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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Algumas palavras, alguns livros 7

Lino
Texto e ilustrações André Neves
São Paulo: Callis, 2010

Se o brinquedo é o objeto simbólico, por excelência, da infância, ele estaria presente nas produções culturais destinadas às crianças? Como ele estaria representado na literatura infantil? Em Lino, obra de autoria de André Neves, os brinquedos são as personagens da história. Desaparecer, mudar, surpreender-se são algumas das vivências daqueles bonecos. Na verdade, situações que nos remetem às experiências das crianças: sentir medo, estar angustiada, não saber o que vai acontecer, descobrir o novo...

Em uma narrativa breve, pontuada por uma riqueza sonora das palavras (Lino, Lua, Estrela, rodas, rodopios, reviravoltas...), o autor nos leva a passear num mundo de brinquedos. Histórias para bebês e crianças pequenas devem explorar a musicalidade da nossa língua, como notamos em Lino. Devem surpreender o leitor em cada passar de páginas, como um brinquedo que possibilita um mergulho num faz-de-conta.

Em capa dura, papel couché, grandes ilustrações que parecem desenhos em 3D: são imagens que pulam aos nossos olhos e nos transportam a um mundo mágico, de fantasias e de brincadeiras. Curioso como o artista criou brinquedos com botões e com formas ao gosto dos pequenos que exploram os sentidos, principalmente o tocar, o puxar. Dá vontade de tocar o porquinho, mexer em seu focinho de botão; de apertar a barriguinha de Lua e descobrir o que acontece. E como é acolhedor ser recebido numa casa de estranhos e encontrar um lugar para se acomodar e ser do jeito que se é, com suas peculiaridades.

Obra indicada para os pequenos leitores e para os adultos que lidam com as crianças. Mesmo que elas ainda não saibam ler o texto, passearão os olhos nas imagens e ouvirão com gosto a história lida por alguém. Não faltam, em Lino, objetos, situações e afetos que são tão próprios da primeira infância. Se aprendemos, na psicanálise, com Winnicott, que as crianças precisam de um objeto transacional para se constituírem como sujeitos, como um apoio, uma segurança, em Lino há objetos e espaços a serem descobertos pelos pequenos.
                                                                                 Ninfa Parreiras



Ode a uma estrela
Pablo Neruda
Tradução Carlito Azevedo
Ilustrações Elena Odriozola
São Paulo: Cosac Naify, 2010


O poeta chileno Pablo Neruda criou, dentre outras produções, muitas odes. A ode é um poema lírico, destinado ao canto na Antiga Grécia. Constituída de versos em estrofes, imprime um tom descontraído ao poema. Ode a uma estrela estava incluída no terceiro livro de Odes elementares, publicado em 1957.

No poema, nos deparamos com utopias que nos colocam em contato com a nossa existência: podemos guardar nossos sonhos? Colocá-los no bolso? Escondê-los das pessoas? Frente aos afazeres do cotidiano, precisamos de sonhos. Precisamos também de poesia, que nos traz um instante de contato com nosso eu interior e com o deleite das palavras. E ainda nos aproxima do sonho de outro (o poeta). E quem seria o poeta? Aquele que reinventa a fantasia?
O que seria a poesia? Talvez seja essa a questão da obra de Neruda que traz versos carregados de musicalidade e de surpresas. Entre a estrela e o poema, está o sonho, o motor dos nossos dias, o alento para nossa vida.

Cada ilustração, em página inteira que se esparrama pela página lateral, faz como o brilho da estrela ou o encantamento do poema. Enche de luminosidade os olhos de quem lê.

De autoria da artista basca Elena Odriozola, as imagens nos capturam e comungam do lirismo presente no texto. Sugerem sensações, não revelam, nos convidam a passear por páginas e ruas. Deslocamentos e movimentos, de cima para baixo, de baixo para cima, para o lado, são reproduzidos como um modo de nos levar pelas entrelinhas do poema. Muitas vezes, poemas e imagens não são para serem entendidos, mas para serem sentidos. Cada leitor terá uma história diferente com um mesmo poema, basta abrir a portinha da imaginação.
                                                                 Ninfa Parreiras

Selvagem
Roger Mello
São Paulo: Global, 2010

Em capa dura, encadernação costurada, guardas compostas com pequenos quadros, papel de boa gramatura, esta obra sem texto aborda o selvagem. São detalhes de cuidado com o novo livro do premiado ilustrador e escritor Roger Mello. Em fino acabamento, encantará leitores de diferentes idades, pelo caráter universal que o autor aborda. Sem linearidade, nem conclusão, Roger brinca com uma fotografia, um homem, um tigre... A curiosidade e a busca pelo novo seriam características exclusivas dos humanos? 


E o que seria o selvagem? O estranho? O esquisito? O que está distante de nós? Selvagem para quem: para o homem sentado a observar o tigre na fotografia? Ou selvagem para o tigre que escapa da foto? Ou ainda selvagem para o leitor que passa as páginas e estranha o novo? Selvagem pode ser nosso sentimento de estranhamento frente ao que não nos é familiar. Olhares, descobertas e estranhamentos surgem em imagens com pouca cor. O artista explora o contraste entre preto e branco e a cor laranja. Estampas e ângulos coexistem e nos mostram quão ilimitada é a imagem visual criada em um livro. O selvagem nos leva aos caminhos da criação, daquilo que é indomável, inconsciente. O que fazer com sentimentos que não controlamos e com a nossa capacidade criativa?



A partir de O livro da selva, de Rudyard Kipling, Roger constrói uma narrativa visual de caráter metalinguístico. Quem cria? Como e a partir de que cria? Um passeio por diferentes cômodos, diferentes selvas, diferentes formas... São espaços que as páginas nos conduzem e nos levam para o mundo encantado da literatura: de uma história que construímos com a nossa imaginação. O autor traz alguns elementos estéticos, muito bem colocados no livro, e cabe agora ao leitor percorrer uma selva, uma casa e descobrir outros tantos bichos. Descobrir o que a literatura pode nos trazer, em uma obra sem texto mas artisticamente feita em imagens.
                                                                                   
              Ninfa Parreiras, especialista em literatura infantil, psicanalista



História da ressurreição do papagaio
Eduardo Galeano
Tradução Ferreira Gullar
Ilustrações Antonio Santos
São Paulo: Cosac Naify, 2010

 
Inspirado em um poema de cordel, o consagrado escritor uruguaio Eduardo Galeano recria aqui uma história que escutou em uma visita ao Ceará. Em muitas de suas obras (O livro dos abraços, Palavras andantes, Espelhos: uma história quase universal...), Galeano nos leva a passear em suas viagens, em seus olhares sobre o outro, especialmente, sobre a América Latina e sobre as peculiaridades do nosso povo. Cada encontro do autor com um passante, uma pequena cidade, ele transforma em um relato cheio de emoção.
Nesta história, sobre a origem das cores do papagaio, ave tão brasileira, o texto ganha as ilustrações do artista espanhol Antonio Santos. Do Uruguai, ao Ceará/Brasil, à Espanha, a obra nos leva a um passeio pela sabedoria popular, pela metamorfose, pela criação e pela reinvenção da vida. Valoriza os artistas populares: o fazedor de cordel, o artesão, o oleiro, o contador de casos.

Afetos como amizade e a compaixão surgem no passar das páginas. O texto, em linhas breves, traz curiosidade e surpresa. Há uma melodia e um ritmo próprios das histórias populares, mantidos na cadência de cada linha, transformada em verso pelo autor. Cabe dizer que a cuidada tradução está a cargo de Ferreira Gullar, poeta contemporâneo brasileiro, vencedor de diversos prêmios literários e que já traduziu Pablo Neruda.

De caráter metalinguístico, a obra nos mostra que a arte pode ser o que nos move a criar, a inventar, a viver... A superar os desafios e a recriar novos sentidos para cada sentimento, para cada coisa vivida.

Imagens feitas em madeira abusam das cores e mostram a ressurreição como um ato de arte. Humor e lirismo estão presentes nas ilustrações do artista espanhol e nos fazem lembrar peças de arte popular do nordeste brasileiro.
                                                                                       Ninfa Parreiras

(Resenhas também disponíveis no site do Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT: http://www.ceat.org.br/ em Aquisições da Biblioteca: http://www.ceat.org.br/janelas_index/aquisbibli2010.htm )