobertos pelos pequenos.
                                                                                 Ninfa Parreiras



Ode a uma estrela
Pablo Neruda
Tradução Carlito Azevedo
Ilustrações Elena Odriozola
São Paulo: Cosac Naify, 2010


O poeta chileno Pablo Neruda criou, dentre outras produções, muitas odes. A ode é um poema lírico, destinado ao canto na Antiga Grécia. Constituída de versos em estrofes, imprime um tom descontraído ao poema. Ode a uma estrela estava incluída no terceiro livro de Odes elementares, publicado em 1957.

No poema, nos deparamos com utopias que nos colocam em contato com a nossa existência: podemos guardar nossos sonhos? Colocá-los no bolso? Escondê-los das pessoas? Frente aos afazeres do cotidiano, precisamos de sonhos. Precisamos também de poesia, que nos traz um instante de contato com nosso eu interior e com o deleite das palavras. E ainda nos aproxima do sonho de outro (o poeta). E quem seria o poeta? Aquele que reinventa a fantasia?
O que seria a poesia? Talvez seja essa a questão da obra de Neruda que traz versos carregados de musicalidade e de surpresas. Entre a estrela e o poema, está o sonho, o motor dos nossos dias, o alento para nossa vida.

Cada ilustração, em página inteira que se esparrama pela página lateral, faz como o brilho da estrela ou o encantamento do poema. Enche de luminosidade os olhos de quem lê.

De autoria da artista basca Elena Odriozola, as imagens nos capturam e comungam do lirismo presente no texto. Sugerem sensações, não revelam, nos convidam a passear por páginas e ruas. Deslocamentos e movimentos, de cima para baixo, de baixo para cima, para o lado, são reproduzidos como um modo de nos levar pelas entrelinhas do poema. Muitas vezes, poemas e imagens não são para serem entendidos, mas para serem sentidos. Cada leitor terá uma história diferente com um mesmo poema, basta abrir a portinha da imaginação.
                                                                 Ninfa Parreiras

Selvagem
Roger Mello
São Paulo: Global, 2010

Em capa dura, encadernação costurada, guardas compostas com pequenos quadros, papel de boa gramatura, esta obra sem texto aborda o selvagem. São detalhes de cuidado com o novo livro do premiado ilustrador e escritor Roger Mello. Em fino acabamento, encantará leitores de diferentes idades, pelo caráter universal que o autor aborda. Sem linearidade, nem conclusão, Roger brinca com uma fotografia, um homem, um tigre... A curiosidade e a busca pelo novo seriam características exclusivas dos humanos? 


E o que seria o selvagem? O estranho? O esquisito? O que está distante de nós? Selvagem para quem: para o homem sentado a observar o tigre na fotografia? Ou selvagem para o tigre que escapa da foto? Ou ainda selvagem para o leitor que passa as páginas e estranha o novo? Selvagem pode ser nosso sentimento de estranhamento frente ao que não nos é familiar. Olhares, descobertas e estranhamentos surgem em imagens com pouca cor. O artista explora o contraste entre preto e branco e a cor laranja. Estampas e ângulos coexistem e nos mostram quão ilimitada é a imagem visual criada em um livro. O selvagem nos leva aos caminhos da criação, daquilo que é indomável, inconsciente. O que fazer com sentimentos que não controlamos e com a nossa capacidade criativa?



A partir de O livro da selva, de Rudyard Kipling, Roger constrói uma narrativa visual de caráter metalinguístico. Quem cria? Como e a partir de que cria? Um passeio por diferentes cômodos, diferentes selvas, diferentes formas... São espaços que as páginas nos conduzem e nos levam para o mundo encantado da literatura: de uma história que construímos com a nossa imaginação. O autor traz alguns elementos estéticos, muito bem colocados no livro, e cabe agora ao leitor percorrer uma selva, uma casa e descobrir outros tantos bichos. Descobrir o que a literatura pode nos trazer, em uma obra sem texto mas artisticamente feita em imagens.
                                                                                   
              Ninfa Parreiras, especialista em literatura infantil, psicanalista



História da ressurreição do papagaio
Eduardo Galeano
Tradução Ferreira Gullar
Ilustrações Antonio Santos
São Paulo: Cosac Naify, 2010

 
Inspirado em um poema de cordel, o consagrado escritor uruguaio Eduardo Galeano recria aqui uma história que escutou em uma visita ao Ceará. Em muitas de suas obras (O livro dos abraços, Palavras andantes, Espelhos: uma história quase universal...), Galeano nos leva a passear em suas viagens, em seus olhares sobre o outro, especialmente, sobre a América Latina e sobre as peculiaridades do nosso povo. Cada encontro do autor com um passante, uma pequena cidade, ele transforma em um relato cheio de emoção.
Nesta história, sobre a origem das cores do papagaio, ave tão brasileira, o texto ganha as ilustrações do artista espanhol Antonio Santos. Do Uruguai, ao Ceará/Brasil, à Espanha, a obra nos leva a um passeio pela sabedoria popular, pela metamorfose, pela criação e pela reinvenção da vida. Valoriza os artistas populares: o fazedor de cordel, o artesão, o oleiro, o contador de casos.

Afetos como amizade e a compaixão surgem no passar das páginas. O texto, em linhas breves, traz curiosidade e surpresa. Há uma melodia e um ritmo próprios das histórias populares, mantidos na cadência de cada linha, transformada em verso pelo autor. Cabe dizer que a cuidada tradução está a cargo de Ferreira Gullar, poeta contemporâneo brasileiro, vencedor de diversos prêmios literários e que já traduziu Pablo Neruda.

De caráter metalinguístico, a obra nos mostra que a arte pode ser o que nos move a criar, a inventar, a viver... A superar os desafios e a recriar novos sentidos para cada sentimento, para cada coisa vivida.

Imagens feitas em madeira abusam das cores e mostram a ressurreição como um ato de arte. Humor e lirismo estão presentes nas ilustrações do artista espanhol e nos fazem lembrar peças de arte popular do nordeste brasileiro.
                                                                                       Ninfa Parreiras

(Resenhas também disponíveis no site do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT: http://www.ceat.org.br/ em Aquisições da Biblioteca: http://www.ceat.org.br/janelas_index/aquisbibli2010.htm )

domingo, 28 de novembro de 2010

Ver o Rio


Grades do Rio


                                                           Ninfa Parreiras

Foram telefonemas. Mensagens de emails. Recados. Como está o Rio? Tome cuidado! Interrompa seus trabalhos e viaje! Suma daí! As notícias: são as piores. Tanques do exército, helicópteros, armas de guerra, poeira e uma batalha sem data pra acabar.
Venha pra cá, largue tudo, mude-se pro Algarve, pra Bavária, pra Amazônia, pra Porto Alegre, pros confins das Gerais... Foram muitos os amigos, as vozes de alento. Quem está longe vê o caos ainda mais caótico. Tudo no Rio é exagerado: a beleza, a tristeza, a guerra.
O Rio de Janeiro continua lindo, entre grades, paredes e coletes a prova de balas. Caminho pela orla diariamente, a admirar o mar, as aves, as ondas que brincam de pega-pega pra ver qual chega primeiro. Um dia, alcanço o infinito do oceano.
Dia destes, me chamou a atenção o colete a prova de balas que usavam os seguranças de alguns edifícios no Leblon. O que era aquilo? Por que usar tal colete à beira mar? Era a guerra. Declarada. Bem perto de nós. Em cada esquina, quilos de munição, policiais armados. Um desconforto pra todos.
         Há poucos quilômetros dali, na área da Penha, um confronto de forças. Uma luta social. Milhares de famílias expostas, sacrificadas, velhos, adultos e crianças sem saber pra onde ir. À praia? Haveria mar pra todos? Na areia caberiam todos os sonhos? Como fugir? Nossa Senhora da Penha daria conta de atender a tantos pedidos? Bandidos!


       Entre grades, o Rio abre a beleza, desdobra suas curvas, seduz... Uma floresta que abraça uma cidade inteira, um mar que banha cada parte oceânica. Casas antigas, sobrados, linha do trem... História, cultura, natureza: reunidos num só lugar. Colinas que abrem a cidade aos oito cantos. Cantos? Conta mais da cidade! As pessoas que aqui vivem falam da cidade com boca cheia de orgulho e gosto pela indiscutível beleza. Ou falam com desgosto e preocupação.
       Mais que a arquitetura, a plástica, a urbanização, a natureza, faltaria algo. Um cuidado com as pessoas, com os cariocas, com os trabalhadores, com as famílias, com os indigentes, com os estudantes, com os migrantes, com os imigrantes, com os turistas, com todos que vivemos na Cidade Maravilhosa. Com os estrangeiros todos que aqui chegamos e com os que admiram o Rio de longe. Cuida de nós! É a voz que conclama o mundo a favor do Rio neste inesquecível novembro de 2010.


foto: arquivo do Rio, Lagoa Rodrigo de Freitas, primavera, 2008

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Algumas palavras, alguns livros 6

Leitura: uma aprendizagem de prazer
Suzana Vargas

Edição revista e ampliada
Rio de Janeiro: José Olympio, 2009
 
            No campo dos estudos sobre a leitura e a promoção da literatura, muitas têm sido as publicações nacionais. É uma área de estudos que ganhou espaço e recepção do público no mercado editorial há pouquíssimo tempo. Nas décadas de 80 e 90 houve poucas edições de livros dirigidas aos educadores, autores, editores, especialistas. A obra de Suzana Vargas, Leitura: uma aprendizagem de prazer, relançada recentemente, pode ser considerada um sucesso de edição: é a sua 6ª edição acrescida de alguns capítulos.
            Poucos são os livros neste país que ganham novas edições, ainda mais no campo das pesquisas e estudos sobre a leitura, os clamados ensaios. Bravo para a autora e para a editora! O que temos é uma experiência (da professora e promotora de leitura) e um estudo de mestrado da década de 80 (da estudiosa): são marcos na vida profissional de Suzana Vargas. Agora, na nova edição, ganhamos as experiências de Suzana com as rodas de leitura, principalmente no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, e com leituras em grupos (na Casa da Leitura, nas oficinas da Estação das Letras).
            Criadora das rodas de leitura que fizeram sucesso no CCBB; da Estação das Letras no RJ (espaço inteiramente dedicado a cursos de criação literária), dentre outras ações de promoção da leitura, a autora vem com a sua bagagem literária para brindar o leitor sobre as suas reflexões acerca da relação leitura/leitor/livro. Mais do que nunca, é o momento para os educadores terem acesso a obras como esta: onde há espaço para reflexão, conhecimento de experiências e uma boa bibliografia. Um espaço de troca, de diálogo entre leitor e literatura que se constrói nas entrelinhas do texto.
            Recomendamos o livro como uma obra formadora para o leitor interessado em conhecer literatura, em aprofundar os conhecimentos na área da leitura literária e de práticas voltadas à literatura. Notamos que há duas partes: uma experiência acadêmica, de estudo do mestrado; e outra experiência prática, com as rodas e os grupos de leitura. Aliar a teoria à prática não é uma tarefa fácil para os profissionais. E Suzana traz isso com generosidade, ao dividir com cada leitor a sua trajetória profissional e leitora.
            Por sua vez, a obra nos possibilita a oportunidade de discutir que aprendizagem de prazer a autora defende. Leitora atenta e também poetisa, Suzana nos transmite com gosto suas experiências literárias apaixonadas. E nos deixa em dúvida: se há prazer, se há satisfação, se há gosto, se há formação da leitura. O certo é que a leitura literária suscita dúvida, conflito, não fecha caminhos nem responde perguntas, abre questões e novas formas de desejar, para os que somos sujeitos da nossa própria história.
            Destacamos o capítulo sobre literatura infantil, muitas vezes excluída de estudos sobre a literatura. A obra Marcelo, marmelo, martelo, da consagrada autora Ruth Rocha, é tomada como exemplo e discutida no âmbito das obras para as crianças, com relevância para a fantasia que habita esta importante etapa do desenvolvimento humano.
            Leitura: uma aprendizagem de prazer chega em nova edição para leitores diversos: educadores, livreiros, autores, editores, professores, bibliotecários, estudantes das áreas de humanidades... Todos que quiserem conhecer mais sobre a leitura literária!



Ninfa Parreiras 

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Algumas palavras, alguns livros 5

De escrita e vida: Crônicas para jovens
Clarice Lispector
Organização Pedro Karp Vasquez
Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010

Escrever e viver para Clarice Lispector eram duas coisas tão próximas, dois caminhos de estar no mundo. Avessa às teorias da literatura, recusava o título de intelectual. Em sua obra - romances, crônicas, contos - percebemos seu diálogo permanente com o escrever, o fazer literário. Ela dividia com o leitor as suas dúvidas, angústias e descobertas sobre a escrita. Respondia leitores de suas crônicas de jornal, respondia cartas que recebia e estabelecia uma troca que tinha o texto como foco.


Segundo volume publicado pela Rocco, com uma seleção temática de crônicas, Crônicas para jovens: De escrita e vida foi organizado por Pedro Karp Vasquez, depois do volume Crônicas para jovens: De amor e amizade. Embora a edição esteja endereçada aos jovens, os textos de Clarice podem ser bem apreciados pelos adultos: aqueles que já conhecem as suas obras supostamente vão identificar elementos vistos em algum texto; os que não a conhecem poderão se encantar. E, mais que tudo, é uma obra metalinguística, para os que gostam de escrever: os desafios, as entrelinhas, o papel em branco, a necessidade de escrever de madrugada, o depoimento ao revisor dos textos, a preferência de uma máquina de datilografar...


São dezenas de crônicas que mostram os bastidores de uma autora que vivia pela escrita e da escrita. Ofício? Aprendizagem? Como é que se escreve? Essas são algumas das questões que Clarice compartilha com o leitor, de um jeito íntimo e apaixonado pela vida e pela escrita.


O ato de escrever e a criação são dos temas centrais da obra e da própria vida de Clarice, visíveis aqui nesta coletânea em linguagem espontânea. Há crônicas em que ela abre a sua intimidade com o leitor, ao se declarar uma não leitora, alguém que precisa escrever, que não viveria sem a escrita: esta é Clarice Lispector!
                                         Ninfa Parreiras






O Livro de Ana
Bartolomeu Campos de Queirós
Ilustrações Marconi Drummond
São Paulo: Global, 2009

Considerado um dos maiores escritores da literatura infantil e juvenil brasileira, Bartolomeu Campos de Queirós encanta crianças e adultos com suas palavras poéticas. Sua obra, em prosa e poesia, conta com textos curtos e condensados, carregados de um lirismo incomum: cada metáfora é a marca de uma lapidação da escrita. Em O Livro de Ana, Bartolomeu nos aproxima do cuidado com a criança, da aproximação entre vida adulta e infância e nos fala de leitura, de vínculos afetivos. Ele nos traz a história de Sant’Ana (o nome em hebraico significa graça), mãe de Maria, que traz um livro nas mãos. Seria a leitura uma graça para os leitores?


O que teria naquele livro? Que histórias ele contava? De que reinos vinham as palavras do livro de Sant’Ana? São questões que acompanharam o menino Bartolomeu desde criança e seguem com ele até hoje. Agora, essas questões são compartilhadas com o leitor num gesto de generosidade.


Em uma linguagem lírica, o autor conta o mito da criação, da origem da humanidade: “E dentro do nada Ele iniciou a criação.” Em sete dias, são criados o firmamento, a terra, o mar, o infinito, o homem e a mulher... E ainda fala do silêncio que nos faz apreciar as coisas, que nos deixa ler. Ao associar a criação do universo à criação de um texto, em bela metáfora sobre o escrever, Bartolomeu nos mostra quão é necessário o outro para nos ler, nos decifrar. Não há literatura sem o leitor, sem o silêncio, sem as entrelinhas.


O Livro de Ana, além da religiosidade que carrega, é uma obra de caráter metalinguístico, em que o projeto gráfico nos faz passear pelos caminhos da arte: as páginas do miolo são cortadas, o que permite uma leitura lúdica. As ilustrações do artista plástico Marconi Drummond imprimem um ar sagrado e mítico à obra.
                    Ninfa Parreiras




O gerente
Carlos Drummond de Andrade
Ilustrações Alfredo Benavidez Bedoya
Rio de Janeiro: Record, 2009

Drummond poeta, contista, cronista, nos deixou um legado literário que o faz imortal. As novas edições e reedições de seus textos nos surpreendem e seduzem os leitores que ainda não o conhecem. O gerente foi publicado inicialmente em 1945, com ilustrações de J. Moraes, das Edições Horizonte. Como o autor dizia, era uma novela em formato de cordel, com o valor impresso na quarta capa: R$4,00. Obra popular e acessível aos diferentes leitores à época.


Pouco depois, em 1951, Drummond incluiu a novela na obra Contos de aprendiz, juntamente com outros contos de tirar o fôlego. Em 2009, a editora Record nos presenteou com esta bela edição em capa dura, com ilustrações em preto e branco do artista argentino Alfredo Benavidez. Se o texto é uma novela ou um conto fica a cargo do leitor.


Em O gerente, há um tratamento requintado da matéria ficcional: o leitor se prende ao texto do início ao fim. Drummond trouxe algo da ordem do diáfano, da surpresa, do inexplicável. Há um mistério, uma dúvida implantada na cabeça de quem o lê: quem decepava os dedos das mulheres? O que pretendia aquele gerente? A linguagem serve pouco para descrever e muito para sugerir. O leitor passa a ser um outro necessário à leitura das entrelinhas, dos subtendidos, é convocado a decifrar o que não se explica pela razão.


O homem exemplar que era Samuel, personagem principal, planta dúvidas entre os que o conhecem e em nós, leitores, que devoramos a história, ávidos por entender aquele homem aparentemente do bem. O que seria a normalidade? O que estaria escondido por trás dela? Uma das coisas que parecia fascinar Drummond eram os minúsculos fragmentos de diálogos, o olhar sobre coisas incompreendidas e não explicadas, muito presente nesta história.
Ninfa Parreiras

(Resenhas também disponíveis no site do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT: http://www.ceat.org.br/ em Aquisições da Biblioteca: http://www.ceat.org.br/janelas_index/aquisbibli2010.htm )



segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Algumas palavras, alguns livros 4

Leitura literária e outras leituras: impasses e alternativas no trabalho do professor

Vera Maria Tietzmann Silva
Belo Horizonte: RHJ, 2009




















A professora Vera Maria Tietzmann Silva, especialista da área da leitura literária, possui diversas publicações no campo da teoria da literatura e das pesquisas sobre leitura: ensaios, organização de antologias, artigos. Sua dedicação à pesquisa de literatura se reflete em sua produção acadêmica (professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás há três décadas) e nos seus escritos reflexivos e importantes para o estudo e a transmissão da literatura.


O trabalho com a literatura no Ensino Médio é discutido pela autora nesta obra, integrante da nova linha editorial da RHJ: Leitura literária e outras leituras: impasses e alternativas no trabalho do professor. Diante de impasses e dificuldades, como a constituição leitora desigual dos alunos ingressados no Ensino Médio, bem como a proximidade de exames (ENEM e vestibular), a obra percorre diferentes textos: os canônicos, os contemporâneos, ao comentar, obras de ficção, de poesia e de teatro.


No interior de cada capítulo, surgem as questões com as quais os professores se deparam na sua prática com a leitura. Em seguida, há as alternativas ou estímulos para provocarem reflexão. Na verdade, são provocações que não deixarão o leitor da obra sair neutro. O professor poderá se deparar com dificuldades que já conhece, mas com possibilidades de mudanças e muita leitura a fazer, pois, ao final de cada capítulo, há as “leituras afins”, com sugestões bibliográficas.


Se, por um lado, os alunos e os professores do Ensino Médio vivem a pressão das provas (ENEM e vestibular), da necessidade de concluir uma etapa de ensino; por outro lado, a literatura pode ser uma alternativa para a constituição de valores e para a consolidação da cidadania de cada leitor (docente e discente). É isso o que nos mostra Vera Tietzmann!


                                                                                                               Ninfa Parreiras






Lampião na cabeça
Luciana Sandroni
Ilustrações André Neves
Rio de Janeiro: Rocco, 2010















A história de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, é contada aqui por Luciana Sandroni, consagrada autora carioca, num texto bem humorado e metalinguístico. Ao construir a narrativa, a autora divide com o leitor as suas dúvidas, dificuldades e as aparições de Lampião no seu fazer criativo. Essa é a novidade dessa nova obra da autora que já foi laureada com o Prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ e o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro – CBL.


Num processo dialógico, autora e biografado se encontram e a escuta de Luciana deixa o cangaceiro falar, se expressar pelas linhas digitadas por ela. Nesse trabalho de escutar o Lampião, a autora mostra seu cuidado com a pesquisa de uma biografia, revela seu talento em ouvir o outro e lapidar o texto. E compartilha com o leitor as questões sobre a pesquisa biográfica, o ato de escrever e de fazer literatura. Ficção e realidade se misturam e se aventuram pelas páginas criadas por Luciana como dois lados de uma obra literária, com limites bastante tênues.


Com ilustrações e projeto gráfico de André Neves, artista pernambucano que hoje mora no Rio Grande do Sul, a obra traz uma plasticidade cheia de metáforas: da alegria, da dor, da dúvida, da coragem... Conhecedor dos sertões onde existiu o cangaço, André recria cenas, inventa um Lampião feito em técnica mista, com imagens contextualizadas e lúdicas.


Parabéns à dupla de artistas que com o criativo texto e ilustrações nos trazem mais uma leitura para o famoso homem do sertão e do cangaço. Lampião atuou no cangaço por mais de 20 anos e é o bandido mais famoso do século XX. Ao final, ficam questões para serem respondidas ou pensadas pelo leitor: ele foi um bandido? Era generoso? Era valente e vingativo? Ou um Robin Hood brasileiro?


                                                                                                               Ninfa Parreiras



Crônicas para ler na escola / Carlos Heitor Cony
Carlos Heitor Cony
Apresentação Marisa Lajolo
Rio de Janeiro: Objetiva, 2009
















Um livro recheado de crônicas nos abre a possibilidade de passearmos pelas páginas do cotidiano reinventado, de fazermos diferentes leituras de nós e do mundo. Um episódio, um flash do dia-a-dia é traduzido em relatos cheios de humor, de jogos. Vida e invenção se misturam: o olhar do escritor, o olhar do leitor...


Carlos Heitor Cony, também conhecido pelos seus premiados romances (Matéria de memória e Quase memória), membro da Academia Brasileira de Letras – ABL, é cronista de mão cheia, com seus relatos que retomam o tempo e a memória. E o que seria da literatura sem esses temas fundantes da arte da vida?


A crônica de abertura da obra “O buraco da memória” evidencia o trabalho com o tempo e a memória feito pelo autor. Em outras, há uma nostalgia e uma lembrança retomadas, que podem ser lidas pelos jovens leitores no intuito de conhecerem coisas passadas numa atualidade subjetiva.


A obra faz parte da Coleção Para Ler na Escola, da editora Objetiva, com títulos que dão espaço a diferentes autores consagrados das letras, como Carlos Heitor Cony, João Ubaldo Ribeiro, João Cabral de Melo Neto, Moacir Scliar, Ignácio Loyola Brandão, Rui Castro... E outros autores mais que estão por ser publicados.


São 49 crônicas breves como breve é o olhar do escritor sobre uma cena do cotidiano. Há crônicas para todo gosto: para serem lidas pelos alunos, pelos professores, pelos educadores, como parte da formação leitora de cada um. Podem ser lidas em seqüência ou escolhidas aleatoriamente, ao gosto de quem lê.


A organização das crônicas e a apresentação deste volume ficaram a cargo da professora Marisa Lajolo, autora de inúmeras obras de ensaios sobre leitura e literatura.


                                                                                                                 Ninfa Parreiras


Mulher perdigueira: crônicas
Carpinejar
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010























Amor, paixão, raiva, preconceito são alguns dos temas presentes nas crônicas de Carpinejar, autor contemporâneo da literatura brasileira, vencedor do Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do livro – CBL, em 2009, na categoria contos e crônicas. Artista da prosa e do verso, Carpinejar é detentor de inúmeros prêmios nacionais. Marca presença em diferentes meios de comunicação virtuais: site, blog, orkut, twitter, com suas palavras ácidas e também líricas; além da forte presença em debates, mesas redondas e encontros com o público leitor.


Suas crônicas carregam alegrias e tristezas, dores, dissabores, amores... Na crônica, Carpinejar faz poesia em versos aguçados de metáforas. O que há de singular no seu texto é o olhar que empresta às situações sem importância, às pessoas desconhecidas, às cenas aparentemente banais. Ele inventa uma língua, cria cenários cheios de afetos, de humor, de graça. Transforma o óbvio em algo sublime, singular. Dá voz ao silêncio, inventa espaços possíveis de associação para quem lê sua obra. Dá forma ao que não está visto.


Coletânea com 125 crônicas a favor das mulheres, como notamos logo na epígrafe de abertura: “Se uma mulher faz um barraco, pode ter certeza de que foi o homem que trouxe a favela”. As narrativas trazem um olhar de um homem sobre as mulheres: é assim que o escritor disseca a alma feminina.


A capa, a partir de uma foto nua feminina de costas, é provocativa. Não traz um rosto, é um corpo de mulher. Traz curiosidade, instiga a pensar. Que mulher perdigueira seria esta? Como não terminar o namoro? De que adianta esperar? São algumas das questões trazidas pelas crônicas que não nos deixam calar os pensamentos.


Fica aqui a sugestão da leitura das crônicas de Carpinejar para os adolescentes e os adultos: são relatos atuais e intrigantes.


                                                                                                           Ninfa Parreiras



(Resenhas também disponíveis no site do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT: http://www.ceat.org.br/ em Aquisições da Biblioteca: http://www.ceat.org.br/janelas_index/aquisbibli2010.htm )


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Algumas Palavras, Alguns Livros 3

O lobo

Graziela Bozano Hetzel
Ilustrações Elisabeth Teixeira
Rio de Janeiro: Manati, 2009



Uma história contada ao menino noite a noite. A presença de um pai, de uma voz presente e acolhedora, nos momentos de medo e solidão. Um lobo que chega e fica, suscita dúvida, mistério, ausência...


Duas histórias se encontram e trazem a partida, os desencontros, a tristeza. Um pai que desaparece e um lobo que fica, não sai de perto. O lobo vai, o lobo volta. Uma história que não foi terminada de contar... Imagens criadas, perdidas, inventadas. A construção de representações simbólicas pela criança.


O silêncio, os espaços em branco nos deixam a pensar. Para onde foi o pai? Ia voltar? E o lobo? O que fazer com o medo? Que história era aquela? Como o imaginário da criança, cheio de inseguranças e hesitações, a narrativa leva o leitor a passear por um mundo fantástico e cheio de afetos.


A metalinguagem e a intertextualidade, marcas das obras literárias, são usadas com cuidado e precisão. Com isso, o leitor se entrega ao conto e o conto entra na vida do leitor, num movimento de troca e de descobertas. As relações pai/filho; leitor/obra; personagem/leitor são permeadas de sentimentos.


As ilustrações em cores da artista Elisabeth Teixeira seguem uma leveza e sugerem encontros e desencontros. Ora em quadros, ora em páginas inteiras, mostram recortes de algumas cenas da história vivida e ouvida pelo personagem. Destaque para as orelhas reforçadas do livro que trazem desenhos minúsculos. Na verdade, há uma capa sobre a capa que cria uma melhor sustentação para o livro.


                                                                   Ninfa Parreiras






No jardim
Livro de levantar abas
Coleção Que bicho é?
Edições Todolivro, 2006

Na floresta
Livro de levantar abas
Coleção Que bicho é?
Edições Todolivro, 2006
Estes dois volumes da Coleção Que bicho é?, impressos em papel cartonado, pontas arredondadas, são livros para os bebês e as crianças menores. Trazem janelas que abrem surpresas para o leitor. São pequeninos e fáceis de serem manuseados.


No volume Na floresta, a criança poderá descobrir minúsculas imagens de animais que vivem nas matas: cobra, macaco. Há outros que vivem em habitats diversos que estão aí incluídos, como o jacaré, o crocodilo, o hipopótamo. De todo modo, proporcionar um contato da criança com bichos que são vistos ao se abrir uma janelinha é interessante. Outro destaque é o uso de onomatopéias que anunciam a chegada de cada animal, como: “Quem é este? Aáa! Aáa! Eu repito tudo!”, para o papagaio. Na primeira infância, o contato com os sons, as imagens, as cores é desencadeador de estímulos para a criança. Nessa etapa do desenvolvimento, conhecer e manusear os livros cria uma relação lúdica e de proximidade entre a criança e o livro. Entre a criança e a leitura/a literatura.


Já no volume No jardim, chegam animais como o coelho, o sapo, o cachorro. E ainda o lobo que estaria mais bem colocado na floresta. O uso de tons claros no fundo de cada página e de desenhos pequenos torna a obra agradável e leve.


Um dos aspectos importantes em obras destinadas aos bebês é o acabamento de cada livro: papel que permita as mordidas e o contato exploratório com as mãos, a boca, os pés. Assim como os brinquedos, os livros são pontes de comunicação da criança pequena com o mundo e possibilidades de constituição de afetos.


                                                                    Ninfa Parreiras






Alice no País das Maravilhas
Lewis Carroll
Tradução Nicolau Sevcenko
Ilustrações Luiz Zerbini
São Paulo: Cosac Naify, 2010
Com o lançamento mundial do filme Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, o mercado editorial foi aquecido por edições da obra Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. No Brasil, vieram as reedições e novas edições da obra traduzida ou adaptada. Ganhamos todos: leitores, editores e os que ainda vão ler Alice.


A novidade deste volume, publicado pela editora Cosac Naify, é, além da tradução do texto integral, sem cortes, o projeto gráfico. A obra foi impressa em forma de uma carta de baralho, com as pontas levemente arredondadas. A partir de fundos de naipes de baralho, o ilustrador recria um universo lúdico que joga com o olhar e a imaginação do leitor. Parabéns aos fazedores dessa obra: escritor, tradutor, ilustrador e editora: juntos formam um time de primeira na concepção gráfica e literária do clássico inglês.


A marca da oralidade foi mantida no texto, na reprodução de versos e de ditos populares. O texto flui, marcado por um cuidado em manter os capítulos originais, as falas das personagens.


Seja na abertura de cada capítulo, seja no texto, uma ilustração de página inteira, de caráter surrealista, surpreende o leitor. Expressões das personagens (humanas, bichos...) somadas a plantas, feitos e descobertas brotam das cartas.


Fica aqui a sugestão para os pais, educadores, crianças, adolescentes, adultos, fazerem um mergulho na história de Alice e seguir com ela um percurso de fantasia e contato com o estranho, o desconhecido.


                                                                 Ninfa Parreiras



Armando e o mistério da garrafa
Texto e ilustrações Fábio Sombra
Belo Horizonte: Abacate, 2009

Fábio Sombra, escritor, violeiro, ilustrador, é também artista naif. Possui uma obra dedicada ao cordel e ao estudo do folclore: para crianças e adolescentes. Estudioso das culturas populares, o autor tem revelado e inventado histórias bem próximas ao imaginário popular de diferentes povos. Ele já transformou em cordel contos populares de outros países também.


Em Armando, o mistério da garrafa, com estrofes de seis versos, o autor conta a história do jovem Armando e do seu desejo de se tornar poeta e violeiro de modo fácil, sem fazer força. Humor e irreverência marcam o texto, que traz ainda elementos de magia e suspense. Com a abertura do relato na primeira estrofe e o desfecho com um acróstico de Fábio Sombra, o escritor segue os passos de um poema de cordel, com muita rima, ritmo e graça.


A metalinguagem utilizada mostra o caminho trilhado por um cordelista: requer pesquisa ou conhecimento prático da tradição oral. E um recado aos novatos: para fazer versos de cordel é necessário um cuidado com a construção das estrofes e o desenvolvimento do tema.


O personagem Armando, malandro e preguiçoso, não tem esse nome à toa. Está sempre aprontando algo. São Gonçalo, Belzebu, mandinga, um fazendeiro... muita ação e esperteza surgem no desenrolar da história.


As ilustrações em preto e branco investem em caricaturas de personagens, com traços de humor. Mostram cenas rápidas e engraçadas. Lembram as gravuras feitas em madeira e somam movimentos aos versos. Postas na margem direita de cada página acompanham os versos apresentados em um quadro sombreado à esrquerda.


O que não falta na história de Armando (atrapalhadas, risos, surpresas) é o caminho dos heróis e anti-heróis: um mundo de coisas a viver. E para o leitor fica a questão: e o que havia naquela garrafa de Armando?


                                                                   Ninfa Parreiras

(Resenhas também disponíveis no site do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT: http://www.ceat.org.br/ em Aquisições da Biblioteca: http://www.ceat.org.br/janelas_index/aquisbibli2010.htm )

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

                                   NINHO JORNAL




Ninfa Parreiras

De que é feito o ninho dos pássaros da cidade?
De folhas?
De ramos?
Jornais?
Restos de papel?
Contas não pagas e rasgadas?
A loteria sorteada
A sorte lançada
Ao vento ao mar



Com que sonham os passarinhos?
Palavras
Desenhos
Fotografias
Com as manchetes de jornal
Com os folhetos de propagandas
As beiradas das receitas de remédios
Pedacinhos de caixas de papel

Há pouco tempo, retornava ao estacionamento de onde trabalho, no centro do Rio de Janeiro, no Castelo. Esbarrei em um montinho de papel misturado com raminhos e folhas secas. Peguei com cuidado. Dentro, bem no fundo, havia um ovinho seco quebrado. Era um ninho de passarinhos. Da cidade grande.


Não havia folhas macias nem tenras nem secas... Eram folhas abandonadas juntamente com espedaçados jornais e folhetos.


Aqueles passarinhos não dormiam em árvores molhadas, nem em campos cobertos de sementes. Viviam o diário das notícias. Eram pássaros sonhadores e leitores. Sonhavam um mundo de leituras para todos, de cama aconchegante, de ninho macio. Um mundo de casas, de leitos, de ninhos... e de jornais e histórias para todos lerem. E sonharem.

(foto: arquivo pessoal, Papagaio, área rural, verão 2009)

Algumas Palavras, Alguns Livros 2

Querida
Lygia Bojunga
Rio de Janeiro: Editora Casa Lygia Bojunga, 2008

Este é o exemplar 1.502 de Querida, adquirido pela Biblioteca Anísio Teixeira -CEAT. Cada exemplar das obras publicadas pela Casa Lygia Bojunga é numerado um a um. Revela um cuidado com o livro, com o leitor; mostra a identidade de cada exemplar: único, singular, que carrega também a experiência do seu leitor. Isso começou com a obra Feito à mão, publicada inicialmente em poucos exemplares, feitos artesanalmente pela autora, em 1996. Iniciativa que ficou como uma marca da autora/da editora.


Querida é um romance que traz o ciúme como uma personagem; a infância e a velhice são os vértices da existência humana atravessados pelas diferentes personagens e pelo olhar do leitor. A cidade grande, a serra fluminense, o nordeste brasileiro, lá fora do país... São espaços de encontros e de desencontros. De saudades, de raiva. Alguns distantes, outros próximos de quem lê. As profissões de escritor, de atriz, de chefe de cozinha são mostradas na sua paixão, nas suas frustrações e no confronto com a vida.


Na mais recente obra da autora premiada nacional e internacionalmente, reparamos aspectos que já estiveram presentes em livros anteriores, como o contraste social brasileiro; o ciúme como valor universal; a arte do teatro; a arte de escrever... Lygia revisita esses elementos: os amplia, os dá nova forma e plasticidade, aqui, numa tecitura para leitores de fôlego, sejam os adolescentes, sejam os adultos.


Entre ser leitor, ser espectador, ser sujeito, a leitura nos convoca como partícipes de uma experiência subjetiva. A de fazermos a história nossa com Querida, passo a passo na prosa caracterizada com metalinguagens, como a da própria literatura: e o que é a literatura? Seria o mergulho profundo na história de um outro que nos revela? Seria o acreditar nas palavras de quem escreve como se tudo aquilo fosse a nossa verdade interna? Assim é a literatura de Lygia Bojunga!

Ninfa Parreiras



Memórias inventadas para crianças
Manoel de Barros
Iluminuras Martha Barros
São Paulo: Planeta Jovem, 2006

As memórias seriam uma invenção? Ou a memória é o que impede a fantasia de fluir? Do que tratam as memórias inventadas do escritor Manoel de Barros, homenageado na FLIST de 2010? As vivências que chegam com as memórias trazem um universo mágico do que foi (: o vivido) e do que pode ser (: a ficção).


Em prosa, narrativas brevíssimas, o poeta de Mato Grosso revive instantes que passaram em sua infância. Pode ser até na infância interna, a das imaginações. Em um tempo, em que os brinquedos eram inventados e feitos pelas crianças: boizinhos de ossos, bolas de meias, automóveis de lata... Nas descobertas dos heróis e das estátuas das cidades grandes...


Em cada narrativa, uma palavra criada, um sentimento descoberto. São seis contos que nos deixam com gosto de querer ler mais: “Escova”; “O lavador de pedra”; “Fraseador”; “O apanhador de desperdícios”; “Brincadeiras” e “Sobre sucatas”. Ler como criança, ler para e ler com as crianças.


São prosas quase poemas, em linguagem condensada, poucas palavras, metáforas, jogos de sentidos e de palavras. Instantes de vida. Sopros de lembranças.


As iluminuras da artista Martha Barros, filha do autor, acompanham os relatos, ampliam as ideias do texto, para o território do sonho. Imprimem bichos, flores, figuras minúsculas pintadas sobre tecidos de texturas diferentes. Trazem rodopios, nascimentos, encontros... Deixam o leitor voar com os passarinhos, com as reminiscências de um tempo que se foi mas continua vivo dentro de cada adulto. E deixam cada leitor pasmo a descobrir uma infância outra, de outrem, que existe na literatura mas também na história dos adultos, dos nossos antepassados. As memórias inventadas inventam um tempo do antes, para todos nós.


Ninfa Parreiras




Santiago
Federico García Lorca
Tradução William Agel de Mello
Ilustrações Javier Zabala
São Paulo: Martins Fontes, 2009

Federico García Lorca (1898-1936), poeta andaluz, viveu pouco tempo e nos deixou uma poesia memorável, repleta de sonhos, de descobertas. Foi um combatente das palavras na Guerra Civil Espanhola.


Santiago é uma balada que faz parte de Livro de poemas, sua primeira obra de poesia. É a lenda fascinante da visita do Apóstolo Tiago a uma pobre camponesa num arraial perdido entre montanhas. Os versos nos provocam indagações, buscas, a dúvida da nossa existência: para onde foi Santiago? E para onde vamos? Aquilo foi uma visão? Um encantamento? Que experiência é esta?


Passeamos por diferentes lugares espaciais, caminhamos juntamente com crianças, adultos, cavaleiros, a velha, em prados, em colinas... “Aonde vai o peregrino celeste/ pela clara infinita vereda?” Crença, paixão e imaginação dão se as mãos e povoam o imaginário de cada personagem, de cada leitor. Realidade versus ficção, vida versus morte, infância versus velhice... Nascimento e descobertas juntas em versos melodiosos e ricos de imagens.


As ilustrações, em técnica mista, revelam belíssimas pinturas que sugerem, anunciam, dão forma à imaginação. Colocam em contraste a existência humana e a imensidão do universo. O dia-a-dia rotineiro em contraste com o que é inexplicável. A natureza (plantas, animais, ser humano) e as construções e edificações (casas, batalhas). A velha surge como depositária de sonhos e de ilusões, de desejos perdidos e inalcançáveis. A velha representa o tempo: do que passa, do que virá... Cada página, uma revelação.


Ninfa Parreiras



Obax
Texto e ilustrações André Neves
São Paulo: Brinque-Book, 2010

Obax, como o próprio autor esclarece, é uma história inventada e ambientada na África. Não é um reconto de um relato africano. Pura invenção em palavras, em nomes buscados na cultura africana (Obax, a menina e Nafisa, o elefante), em imagens. Talvez seja este um dos grandes desafios da literatura: fazer o leitor acreditar que a história existe ou existiu: a verossimilhança. Não só acreditamos na história de André Neves, como mergulhamos fundo no mundo de imagens e de palavras de Obax.


Narrativa leve e breve, marcada pela fantasia, pela ludicidade, elementos tão caros à infância. Traz, principalmente, o confronto entre o mundo adulto e o da criança, entre a realidade e a fantasia. Entre o mundo de cá do oceano (o leitor) e o mundo de lá: a África, com algumas de suas cores e sabores.


As ilustrações revelam uma pesquisa minuciosa, com contrastes de cores, de formas, de sons, de texturas. Trazem regiões tão diversas que caracterizam a África (a savana, o deserto, o litoral, aldeias e cidades...). Levam o leitor a passear com a menina e o elefante por diferentes ângulos de paisagens variadas.


Há a possibilidade de passeios conduzidos por um elefante e por uma menina: trajetos vistos de cima, de lado, de longe, de perto. Um animal tão lendário quanto o elefante nos abre trilhas para imaginar e romper barreiras de tamanho, de espaço, tempo. Coisa que a literatura nos permite!


O projeto gráfico alterna páginas ora com ilustrações pequenas sobre fundo branco ora com desenhos grandes sobre fundo colorido; faz também o jogo de tamanho, uma brincadeira de esconde-esconde, entre leitor e obra. Convida a passar as páginas e passear por uma África sonhada, de diversidades e contrastes.


Ninfa Parreiras

(Resenhas também disponíveis no site do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT: http://www.ceat.org.br/ em Aquisições da Biblioteca: http://www.ceat.org.br/janelas_index/aquisbibli2010.htm )