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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Algumas Palavras, Alguns Livros 3

O lobo

Graziela Bozano Hetzel
Ilustrações Elisabeth Teixeira
Rio de Janeiro: Manati, 2009



Uma história contada ao menino noite a noite. A presença de um pai, de uma voz presente e acolhedora, nos momentos de medo e solidão. Um lobo que chega e fica, suscita dúvida, mistério, ausência...


Duas histórias se encontram e trazem a partida, os desencontros, a tristeza. Um pai que desaparece e um lobo que fica, não sai de perto. O lobo vai, o lobo volta. Uma história que não foi terminada de contar... Imagens criadas, perdidas, inventadas. A construção de representações simbólicas pela criança.


O silêncio, os espaços em branco nos deixam a pensar. Para onde foi o pai? Ia voltar? E o lobo? O que fazer com o medo? Que história era aquela? Como o imaginário da criança, cheio de inseguranças e hesitações, a narrativa leva o leitor a passear por um mundo fantástico e cheio de afetos.


A metalinguagem e a intertextualidade, marcas das obras literárias, são usadas com cuidado e precisão. Com isso, o leitor se entrega ao conto e o conto entra na vida do leitor, num movimento de troca e de descobertas. As relações pai/filho; leitor/obra; personagem/leitor são permeadas de sentimentos.


As ilustrações em cores da artista Elisabeth Teixeira seguem uma leveza e sugerem encontros e desencontros. Ora em quadros, ora em páginas inteiras, mostram recortes de algumas cenas da história vivida e ouvida pelo personagem. Destaque para as orelhas reforçadas do livro que trazem desenhos minúsculos. Na verdade, há uma capa sobre a capa que cria uma melhor sustentação para o livro.


                                                                   Ninfa Parreiras






No jardim
Livro de levantar abas
Coleção Que bicho é?
Edições Todolivro, 2006

Na floresta
Livro de levantar abas
Coleção Que bicho é?
Edições Todolivro, 2006
Estes dois volumes da Coleção Que bicho é?, impressos em papel cartonado, pontas arredondadas, são livros para os bebês e as crianças menores. Trazem janelas que abrem surpresas para o leitor. São pequeninos e fáceis de serem manuseados.


No volume Na floresta, a criança poderá descobrir minúsculas imagens de animais que vivem nas matas: cobra, macaco. Há outros que vivem em habitats diversos que estão aí incluídos, como o jacaré, o crocodilo, o hipopótamo. De todo modo, proporcionar um contato da criança com bichos que são vistos ao se abrir uma janelinha é interessante. Outro destaque é o uso de onomatopéias que anunciam a chegada de cada animal, como: “Quem é este? Aáa! Aáa! Eu repito tudo!”, para o papagaio. Na primeira infância, o contato com os sons, as imagens, as cores é desencadeador de estímulos para a criança. Nessa etapa do desenvolvimento, conhecer e manusear os livros cria uma relação lúdica e de proximidade entre a criança e o livro. Entre a criança e a leitura/a literatura.


Já no volume No jardim, chegam animais como o coelho, o sapo, o cachorro. E ainda o lobo que estaria mais bem colocado na floresta. O uso de tons claros no fundo de cada página e de desenhos pequenos torna a obra agradável e leve.


Um dos aspectos importantes em obras destinadas aos bebês é o acabamento de cada livro: papel que permita as mordidas e o contato exploratório com as mãos, a boca, os pés. Assim como os brinquedos, os livros são pontes de comunicação da criança pequena com o mundo e possibilidades de constituição de afetos.


                                                                    Ninfa Parreiras






Alice no País das Maravilhas
Lewis Carroll
Tradução Nicolau Sevcenko
Ilustrações Luiz Zerbini
São Paulo: Cosac Naify, 2010
Com o lançamento mundial do filme Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, o mercado editorial foi aquecido por edições da obra Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. No Brasil, vieram as reedições e novas edições da obra traduzida ou adaptada. Ganhamos todos: leitores, editores e os que ainda vão ler Alice.


A novidade deste volume, publicado pela editora Cosac Naify, é, além da tradução do texto integral, sem cortes, o projeto gráfico. A obra foi impressa em forma de uma carta de baralho, com as pontas levemente arredondadas. A partir de fundos de naipes de baralho, o ilustrador recria um universo lúdico que joga com o olhar e a imaginação do leitor. Parabéns aos fazedores dessa obra: escritor, tradutor, ilustrador e editora: juntos formam um time de primeira na concepção gráfica e literária do clássico inglês.


A marca da oralidade foi mantida no texto, na reprodução de versos e de ditos populares. O texto flui, marcado por um cuidado em manter os capítulos originais, as falas das personagens.


Seja na abertura de cada capítulo, seja no texto, uma ilustração de página inteira, de caráter surrealista, surpreende o leitor. Expressões das personagens (humanas, bichos...) somadas a plantas, feitos e descobertas brotam das cartas.


Fica aqui a sugestão para os pais, educadores, crianças, adolescentes, adultos, fazerem um mergulho na história de Alice e seguir com ela um percurso de fantasia e contato com o estranho, o desconhecido.


                                                                 Ninfa Parreiras



Armando e o mistério da garrafa
Texto e ilustrações Fábio Sombra
Belo Horizonte: Abacate, 2009

Fábio Sombra, escritor, violeiro, ilustrador, é também artista naif. Possui uma obra dedicada ao cordel e ao estudo do folclore: para crianças e adolescentes. Estudioso das culturas populares, o autor tem revelado e inventado histórias bem próximas ao imaginário popular de diferentes povos. Ele já transformou em cordel contos populares de outros países também.


Em Armando, o mistério da garrafa, com estrofes de seis versos, o autor conta a história do jovem Armando e do seu desejo de se tornar poeta e violeiro de modo fácil, sem fazer força. Humor e irreverência marcam o texto, que traz ainda elementos de magia e suspense. Com a abertura do relato na primeira estrofe e o desfecho com um acróstico de Fábio Sombra, o escritor segue os passos de um poema de cordel, com muita rima, ritmo e graça.


A metalinguagem utilizada mostra o caminho trilhado por um cordelista: requer pesquisa ou conhecimento prático da tradição oral. E um recado aos novatos: para fazer versos de cordel é necessário um cuidado com a construção das estrofes e o desenvolvimento do tema.


O personagem Armando, malandro e preguiçoso, não tem esse nome à toa. Está sempre aprontando algo. São Gonçalo, Belzebu, mandinga, um fazendeiro... muita ação e esperteza surgem no desenrolar da história.


As ilustrações em preto e branco investem em caricaturas de personagens, com traços de humor. Mostram cenas rápidas e engraçadas. Lembram as gravuras feitas em madeira e somam movimentos aos versos. Postas na margem direita de cada página acompanham os versos apresentados em um quadro sombreado à esrquerda.


O que não falta na história de Armando (atrapalhadas, risos, surpresas) é o caminho dos heróis e anti-heróis: um mundo de coisas a viver. E para o leitor fica a questão: e o que havia naquela garrafa de Armando?


                                                                   Ninfa Parreiras

(Resenhas também disponíveis no site do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT: http://www.ceat.org.br/ em Aquisições da Biblioteca: http://www.ceat.org.br/janelas_index/aquisbibli2010.htm )

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

                                   NINHO JORNAL




Ninfa Parreiras

De que é feito o ninho dos pássaros da cidade?
De folhas?
De ramos?
Jornais?
Restos de papel?
Contas não pagas e rasgadas?
A loteria sorteada
A sorte lançada
Ao vento ao mar



Com que sonham os passarinhos?
Palavras
Desenhos
Fotografias
Com as manchetes de jornal
Com os folhetos de propagandas
As beiradas das receitas de remédios
Pedacinhos de caixas de papel

Há pouco tempo, retornava ao estacionamento de onde trabalho, no centro do Rio de Janeiro, no Castelo. Esbarrei em um montinho de papel misturado com raminhos e folhas secas. Peguei com cuidado. Dentro, bem no fundo, havia um ovinho seco quebrado. Era um ninho de passarinhos. Da cidade grande.


Não havia folhas macias nem tenras nem secas... Eram folhas abandonadas juntamente com espedaçados jornais e folhetos.


Aqueles passarinhos não dormiam em árvores molhadas, nem em campos cobertos de sementes. Viviam o diário das notícias. Eram pássaros sonhadores e leitores. Sonhavam um mundo de leituras para todos, de cama aconchegante, de ninho macio. Um mundo de casas, de leitos, de ninhos... e de jornais e histórias para todos lerem. E sonharem.

(foto: arquivo pessoal, Papagaio, área rural, verão 2009)

Algumas Palavras, Alguns Livros 2

Querida
Lygia Bojunga
Rio de Janeiro: Editora Casa Lygia Bojunga, 2008

Este é o exemplar 1.502 de Querida, adquirido pela Biblioteca Anísio Teixeira -CEAT. Cada exemplar das obras publicadas pela Casa Lygia Bojunga é numerado um a um. Revela um cuidado com o livro, com o leitor; mostra a identidade de cada exemplar: único, singular, que carrega também a experiência do seu leitor. Isso começou com a obra Feito à mão, publicada inicialmente em poucos exemplares, feitos artesanalmente pela autora, em 1996. Iniciativa que ficou como uma marca da autora/da editora.


Querida é um romance que traz o ciúme como uma personagem; a infância e a velhice são os vértices da existência humana atravessados pelas diferentes personagens e pelo olhar do leitor. A cidade grande, a serra fluminense, o nordeste brasileiro, lá fora do país... São espaços de encontros e de desencontros. De saudades, de raiva. Alguns distantes, outros próximos de quem lê. As profissões de escritor, de atriz, de chefe de cozinha são mostradas na sua paixão, nas suas frustrações e no confronto com a vida.


Na mais recente obra da autora premiada nacional e internacionalmente, reparamos aspectos que já estiveram presentes em livros anteriores, como o contraste social brasileiro; o ciúme como valor universal; a arte do teatro; a arte de escrever... Lygia revisita esses elementos: os amplia, os dá nova forma e plasticidade, aqui, numa tecitura para leitores de fôlego, sejam os adolescentes, sejam os adultos.


Entre ser leitor, ser espectador, ser sujeito, a leitura nos convoca como partícipes de uma experiência subjetiva. A de fazermos a história nossa com Querida, passo a passo na prosa caracterizada com metalinguagens, como a da própria literatura: e o que é a literatura? Seria o mergulho profundo na história de um outro que nos revela? Seria o acreditar nas palavras de quem escreve como se tudo aquilo fosse a nossa verdade interna? Assim é a literatura de Lygia Bojunga!

Ninfa Parreiras



Memórias inventadas para crianças
Manoel de Barros
Iluminuras Martha Barros
São Paulo: Planeta Jovem, 2006

As memórias seriam uma invenção? Ou a memória é o que impede a fantasia de fluir? Do que tratam as memórias inventadas do escritor Manoel de Barros, homenageado na FLIST de 2010? As vivências que chegam com as memórias trazem um universo mágico do que foi (: o vivido) e do que pode ser (: a ficção).


Em prosa, narrativas brevíssimas, o poeta de Mato Grosso revive instantes que passaram em sua infância. Pode ser até na infância interna, a das imaginações. Em um tempo, em que os brinquedos eram inventados e feitos pelas crianças: boizinhos de ossos, bolas de meias, automóveis de lata... Nas descobertas dos heróis e das estátuas das cidades grandes...


Em cada narrativa, uma palavra criada, um sentimento descoberto. São seis contos que nos deixam com gosto de querer ler mais: “Escova”; “O lavador de pedra”; “Fraseador”; “O apanhador de desperdícios”; “Brincadeiras” e “Sobre sucatas”. Ler como criança, ler para e ler com as crianças.


São prosas quase poemas, em linguagem condensada, poucas palavras, metáforas, jogos de sentidos e de palavras. Instantes de vida. Sopros de lembranças.


As iluminuras da artista Martha Barros, filha do autor, acompanham os relatos, ampliam as ideias do texto, para o território do sonho. Imprimem bichos, flores, figuras minúsculas pintadas sobre tecidos de texturas diferentes. Trazem rodopios, nascimentos, encontros... Deixam o leitor voar com os passarinhos, com as reminiscências de um tempo que se foi mas continua vivo dentro de cada adulto. E deixam cada leitor pasmo a descobrir uma infância outra, de outrem, que existe na literatura mas também na história dos adultos, dos nossos antepassados. As memórias inventadas inventam um tempo do antes, para todos nós.


Ninfa Parreiras




Santiago
Federico García Lorca
Tradução William Agel de Mello
Ilustrações Javier Zabala
São Paulo: Martins Fontes, 2009

Federico García Lorca (1898-1936), poeta andaluz, viveu pouco tempo e nos deixou uma poesia memorável, repleta de sonhos, de descobertas. Foi um combatente das palavras na Guerra Civil Espanhola.


Santiago é uma balada que faz parte de Livro de poemas, sua primeira obra de poesia. É a lenda fascinante da visita do Apóstolo Tiago a uma pobre camponesa num arraial perdido entre montanhas. Os versos nos provocam indagações, buscas, a dúvida da nossa existência: para onde foi Santiago? E para onde vamos? Aquilo foi uma visão? Um encantamento? Que experiência é esta?


Passeamos por diferentes lugares espaciais, caminhamos juntamente com crianças, adultos, cavaleiros, a velha, em prados, em colinas... “Aonde vai o peregrino celeste/ pela clara infinita vereda?” Crença, paixão e imaginação dão se as mãos e povoam o imaginário de cada personagem, de cada leitor. Realidade versus ficção, vida versus morte, infância versus velhice... Nascimento e descobertas juntas em versos melodiosos e ricos de imagens.


As ilustrações, em técnica mista, revelam belíssimas pinturas que sugerem, anunciam, dão forma à imaginação. Colocam em contraste a existência humana e a imensidão do universo. O dia-a-dia rotineiro em contraste com o que é inexplicável. A natureza (plantas, animais, ser humano) e as construções e edificações (casas, batalhas). A velha surge como depositária de sonhos e de ilusões, de desejos perdidos e inalcançáveis. A velha representa o tempo: do que passa, do que virá... Cada página, uma revelação.


Ninfa Parreiras



Obax
Texto e ilustrações André Neves
São Paulo: Brinque-Book, 2010

Obax, como o próprio autor esclarece, é uma história inventada e ambientada na África. Não é um reconto de um relato africano. Pura invenção em palavras, em nomes buscados na cultura africana (Obax, a menina e Nafisa, o elefante), em imagens. Talvez seja este um dos grandes desafios da literatura: fazer o leitor acreditar que a história existe ou existiu: a verossimilhança. Não só acreditamos na história de André Neves, como mergulhamos fundo no mundo de imagens e de palavras de Obax.


Narrativa leve e breve, marcada pela fantasia, pela ludicidade, elementos tão caros à infância. Traz, principalmente, o confronto entre o mundo adulto e o da criança, entre a realidade e a fantasia. Entre o mundo de cá do oceano (o leitor) e o mundo de lá: a África, com algumas de suas cores e sabores.


As ilustrações revelam uma pesquisa minuciosa, com contrastes de cores, de formas, de sons, de texturas. Trazem regiões tão diversas que caracterizam a África (a savana, o deserto, o litoral, aldeias e cidades...). Levam o leitor a passear com a menina e o elefante por diferentes ângulos de paisagens variadas.


Há a possibilidade de passeios conduzidos por um elefante e por uma menina: trajetos vistos de cima, de lado, de longe, de perto. Um animal tão lendário quanto o elefante nos abre trilhas para imaginar e romper barreiras de tamanho, de espaço, tempo. Coisa que a literatura nos permite!


O projeto gráfico alterna páginas ora com ilustrações pequenas sobre fundo branco ora com desenhos grandes sobre fundo colorido; faz também o jogo de tamanho, uma brincadeira de esconde-esconde, entre leitor e obra. Convida a passar as páginas e passear por uma África sonhada, de diversidades e contrastes.


Ninfa Parreiras

(Resenhas também disponíveis no site do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT: http://www.ceat.org.br/ em Aquisições da Biblioteca: http://www.ceat.org.br/janelas_index/aquisbibli2010.htm )