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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Algumas palavras, alguns livros 5

De escrita e vida: Crônicas para jovens
Clarice Lispector
Organização Pedro Karp Vasquez
Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010

Escrever e viver para Clarice Lispector eram duas coisas tão próximas, dois caminhos de estar no mundo. Avessa às teorias da literatura, recusava o título de intelectual. Em sua obra - romances, crônicas, contos - percebemos seu diálogo permanente com o escrever, o fazer literário. Ela dividia com o leitor as suas dúvidas, angústias e descobertas sobre a escrita. Respondia leitores de suas crônicas de jornal, respondia cartas que recebia e estabelecia uma troca que tinha o texto como foco.


Segundo volume publicado pela Rocco, com uma seleção temática de crônicas, Crônicas para jovens: De escrita e vida foi organizado por Pedro Karp Vasquez, depois do volume Crônicas para jovens: De amor e amizade. Embora a edição esteja endereçada aos jovens, os textos de Clarice podem ser bem apreciados pelos adultos: aqueles que já conhecem as suas obras supostamente vão identificar elementos vistos em algum texto; os que não a conhecem poderão se encantar. E, mais que tudo, é uma obra metalinguística, para os que gostam de escrever: os desafios, as entrelinhas, o papel em branco, a necessidade de escrever de madrugada, o depoimento ao revisor dos textos, a preferência de uma máquina de datilografar...


São dezenas de crônicas que mostram os bastidores de uma autora que vivia pela escrita e da escrita. Ofício? Aprendizagem? Como é que se escreve? Essas são algumas das questões que Clarice compartilha com o leitor, de um jeito íntimo e apaixonado pela vida e pela escrita.


O ato de escrever e a criação são dos temas centrais da obra e da própria vida de Clarice, visíveis aqui nesta coletânea em linguagem espontânea. Há crônicas em que ela abre a sua intimidade com o leitor, ao se declarar uma não leitora, alguém que precisa escrever, que não viveria sem a escrita: esta é Clarice Lispector!
                                         Ninfa Parreiras






O Livro de Ana
Bartolomeu Campos de Queirós
Ilustrações Marconi Drummond
São Paulo: Global, 2009

Considerado um dos maiores escritores da literatura infantil e juvenil brasileira, Bartolomeu Campos de Queirós encanta crianças e adultos com suas palavras poéticas. Sua obra, em prosa e poesia, conta com textos curtos e condensados, carregados de um lirismo incomum: cada metáfora é a marca de uma lapidação da escrita. Em O Livro de Ana, Bartolomeu nos aproxima do cuidado com a criança, da aproximação entre vida adulta e infância e nos fala de leitura, de vínculos afetivos. Ele nos traz a história de Sant’Ana (o nome em hebraico significa graça), mãe de Maria, que traz um livro nas mãos. Seria a leitura uma graça para os leitores?


O que teria naquele livro? Que histórias ele contava? De que reinos vinham as palavras do livro de Sant’Ana? São questões que acompanharam o menino Bartolomeu desde criança e seguem com ele até hoje. Agora, essas questões são compartilhadas com o leitor num gesto de generosidade.


Em uma linguagem lírica, o autor conta o mito da criação, da origem da humanidade: “E dentro do nada Ele iniciou a criação.” Em sete dias, são criados o firmamento, a terra, o mar, o infinito, o homem e a mulher... E ainda fala do silêncio que nos faz apreciar as coisas, que nos deixa ler. Ao associar a criação do universo à criação de um texto, em bela metáfora sobre o escrever, Bartolomeu nos mostra quão é necessário o outro para nos ler, nos decifrar. Não há literatura sem o leitor, sem o silêncio, sem as entrelinhas.


O Livro de Ana, além da religiosidade que carrega, é uma obra de caráter metalinguístico, em que o projeto gráfico nos faz passear pelos caminhos da arte: as páginas do miolo são cortadas, o que permite uma leitura lúdica. As ilustrações do artista plástico Marconi Drummond imprimem um ar sagrado e mítico à obra.
                    Ninfa Parreiras




O gerente
Carlos Drummond de Andrade
Ilustrações Alfredo Benavidez Bedoya
Rio de Janeiro: Record, 2009

Drummond poeta, contista, cronista, nos deixou um legado literário que o faz imortal. As novas edições e reedições de seus textos nos surpreendem e seduzem os leitores que ainda não o conhecem. O gerente foi publicado inicialmente em 1945, com ilustrações de J. Moraes, das Edições Horizonte. Como o autor dizia, era uma novela em formato de cordel, com o valor impresso na quarta capa: R$4,00. Obra popular e acessível aos diferentes leitores à época.


Pouco depois, em 1951, Drummond incluiu a novela na obra Contos de aprendiz, juntamente com outros contos de tirar o fôlego. Em 2009, a editora Record nos presenteou com esta bela edição em capa dura, com ilustrações em preto e branco do artista argentino Alfredo Benavidez. Se o texto é uma novela ou um conto fica a cargo do leitor.


Em O gerente, há um tratamento requintado da matéria ficcional: o leitor se prende ao texto do início ao fim. Drummond trouxe algo da ordem do diáfano, da surpresa, do inexplicável. Há um mistério, uma dúvida implantada na cabeça de quem o lê: quem decepava os dedos das mulheres? O que pretendia aquele gerente? A linguagem serve pouco para descrever e muito para sugerir. O leitor passa a ser um outro necessário à leitura das entrelinhas, dos subtendidos, é convocado a decifrar o que não se explica pela razão.


O homem exemplar que era Samuel, personagem principal, planta dúvidas entre os que o conhecem e em nós, leitores, que devoramos a história, ávidos por entender aquele homem aparentemente do bem. O que seria a normalidade? O que estaria escondido por trás dela? Uma das coisas que parecia fascinar Drummond eram os minúsculos fragmentos de diálogos, o olhar sobre coisas incompreendidas e não explicadas, muito presente nesta história.
Ninfa Parreiras

(Resenhas também disponíveis no site do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT: http://www.ceat.org.br/ em Aquisições da Biblioteca: http://www.ceat.org.br/janelas_index/aquisbibli2010.htm )