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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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sábado, 12 de novembro de 2011

Algumas palavras, alguns livros 15


Que lugar tem a criança na prosa de Guimarães Rosa?

             O grande romancista Guimarães Rosa nos deixou um importante acervo de contos, gostosos de serem lidos por adultos, por adolescentes, por crianças. E importantes para entendermos a infância. Que etapa é essa do desenvolvimento?
Em alguns contos, nos deparamos ainda com questões da passagem para a puberdade, do confronto entre vida e morte e entre infância e velhice. O que há de tão misterioso nessa nossa existência? Daí, Guimarães trata o sobrenatural como algo que faz parte da vida, da literatura, da infância, da arte. Num mesmo conto, ele inclui questões da infância, da morte, do sobrenatural, como elementos que fazem parte da vida.
E também podemos ler seus contos para discutir o que é a literatura infantil. Haveria, de fato, uma literatura destinada às crianças? Ou são os editores que preparam as obras com feições para os pequenos? O que seria mais relevante numa obra para crianças: o ponto de vista do narrador que respeite o olhar da infância? Ou o tratamento da língua, cheia de jogos de linguagem, de palavras? Ou a presença da personagem criança?
Contos como Fita verde no cabelo (Nova Fronteira, ilustrações Roger Mello, 1992 e Ave, palavra, Nova Fronteira) e “As margens da alegria”, “Os cimos” e “A menina de lá” (Primeiras estórias, Nova Fronteira, 2001) nos dão pistas para essa reflexão sobre a infância, sobre as passagens de diferentes etapas do desenvolvimento humano, sobre as produções culturais voltadas aos pequenos leitores. São obras com personagens crianças que vivenciam descobertas, perdas, mudanças, as dificuldades de entendimento de um mundo cheio de regras e valores adultos.
 Em primeiro lugar, notamos como a criança em Guimarães tem voz e vez: é sujeito de suas ações. Em Fita verde no cabelo, temos uma menina que se depara com a velhice, com a partida da avó, com o mistério e inexplicável. A menina está em crescimento, vê a morte, atravessa o medo e o desconhecido.
Já em “A menina de lá”, a personagem franzina, miúda, econômica na comunicação, pressente acontecimentos, faz milagres. Na verdade, a menina prevê a própria morte. Isso é confirmado após a sua partida, que havia deixado como um desejo de ser enterrada em caixãozinho rosa com verdes funebrilhos. A perda da menina é reparada com o próprio milagre: o de Santa Nihinhinha.
Em “As margens da alegria”, passeamos e nos deslocamos com um menino que vai para a casa do tio na capital que está sendo construída, supostamente Brasília. A primeira vez que viajava de avião, estava sem a mãe, sentia medo, estranha o mundo grande. O menino se encanta por um peru, que acaba na mesa de refeição. Ele vive a alegria, a tristeza, a perda, o não entendimento das coisas ao seu redor.
Já em “Os cimos”, esse mesmo menino viaja para a capital, com a mãe adoentada e perde seu macaquinho bonequinho. Descobre, na natureza, o tucano, ave encantadora! Como num processo de amadurecimento e crescimento, o menino vive seus silêncios, seus assombros, seus fantasmas... Aprende a substituir o brinquedo perdido pelo pássaro recém admirado, o tucano.
Nas duas situações, o menino se depara com um mundo diferente, crescido, amplo, de coisas, pessoas e natureza exuberante. Com suas expressões coloquiais e neologismos, Guimarães usa uma linguagem bastante musical, com uma pontuação e ortografia peculiares às falas de pessoas do campo. Ele não ridiculariza o homem do campo, nem deprecia seus sentimentos, ele mostra como ali há uma sabedoria: de crenças populares, de sensibilidade da infância, da existência do sobrenatural em convivência com o mundo lógico e racional das relações. A prosa de Guimarães é para todos os leitores: crianças e adultos, cada um vai ler do tamanho que alcança suas metáforas, suas metamorfoses, suas mudanças, inclusive a da própria palavra, como matéria de salvação da nossa alma.
 Ninfa Parreiras

Algumas palavras, alguns livros, 14


CRÔNICAS DO RIO NO CEAT

Como atividade da 19ª Campanha Paixão de Ler da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, o Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT organizou, na Biblioteca, encontros para leitura e conversa sobre crônicas, com alunos e professores: Crônicas do Rio. Durante uma semana (de 04 a 11 de novembro 2011), foram lidas crônicas de todos os tempos, com um bate-papo ao final.
A crônica seria uma expressão literária? Alguns a consideram parente do texto jornalístico, outros a tratam como um gênero literário. Seria datada? A palavra crônica deriva da língua grega χρόνος ou chrónos (tempo). Qual a associação da crônica com o tempo? Como relato que segue uma sequência temporal, a crônica está apegada ao tempo contemporâneo, ao momento de quando foi escrita.
Como um suspiro comentado, a crônica fala de acontecimentos sociais, políticos, esportivos, culturais, atuais e traz comentários ou indagações do autor. Pode trazer também um relato de uma situação pessoal vista, sentida ou vivida por quem a escreve. Ou pode, simplesmente, discutir o que é escrever, com o uso da metalinguagem de forma bem coloquial. O humor, a ironia e a irreverência também são características da crônica, que tenta fisgar o leitor do jornal, da revista, do blog, do site. Depois, esses textos podem ser reunidos em um livro. O cronista costuma estar ligado aos acontecimentos, aos noticiários, às pequenas percepções do dia-a-dia.
Muitas crônicas ficaram atemporais pelo caráter literário com que foram feitas, as de Rubem Braga, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos e Rachel de Queiroz. A lista é longa e nela podem entrar ainda autores da contemporaneidade, como Luis Fernando Veríssimo, Zuenir Ventura e Arnaldo Jabor.
Uma questão muito discutida, hoje, a de dar voz ao negro na literatura, seja como personagem valorizado, seja também como autor, pode ser observada em crônicas de autores como Fernando Sabino e Vinicius de Moraes. O negro aparece como sujeito, sem tratamento piegas, nem depreciativo.
Em “Batizado na Penha”, de Vinicius, da obra As cem melhores crônicas brasileiras, organização e introdução de Joaquim Ferreira dos Santos, editora Objetiva, 2007, ele nos relata a ida dele e de familiares a um batizado na Igreja da Penha, no Rio de Janeiro. Uma pretinha de uns cinco anos, Leonor, cria da casa dos avós paternos, os acompanhava. A menina, ao brincar de pular os tantos degraus da igreja (mais de 300!), se escapole e rola abaixo. O poeta descreve, com carinho e minúcias, como a menina foi salva e como aquilo foi um milagre de salvação da vida dela, o último milagre da Penha que ele teve notícia!
Notamos que a menina era como um brinquedo para eles e era tratada com respeito, com cuidado, com mimo. A forma como ela é comentada nos mostra um tratamento sem discriminação (ela acompanhava a família que a criava). O olhar de Vinicius é de quem fala de alguém especial, familiar, próximo: “era danada de bonitinha”. Ele assume que eles pintavam com ela, como fazemos com os irmãos menores, nas relações de crianças, de adolescentes.
Em outra crônica, de Fernando Sabino, “A última crônica”, de Elenco de cronistas modernos, 19 ed, José Olympio, o autor nos narra algo que viu, fora de si, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica, em suas palavras. Ele observa, num botequim, na Gávea, no Rio de Janeiro, um casal de pretos com uma negrinha de três anos, laço na cabeça, arrumadinha.
Um ritual discreto daquela família prepara os parabéns, com uma garrafa de coca-cola e uma fatia de bolo e mais três velinhas brancas minúsculas levadas pela mãe. Sabino nos conta isso com uma minúcia e, ao mesmo tempo, com encantamento. E fala da alegria do sorriso daquele pai, satisfeito. Toma esse sentimento como o que gostaria de transmitir nessa sua última crônica, supostamente de um ano que terminara. Cada detalhe, cada sentimento da família são motivos para a crônica acontecer como queria o autor: com a alegria da pureza.
Diante desses dois exemplos de textos de décadas atrás, percebemos como o olhar desses autores sobre o negro traz delicadeza e cuidado. Um misto de admiração, de encantamento, que transborda o papel e contagia o leitor. Isso é crônica!
                                                             Ninfa Parreiras

Algumas palavras, alguns livros, 13

Que sentido os sentidos têm?
Poemas: Vânia Alsalek
Ilustrações: Anielizabeth
Rio de Janeiro: Gryphus, 2011
Primeira obra para crianças da educadora Vânia Alsalek, Que sentido os sentidos têm?,  traz um convite ao leitor para degustar os versos cheios de lirismo e espontaneidade. Coisas simples, da natureza, do cotidiano, da alimentação podem ser motivos para prestarmos atenção aos cheiros, aos sentidos e à vida: pão com manteiga e geléia; chuva; caminhão do lixeiro; o pipoqueiro... E o que mais? Abra o livro e descubra você também!
“Que cheiro esse cheiro tem”; Um brilho diferente”; “Todo mundo tem ouvidos”; “Tem gosto pra tudo” e “Nem tudo se vê com os olhos” são os poemas que fazem parte desse livro editado pela Gryphus, que mistura os sentidos às descobertas das crianças. Brincadeiras de palavras e non sense são utilizadas, como recursos da poesia que encanta leitores de todas as idades.
Ilustrações de Anielizabeth trazem movimentos, deslocamentos e compõem um trabalho bem realizado. As cores bem fortes fazem uma sintonia com as imagens evocadas pelos poemas.
Também autora da obra para educadores A criança até 4 anos – um guia descomplicado, da editora Summus, Vânia conviveu por muitos anos com crianças em idade de creche no trabalho que desempenhava. Sua linguagem na produção para crianças flui com espontaneidade e despojamento, rica em figuras de linguagem e ludicidade. Na sua obra dirigida aos adultos, estamos diante de um importante estudo sobre os primeiros anos da vida de uma criança, na verdade, os anos que as funções motora, cognitiva, psíquica e emocional são constituídas. Ou seja, os anos mais importantes da vida de uma pessoa. O livro está bem dirigido aos pais, educadores e cuidadores dos bebês e pequenos. Que venham outros livros para crianças e para adultos, Vânia!
                                                                   Ninfa Parreiras



O acervo iconográfico da Biblioteca Nacional
Estudos de Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha
Renata Santos, Marcus Venicio Ribeiro e Maria de Lourdes Viana Lyra (organizadores)
Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2010

       Obra de caráter histórico, cultural, bibliográfico e artístico, importante para pesquisas e estudos. Aqui estão reunidos os pioneiros estudos iconográficos realizados ao longo de mais de 50 anos por Lygia Cunha, bibliotecária e antiga chefe da Seção de Iconografia da Biblioteca Nacional, a mais antiga e importante Biblioteca Nacional do Brasil, localizada no Rio de Janeiro e uma das dez maiores bibliotecas do mundo e a maior da América Latina.
Entre os artistas contemplados nos estudos, encontramos: Albrecht Dürer, Debret, Thomas Ender, Carlos Julião, James Forbes, Joseph Martinet, entre muitos outros, de diferentes procedências. São 256 páginas de pesquisas, comentários, bibliografias, reproduções iconográficas. É um verdadeiro contato com a nossa história, a nossa idiossincrasia: as vestimentas, as funções sociais das pessoas, a natureza tão retratada nas paisagens: bichos, plantas e vistas. E, além de tudo, um importante registro do processo de documentação do olhar sobre o país: desde a fotografia à pintura, ao desenho, às gravuras.
Páginas em papel couché e reproduções das artes em cores são alternadas no miolo da bela edição desse estudo. Como um livro de arte, ele se abre aos nossos olhos e ao deleite do manuseio, da leitura e da pesquisa.
Se viajantes, cientistas e estudiosos nos deixaram seu olhar sobre o nosso povo, a nossa pátria, chegou a hora de conhecermos essa amostra significativa de arte histórica de séculos passados. Parabéns à estudiosa bibliotecária Lygia da Fonseca pelo cuidado e dedicação! E parabéns aos organizadores da obra que fazem das memórias iconográficas a nossa história!

Ninfa Parreiras

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Voz da Poesia 1

POR DENTRO DA POESIA
Ninfa Parreiras
            Como tem sido a aproximação das crianças e dos jovens à poesia? Os poemas são trabalhados nas salas de aula? Como os professores lidam com os versos e como os leitores recebem a poesia? A poesia está presente nas leituras das famílias? São questões relevantes que nos levam a pensar a poesia no universo escolar e social em que vivemos.
A poesia é uma expressão gostosa de ser ouvida, de ser lida em voz alta, de ser passada de uma pessoa à outra. Trazemos aqui alguns registros de publicações e de atividades com e sobre a poesia que têm acontecido em diversas partes do nosso país.

- DIA D CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (31 de outubro 2011) comemorado na Estação das Letras, Rio de Janeiro, RJ
No dia 01 de novembro, em homenagem a Drummond, os alunos do curso de Literatura Infantil (terças, às 18h40) vão fazer leituras de poemas do poeta de Itabira, além da leitura de textos criados pelo participantes do grupo.


- SARAU DE POESIA NO RIO DE JANEIRO, RJ
O Sarau acontecia na Livraria DaConde, situada no Leblon, no Rio de Janeiro, RJ, coordenado pela professora e poetisa Helen Queiroz. Desde setembro de 2009, uma vez ao mês, sempre numa quarta-feira, entre 19h e 21h, crianças e adolescentes se encontravam para ler poemas e tocar seus instrumentos: flauta, violão, guitarra, piano... Em algumas vezes, havia a participação especial de corais de crianças de escolas de bairros diferentes. Também costumava haver a presença de autores de literatura infantil, que conversavam com o público sobre poesia. No Sarau, as crianças levavam livros de casa, consultavam livros da livraria, faziam leituras e comentários sobre o que leram. Muitas separavam poemas para ler para o grupo, o que mostrava a satisfação de cada uma em participar da noite poética. A partir de 2011, o Sarau acontecerá na Livraria da Travessa de Ipanema, RJ.

- A CALIGRAFIA DE DONA SOFIA ESPALHA POESIA PELO BRASIL
Escrita e ilustrada por André Neves, a obra A caligrafia de Dona Sofia, atualmente publicada pela editora Paulinas, está na 9ª edição. É um sucesso entre os professores e os alunos em escolas de todo o país. A personagem é uma professora aposentada que envia poemas aos amigos, além de registrar poemas em sua casa. Na obra, há mais de 50 poetas com estrofes ou versos citados, ao longo do relato. É uma antologia de poesia, com poetas contemporâneos e clássicos e uma bibliografia completa ao final.  Tive a oportunidade de conhecer em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e em outras partes, projetos de leitura que se inspiraram em Dona Sofia: colchas poéticas, varais de poesia, caixas de poemas, bibliotecas dedicadas à poesia, cadernos de poesia... Para adquirir a obra: http://www.paulinas.org.br/

- INSTITUTO CULTURAL ELIAS JOSÉ – ICEJ, GUAXUPÉ, MG
Coordenado por Sílvia Monteiro Elias, viúva do poeta Elias José, o ICEJ foi criado em 2008 e funciona na cidade de Guaxupé, MG. Recebe a visita de escolas com alunos de até 12 anos. No ICEJ, as crianças têm contato com livros do poeta, além de obras de literatura infantil. Em 2009, foram mais de 1000 crianças que participaram dos projetos Contação de Histórias e Incentivo à Leitura, além de mais de 1000 crianças beneficiadas pelo projeto Caixa Mágica de Surpresas que vai até creches e escolas do município. A memória do poeta Elias José está viva no ICEJ e no contato de cada criança com os livros. Há um espaço com biblioteca, sala de fantasias, sebo e sala de contação de histórias. Diversas empresas, entidades, e pessoas voluntárias colaboram com o funcionamento do instituto. Acesse para conhecer: http://wwwiceliasjose.blogspot.com  

- O POETA LEO CUNHA NO TWITER
A página do escritor Leo Cunha no Twitter existe desde dezembro de 2009, a Frase & Verso: www.twitter.com;frase_e_verso (com underline entre as palavras, e não hífen). Lá, o consagrado poeta mineiro publica versos, frases, aforismos e palíndromos inéditos, além de comentários sobre notícias da atualidade. Leo também republica, como divulgação, alguns poemas curtos já publicados em suas obras. Sua única regra (auto-imposta) é que ele nunca publica nenhum texto que tenha mais de 140 toques. Nem divide um texto em dois twits, por exemplo. O bacana é que Leo encontrou, na poesia, uma forma de se comunicar com o público de todo o Brasil pelo twitter.

- TIGRE ALBINO: REVISTA VIRTUAL DE POESIA
O Tigre Albino apresenta um panorama e um debate sobre poesia para crianças e jovens. A revista virtual foi lançada em 2007, com edições em março, julho e novembro de cada ano. É produzida por um grupo de voluntários, sem apoios institucionais. Os editores são profissionais de diferentes partes do país: Annete Baldi, Elizabeth D’Angelo Serra, Maria da Glória Bordini, Miguel Rettenmaier, Regina Zilberman, Sergio Capparelli e ainda há um conselho editorial. Cada editor fica responsável por uma seção da revista que traz entrevistas, relato de experiências, resenhas, lançamentos, análises de poemas. Vale a pena conferir:
http://www.tigrealbino.com.br 









- 2ª FLIST HOMENAGEIA MANOEL DE BARROS, NO RIO DE JANEIRO, RJ
A Feira Literária de Santa Teresa, organizada em maio de 2010, pelo Centro Educacional Anísio Teixeira – CEAT, homenageou o poeta Manoel de Barros. Com isso, nos meses que antecederam a FLIST, os alunos do CEAT leram e estudaram poemas do poeta do centro-oeste brasileiro. Houve um encontro sobre poesia contemporânea, com a participação de Geraldinho Carneiro e Salgado Maranhão, além do almoço poético, da chuva poética e dos poemas musicados. A FLIST acontece em Santa Teresa no primeiro semestre de cada ano e pode ser mais bem conhecida pelo blog Gato de Sofá: http://gatodesofa.blogspot.com/ ou no site do CEAT: http://www.ceat.org.br/

           


















- ACADEMIA DE GINÁSTICA POÉTICA
Por três anos, o escritor Luiz Raul Machado coordena na Estação das Letras, no Rio de Janeiro, RJ, a oficina ACADEMIA DE GINÁSTICA POÉTICA: EXERCÍCIOS PARA A MENINA DOS OLHOS, dirigida a adultos interessados em ler e escrever poesia. São lidos poemas de autores brasileiros e portugueses, que preparam as atividades de escrita de textos. A cada semestre, são formados pequenos grupos de pessoas interessadas em ler, discutir e criar poesia. Para conhecer mais: http://www.estacaodasletras.com.br
(Ninfa Parreiras, escritora, psicanalista, especialista em literatura, trabalhou na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil por duas décadas. Ministra cursos de formação de leitores e de criação de textos.) 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Algumas palavras, alguns livros, 12

As coisas da vida: 60 crônicas

António Lobo Antunes
Rio de Janeiro: Objetiva, 2011


António Lobo Antunes, um dos consagrados escritores de Portugal, conta com uma obra em prosa, de romances e de crônicas. No caso dos romances, ele transgride a narrativa e cria uma linguagem e fio narrativos absolutamente próprios. Sua estreia se deu com Memória de elefante, romance que traz a densa separação de um casal e a mudança de vida do narrador, um psiquiatra que retorna de Angola.
Com a crônica, Lobo Antunes lida com naturalidade, mistura passado e presente, recria memórias, dialoga com ficção e realidade, faz interferências subjetivas que fisgam o leitor na primeira linha. O autor conta com uma significativa produção no Brasil, pela editora Objetiva, com uma dúzia de obras publicadas que merecem ser lidas por adolescentes e adultos.
Aqui estão reunidos sessenta textos, que foram publicados no jornal Público e na revista Visão, ambos de Portugal. Divididas em sete blocos temáticos (infância, literatura/metalinguagem, relações amorosas, humor, cotidiano, guerra em Angola, memórias), as crônicas nos levam a passear em Portugal, em Angola (onde o autor serviu como médico do Exército português, nos últimos anos da guerra) e no Brasil.
Nesse conjunto de narrativas curtas, o autor nos abre sua intimidade, seus enlaces, rompimentos, paixões, desamores, memórias, questões com a criação, a família, a literatura, os países onde viveu. É um passeio por uma história vivaz, por uma linguagem singular e envolvente.


                                                                               Ninfa Parreiras


Antes das primeiras estórias
João Guimarães Rosa
Ilustrações Carlos Chambelland & H. Cavalleiro
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011



Conhecemos a produção de Guimarães Rosa que reinventa a linguagem, cria personagens brasileiros, do interior do país, e cenários áridos, do sertão das Minas Gerais. Conhecemos o autor que subverteu a linguagem, criou um romance repleto de questões existenciais e subjetivas, numa fala que pode ser a metáfora da própria literatura. Como nos diz o escritor moçambicano, Mia Couto, na apresentação: “A maior parte das vezes, os escritores escrevem exatamente porque não sabem. E quando sabem eles escrevem para deixar de saber”.
Nessa reunião de quatro contos publicados pela revista Cruzeiro e no Suplemento dos Domingos de O Jornal, de 1929 a 1930, identificamos uma escrita anterior à publicação de Magma (único livro de poemas, o primeiro publicado); de Sagarana (o primeiro em prosa) e de Grande sertão: veredas (sua obra mais consagrada). O autor contava com pouco mais de vinte anos, recém formado em Medicina e ensaiava sua tecitura de palavras, com uma linguagem ainda presa a modelos clássicos. São textos importantes para entendermos o processo de criação de Guimarães Rosa e o desenvolvimento do seu apurado escrever.
Parece que estamos diante de um autor de língua inglesa, que caminha por mistérios, revelações e horror. De importância histórica e literária, essas narrativas nos levam a conhecer um outro Rosa, um escritor em formação. O autor venceu três concursos com relatos cheios de efeitos especiais, mudanças... O prêmio era a publicação dos textos, com ilustrações de Carlos Chambelland e H. Cavalleiro. “Makiné” foi publicado no Suplemento dos Domingos de O Jornal, de 1930. Os outros três contos (“O mistério de Highmore Hall”, “Chronos kai anagke” e “Caçadores de camurça”)receberam a premiação da revista Cruzeiro. São contos para os leitores jovens, numa possibilidade de aproximação da obra de um dos mais importantes autores da literatura brasileira.


                                                                    Ninfa Parreiras






Há prendisagens com o xão: o segredo húmido da lesma & outras descoisas
Ondjaki
Rio de Janeiro: Pallas, 2011
Os grandes autores são poetas, do verso ou da prosa. Este é o caso do escritor angolano Ondjaki. Autor de romances e contos, ele também tem seus poemas que reproduzem uma linguagem híbrida (o português e outros falares de Luanda, cidade onde nasceu) e própria: uma singularidade poética. Obra que homenageia o poeta pantaneiro Manoel de Barros, com uma nota, ao final, cheia de emoção e humildade.
Alguns poemas também homenageiam outras pessoas: Clarice Lispector, Paula Tavares. Em versos livres, a sonoridade se sobrepõe aos conteúdos e o uso coloquial de palavras e expressões deixa os versos leves: fluem como água em direção ao mar.
Percebemos diálogos com o tempo, a liberdade, a palavra, a literatura, a natureza. Ondjaki nos leva a acompanhar as formigas, a seguir sinais da natureza e a reparar pessoas, lugares, mosquitos e pequenas coisas e seres diferentes, como as descoisas, expressão usada pelo poeta.
Alguns títulos de poemas que por si só já são poesia: “Quinto mim guante”; “Arve jánãoelógica”, “Geadações & orvalhamentos”. São poemas que penetram na existência das coisas, dos seres, do humano e da própria poesia. Em “Penúltima vivência”, temos: “quero só/ o silêncio da vela./ o afogar-me/ na temperatura/ da cera./ quero só/ o silêncio de volta:/ infinituar-me; em poros quer hajam/num chão de ser cera”. Imagens e musicalidade nos convidam a um mergulho na poesia de Ondjaki.


                                                                              Ninfa Parreiras

domingo, 18 de setembro de 2011

Cuentos Infantiles Brasileños

foto: arquivo pessoal, Salón Dorado, Museu de Arte Costarricence, San José, Costa Rica, 2011


  Cuentos Infantiles Brasileños
                                             por Ninfa Parreiras
Con hondo contentamiento estamos acá en ese Salón Dorado, en San José de Costa Rica, que acoge nuestras palabras y sueños de promover la literatura infantil de Brasil. 
Heredada del folclor, de la oralidad de los pueblos, de la necesidad del entretenimiento, la literatura nos trae alegrías, dolores, puntos de interrogación. Nos trae el silencio, lo no dicho. Nos trae sentido a la vida.
Muy buenas noches, señoras y señores.
La literatura es hecha de la ficción y de la fantasía que nos trasladan de la realidad a la imaginación. Somos seres de afectos. La palabra, el imagen, hacen pensar en las incertidumbres, en las dudas, en los éxitos, en la soledad.
Qué hacer con los dramas de la realidad si no hubiese esa magia de la literatura?
Casi nada de lo que está escrito en los cuentos es racional. Al acercarnos al campo literario, hacemos aflorar la subjetividad, lo inexplicable de la vida, de nuestra existencia tan misteriosa. Y los cuentos para niños que llegan ahora en esta coletánea que organizamos nos llevan a la risa, a las lágrimas, a la seguridad de que la literatura no tiene edad: es para niños y para adultos. Tampoco tiene fecha de vencimiento. Hablamos de lo que hay de más universal en la literatura: ella es para todos ustedes. 
Pasamos ahora a la lectura del mensaje del libro infantil, de Ana Maria Machado, ganadora del premio Hans Christian Andersen en el año 2000.
Muchas décadas se pasaron hasta que la literatura infantil llegase al sitio en que se encuentra hoy: autores vencedores de premios internacionales, obras traducidas en decenas de países, una larga edición de más de mil títulos al año.
Y para alegría nuestra los libros y las historias vuelan, son libres como una gran red de intercambios y de ilusiones.

Libros: el mundo en una red encantada

                            Ana Maria Machado 

Yo estaba pequeña, no sé qué edad tenía.
Sólo sé que tenía altura suficiente para poder quedarme de pie frente al escritorio de mi padre, apoyar en él los brazos y, sobre ellos, la barbilla. Muy grande, ante mis ojos, había una estatua de bronce: un caballero delgado con una lanza en la mano, montado en un caballo esquelético, seguido por un burrito donde iba encaramado un tipo gordito sosteniendo un sombrero en la punta del brazo extendido, como si saludara a alguien.
Para responder a mi pregunta, mi padre me los presentó a los dos:
– Don Quijote y Sancho Panza.
Quise saber quiénes eran, dónde vivían. Aprendí que eran españoles y vivían hace siglos en una casa encantada: un libro. De inmediato, mi padre interrumpió lo que estaba haciendo, caminó hasta la repisa, tomó un librote y empezó a mostrarme las figuras y a contar la historia de aquellos dos. En una de las ilustraciones, Don Quijote estaba rodeado de libros.
– Y dentro de esos, ¿quién vive?– quise saber.
Por la respuesta, empecé a darme cuenta de que había libros de todo tipo y dentro de ellos vivía el infinito. A partir de ahí, por las manos de mis padres, fui conociendo a algunos de ellos, como Robinson Crusoe en su isla, Gulliver en Lilliput, Robin Hood en su bosque. Y descubrí que las hadas, princesas, gigantes y genios, reyes y brujas, los tres cerditos y los siete enanos, el patito feo y el lobo feroz, todos ellos viejos conocidos míos de las historias que oía, también vivían en libros.
Más tarde, cuando aprendí a leer, la que se fue a vivir a los libros fui yo. Conocí a los personajes de cuentos populares de todo el mundo, en colecciones que me hicieron recorrer desde China hasta Irlanda, desde Rusia hasta Grecia. Me metí de tal forma en los libros de Monteiro Lobato, que puedo decir que me mudé durante un tiempo a la finca del “Picapau Amarelo”. Yo vivía allá. Era un territorio libre y sin fronteras. Con la misma facilidad pude vivir en el Mississippi con Tom y Huck, cabalgué por los bosques de Francia con D'Artagnan, me perdí en el mercado de Bagdad con Aladino, volé a la Tierra de Nunca Jamás con Peter Pan, sobrevolé Suecia montada en un ganso con Nils, me metí en la cueva de un conejo con Alicia, me tragó una ballena con Pinocho, perseguí a Moby Dick con el capitán Ahab, navegué por los mares con el Capitán Blood, busqué tesoros con Long John Silver, le di la vuelta al mundo con Phileas Fogg, me quedé mucho tiempo en China con Marco Polo, viví en África con Tarzán, en lo alto de las montañas con Heidi y en una casita en el campo con la familia Ingall, fui una niña de la calle en Londres con Oliver Twist y en París con Cosette y los miserables, me escapé de un incendio con Jane Eyre, fui a la escuela de Cuore con Enrico y Garrone, seguí a un hombre santo en la India con Kim, soñé en ser escritora con mi querida Jo Marsh, formé parte del grupo de los Capitanes de Arena con Pedro Bala por las laderas de Bahía... y a partir de ahí fui leyendo cada vez más libros de gente grande.
Muchísimas gracias por la presencia de cada uno de ustedes.
Gracias a la Embajada del Brasil por invertir en proyectos culturales acá en Costa Rica. En especial nuestra gratitud al Embajador, señor Tadeu Valadares, por su sensbilidad hacia la literatura y la confianza en nuestro trabajo.
Gracias a Gloria Valladares Grangeiro por haber compartido en ese trabajo hecho por muchas manos.
Nuestros cordiales agradecimientos al señor Consejero Jorge Sá Earp, a la señora Rocío Portocarrero, a la traductora Jenny Valverde Chávez, a la ilustradora Marianela Solano Jiménez, al señor Alfonso Chase-Brenes por el prólogo y al señor Habib Succar, por la gráfica.
Y un agradecimiento último a los 26 autores que cedieron los derechos de publicación de los cuentos y a André Neves, el artista que realizó el proyecto gráfico, el designer de la obra.
Buenas noches; y disfruten de los cuentos.




terça-feira, 13 de setembro de 2011

Algumas palavras, alguns livros 11

O vermelho amargo
Bartolomeu Campos de Queirós
São Paulo: Cosac Naify, 2011


Seria o vermelho uma metáfora do nascimento? Da morte? Marca de sangue, de dor, de nascimento, de ruptura... E o que seria o corte de cada fatia de tomate? A afirmação da perda da mãe? Perder a mãe é se dar conta de que não há mais a vida embrionária, não há mais um cordão que une filho e mãe. Nem há mais o laço entre eles, depositário de cuidados, de acolhimentos, de trocas, de mágoas, de faltas.

Em sua nova obra destinada aos adultos e aos adolescentes, Bartolomeu mostra sua prosa feita de poesia, carregada de lirismos, de metáforas, de duplos sentidos, de não ditos, de silêncios. Há uma comunicação possível, entre o narrador (autor) e o outro (a mãe, um ente da família ou o leitor). Uma fala feita de olhares, suspiros, gostos, cheiros, sinais, expressões. A primeira fala que um bebê aprende: a linguagem silenciada, marcada por toques e expressões sensitivas.

O vermelho amargo, com a primeira edição já esgotada, depois de 3 meses do lançamento, nos leva ao mundo das relações, da criação de si e do outro. Criamos-nos a partir do olhar de um outro? Como nos sentimos autores do que fazemos? Entre a mãe e a madrasta, entre a prosa e a poesia, entre a palavra e o silêncio, entre o sonho e a realidade: a literatura de Bartolomeu. Essa invenção que nos leva por caminhos estranhos, mas também conhecidos, essa invenção de memórias e de esquecimentos. O que seria de nós sem a existência da literatura que nos coloca a viajar pelas palavras e entrelinhas do texto?
                                      Ninfa Parreiras


Caixa de desejos
Ana Cristina Melo
Rio de Janeiro: Vermelho Marinho, 2010
Obra de estreia da autora carioca Ana Cristina Melo, Caixa de desejos abre um mundo de sonhos, de fantasias, de ideias, de pensamentos, de aventuras.

O diálogo entre a adolescência (representada por Marília) e a maturidade (representada pela avó) toma conta desta narrativa dirigida aos jovens. Após a morte da avó e a chegada de uma irmã, a protagonista se vê às voltas com a elaboração de perdas, de mudanças na sua vida. Ela fica em contato com o diferente, o desconhecido. Marília não se intimida em abrir novos caminhos e em descobrir o que há de novo (a reinvenção da vida) no antigo (a caixa da avó).

No jogo entre duplos (neta e avó), passado e presente, lembranças e recriações, a novela se desenrola com uma linguagem fluente, entre tantas outras histórias que são costuradas.
Ver uma leitora passar a escritora, como o que acontece com Ana Cristina Melo, traz uma relação satisfatória e de boa costura. Do site Sobrecapa (http://sobrecapa.wordpress.com), aos blogs Canastra de Contos (http://canastradecontos.blogspot.com) e Ficção de Gaveta (http://ficcaodegaveta.blogspot.com), às obras para a adolescência (Caixa de desejos e De volta à caixa de desejos), Ana Cristina nos confirma que a palavra é matéria de cerzidura, de arremate para outras leituras e construções.
                     Ninfa Parreiras


Pinóquio
Lecticia Dansa (adaptação)
Ilustrações Salmo Dansa
São Paulo: Larousse do Brasil, 2010

Parceria já conhecida de obras anteriores, Lecticia (texto) e Salmo (ilustração) trabalham aqui com a consagrada história do boneco de Gepeto, criada em 1883. Diversas adaptações, traduções e montagens artísticas (filme, teatro, musical, canção) foram feitas ao longo desse mais de um século de Pinóquio. Aqui a adaptação do texto para o português vem apresentada em estrofes de quatro versos. São treze capítulos, mais textos informativos sobre Pinóquio e Carlo Collodi. As palavras jogam com situações da história e conservam musicalidade e graça.


Salmo opta pelas imagens cravadas em madeira, a exemplo de como foi feito o boneco. Isso dá um novo sentido à história, como uma releitura, num diálogo entre palavras e imagens. O tirar vida da madeira associa-se ao dar vida ao boneco, que deseja ser gente. Como o desejo é a mola propulsora das relações, das invenções, do amor, Salmo nos prova que inventar e recriar são atravessados pela necessidade de sonhar, pela possibilidade de dar sentido a algo morto, inerte. A madeira é transformada em objeto e arte, em deleite. E as palavras e os afetos são transformados em literatura, uma expressão de arte da palavra.


A obra está publicada em edição caprichada: capa dura, papel couche em fundo de madeira. A brincadeira, presente na confecção do boneco e o engenho do artesão são transportados para a obra de Lecticia e Salmo. Foram preservados os aspectos que caracterizam esta história clássica da literatura infantil: a criação como possibilidade de reinvenção do real; a metamorfose (madeira em boneco e boneco em gente) como possibilidade de mudanças.
               Ninfa Parreiras

O Brasil contado às crianças: Viriato Corrêa e a literatura escolar brasileira (1934-1961)
Ricardo Oriá
São Paulo: AnnaBlume, 2011

As obras dedicadas ao estudo da literatura infantil e juvenil constituem-se, cada vez mais, como um instrumento importante para os professores e estudiosos da literatura. Como entender o que é a literatura infantil? Como se deu a entrada da literatura infantil na escola, por meio das adoções e do aproveitamento pedagógico? Se considerarmos o nascimento da literatura infantil na década de 20 do século passado, com a criação de Monteiro Lobato, as produções dos anos seguintes teriam seguido as inovações de Lobato?


Em O Brasil contado às crianças: Viriato Corrêa e a literatura escolar brasileira (1934-1961), resultado dos estudos de doutorado de Ricardo Oriá, tomamos contato com quase três décadas de literatura escolar brasileira. Dividida em três partes, a obra aborda: a literatura escolar brasileira, em especial, o livro História do Brasil para crianças, do autor Viriato Correia. Em um segundo momento, o autor se detém na relação entre Viriato e a Companhia Editora Nacional, além de um olhar sobre o ilustrador Belmonte e a materialidade do livro didático. Na última parte, é discutida a recepção de História do Brasil para crianças junto ao público infantil e a adoção do mesmo como livro escolar.


Mais do que um registro histórico da utilização de livros pela escola, a obra traz uma reflexão sobre a educação escolar, o sentimento nacionalista, o patriotismo, a transmissão da cultura brasileira e a concepção de literatura para crianças. Imperdível para educadores, especialistas e aqueles interessados em literatura e educação.
                                   Ninfa Parreiras

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Algumas palavras, alguns livros 10

A árvore

Yacy Saboya
Ilustrações: Marina D’Aiuto
Rio de Janeiro: Galerinha Record, 2011



Em sua primeira obra, Yacy Saboya nos conduz a um universo de seca, de desolamento. Uma paisagem do sertão cearense, onde o solo trinca, poucos animais sobrevivem e uma rara vegetação. Que vidas haveria lá?


Que palavras usar para falar da falta? Para falar da vida? Havia lá um “quase-nada”, onde existia uma árvore. A economia de palavras e as frases enxutas embalam o texto árido e sofrido. Cada oração parece um verso, a prosa se confunde com a poesia.


Que árvore seria aquela num lugar tão inóspito? Nela, as crianças brincavam, as pessoas descansavam da ardência do calor. Os jovens Zé de Bruno e Tidinho eram os guardiões da árvore que daria um broto posteriormente. É na infância que está o gérmen da continuidade da vida.


O ciclo da vida, as transformações, a criação da literatura: são questões que o texto de Yacy nos traz. Longe de desenvolver uma pretensão didática ou moralizante, a obra nos convoca a pensar e a passear por palavras selecionadas e aguçadas de sentimentos.


As ilustrações reproduzem imagens de xilogravura sobre papel reciclado. São impactantes e fazem um elo interessante com o texto. Sugerem formas, ampliam sonhos... Cavam fundo na pedra, no solo trincado, na madeira esturricada e fazem brotar nova vida.


Tive a oportunidade de ver este texto nascer: de silêncios, de palavras cortadas, de papéis guardados. E agora me deparo com o texto-livro-árvore de Yacy coroado de poesia e de beleza. Uma grata surpresa!
Ninfa Parreiras


Classificados e nem tanto
Marina Colasanti
Ilustrações Rubem Grilo
Rio de Janeiro: Galerinha Record, 2010

Poemas breves e densos como doses únicas de humor e delicadeza. Sem títulos, os versos se apresentam pelas páginas com uma imagem de xilogravura do artista plástico Rubem Grilo. A imagem funciona como um selo ou título para cada poema. Imprime graça, ludicidade e amplia as palavras.


Como classificados poéticos, os poemas anunciam alguma coisa, registram feitos. Não são anúncios comuns, nem corriqueiros. Investidos de fantasia, passeiam pelo inusitado, pelo surpreendente: “Bicicleta procura/seu dono ciclista/fora de pista”. Ora marcados pelo uso do non sense, ora pelo uso da ironia, os versos trazem sonhos, fantasias e tudo aquilo que a imaginação permitir: “Veleiro procura/vento trabalhador/disposto a levá-lo/ além do equador.” e “Recados perdidos /pertencem/a quem presta ouvidos.”


Há palavras que aparecem destacadas: no projeto gráfico, estão em outra cor, ou em outro tamanho... Pela aproximação sonora: “segundo” e “mundo”. Ou pela repetição: “boca” e “bate-boca”. Ou pela associação semântica: “barba” e “gilete”.


O que anuncia a poesia? A própria vida? A necessidade de reinventar cada instante, cada verso, cada metáfora? Pois é: o texto de Marina nos cutuca a pensar sobre isso. Sobre a função da poesia na vida das pessoas, sobre o contato com expressões carregadas de sentidos e de vozes, que podem dar conta de sentimentos tão desconhecidos que temos.


É na economia de palavras que a autora alcança um trabalho condensado, simples e lírico. Poemas que estão dirigidos a todas as idades, a todos aqueles que precisam das invenções e das brincadeiras para viver.


As imagens captam conteúdos, ideias e lançam símbolos. Impressos sobre fundo claro, texto e ilustrações abrem espaços de leitura e encantamento para o leitor.
Ninfa Parreiras




Mururu no Amazonas
Flávia Lins e Silva
Ilustrações Maria Inês Martins e Silvia Negreiros
Rio de Janeiro: Manati, 2010
O Amazonas, uma viagem pela floresta e pelo mundo imaginário de criaturas fantásticas, de lendas, de exuberante natureza. Que transformações um lugar como este pode proporcionar a uma pessoa, além do contato com um meio ambiente diversificado? E o que poderia proporcionar ao leitor?


Nas palavras de abertura, percebemos a poesia da prosa de Flávia Lins e Silva: “Não me fio na Terra. Meu entendimento é com a água, por onde escorro os dias. A terra aqui só vem de visita. No mais, é lama submersa.” À procura do pai, a moça/personagem encontrará suas identidades, outras possibilidades de viver.


Mururu é um tipo de barco de uma pessoa só, um pequeno casco onde cabe a menina-moça Andorinha. Onde uma pessoa se acomoda e vai sozinha, a desbravar o desconhecido. De rio em rio, de sonho em sonho, de lugar em lugar, moça e barco passam por descobertas, aventuras, em pleno Amazonas... Acontece a transformação de menina em mulher, numa metamorfose envolvente: menina-amazona, mulher-pássaro.


Este livro faz também uma transformação na obra da autora Flávia Lins e Silva. Imprimi uma identidade nova, plástica, de linguagem reveladora de uma prosa sem pressa e poética. Uma escrita que investe em metáforas e metamorfoses e em figuras de linguagem e características que tão bem marcam a literatura.


Obra voltada às questões internas da personagem reveladas pela paisagem, traz uma narrativa dividida em capítulos, que poderá ser bem lida por crianças com fôlego de leitura e por jovens. Em capa dura, traz pequenas ilustrações em preto e branco no miolo e cuidado editorial com o projeto gráfico. Foi premiada pela FNLIJ em 2011, como o Melhor para o Jovem.
Ninfa Parreiras




O livro quadrado
Texto e ilustrações Caulus
Rio de Janeiro: Rocco Pequenos Leitores, 2010


Obra dirigida aos pequenos leitores: brinca com o espaço e a forma do próprio livro. Texto e ilustrações se unem para mostrar os seus muitos lados. E no lado de dentro? Olhares e pontos de vista brincam e revelam as muitas facetas de um livro. Estaria aí a singularidade de cada obra, a ser descoberta pelo leitor.


Surpresas se sucedem e nos instigam a virar a próxima página. Sobre fundo branco, palavras e desenhos abrem espaços de comunicação, além de trazerem uma quebra de expectativa na leitura, numa brincadeira de forma redonda/quadrada.

O livro comprido
Texto e ilustrações Caulus
Rio de Janeiro: Rocco Pequenos Leitores, 2010
No livro comprido, nos deparamos com a largueza das coisas. O olhar se estica para os lados. Poucas palavras e imagens que nos levam a outras páginas ou nos trazem ilusões da página anterior ou da página ao lado.


Uma sombra de um poste, o nariz do Pinocchio, um rabo de um macaco, o sonho de uma centopéia, a boca do jacaré... São situações e elementos que criam uma surpresa, uma revelação. Instigam o pequeno leitor a experimentar, a manusear este pequeno livro indicado às crianças bem pequenas.


O livro estreito
Texto e ilustrações Caulus
Rio de Janeiro: Rocco Pequenos Leitores, 2010
Mais uma vez, o ilustrador e escritor Caulus brinca com a forma e os sentidos num livro que poderá ser bem usado pelas crianças pequeninas. Em O livro estreito, tudo fica bem apertadinho, como os dois dedos e o buraco da agulha, como a pipa solta no céu, a gravata do pai...


O que podemos encontrar num livro? Nele cabe a nossa imaginação e a fantasia de cada um. De formatos variados, esses livros inauguram o olhar do leitor para as formas, os conteúdos, as questões espaciais, tão necessárias no processo anterior à alfabetização. A coleção realizada por Caulus prima pela simplicidade e pelo uso do elemento lúdico.



O livro redondo
Texto e ilustrações Caulus
Rio de Janeiro: Rocco Pequenos Leitores, 2010
Desde o formato à abordagem, esta obra dirigida aos pequenos vai brincar com as coisas arredondadas. Imagens coloridas sobre fundo branco deixam espaços de entrada para o leitor construir suas percepções espaciais e visuais.


Conteúdos do cotidiano das crianças trazem a bola, o prato, o balão, a gema do ovo, o sol... Ao final, uma surpresa: algumas páginas que podem ser vistas de qualquer posição. Um livro para a criança tocar, brincar, folhear e descobrir o mundo que se abre aos seus olhos.
Ninfa Parreiras



Todos os contos do LÁPIS SURDO
Texto e ilustrações Ramiro S. Osório
São Paulo: Paulinas, 2011

Pela primeira vez publicada integralmente, a obra Todos os contos do LÁPIS SURDO reúne 16 histórias de autoria do artista português Ramiro S. Osório. Recebeu o Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura de Portugal, embora não tenha sido publicada inteiramente por lá. Foi editado um primeiro volume dos contos, que agora recebe nova roupagem em terras brasileiras juntamente com os contos inéditos.


Nesta edição das Paulinas, as ilustrações são também de Ramiro S. Osório: ora antecedem os contos em vinhetas, ora ocupam páginas inteiras, num caleidoscópio de cores e de formas. Reproduzem sonhos, pensamentos absurdos, surpresas... E a literatura não seria isso: o que nos leva ao desconhecido de nós mesmos, aos sustos?


Fantasia e ironia são algumas das marcas da escrita irreverente e transgressora desse autor que vai abordar a criação literária, a hierarquia nas relações, a comunicação entre as pessoas, a existência de coisas inexplicáveis na nossa vida e a presença de seres fantásticos e das muitas vozes que acompanham um artista: a voz da criação, a voz do absurdo... Com uma linguagem bem próxima da coloquial (sofreu uma adaptação do português feita pelo próprio autor), o texto de Ramiro nos conduz por um mundo de ilusões, do non sense: um mundo fantástico!


"Os professores não existem nas histórias de dragões" é o trecho da história A caminho da escola que privilegia o olhar da criança, as sensações, o mundo que ela vê. Genial!
Ninfa Parreiras


Mamãe trouxe um lobo para casa; A coleção de bruxas de meu pai
Rosa Amanda Strausz
Ilustrações Laurent Cardon
São Paulo: FTD, 2011

Duas histórias em uma, dois livros em um: para comemorar os 15 anos de literatura para crianças e jovens de Rosa Amanda Strausz, a editora FTD produziu nova edição dessas duas obras que foram premiadas em 1995, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ, com o prêmio Revelação escritora. Agora os leitores poderão ter contato com essas duas histórias reunidas em um único livro.


De temas bem atuais, as obras tratam de relacionamentos, das configurações familiares: separações dos pais e novos relacionamentos. Em Mamãe trouxe um lobo para casa, tomamos contato com uma família em que a mãe leva o namorado para a casa e o menino o sente como um lobo. Por que ter medo do namorado da mãe? Que pessoa estranha era aquela? Era um lobo-mau? Em A coleção de bruxas de meu pai, conhecemos uma família em que o pai separado tem uma porção de namoradas, que a menina as vê como bruxas. A cada dia, uma pessoa diferente que acompanhava o pai, como se ele colecionasse bruxas, ou seja, mulheres diferentes, desconhecidas e assustadoras.


Em ambas as histórias, o sentimento de ameaça da criança de perder seu espaço, sua mãe, seu pai... A chegada de uma pessoa diferente, as marcas da separação dos pais, tudo isso vem junto com sentimentos ainda não nomeados, como a insegurança. A graça do texto de Rosa Amanda é a habilidade em lidar com questões que são difíceis para todos (as separações) e o modo descontraído e irreverente de tratar tais perdas.
Ninfa Parreiras




O livreiro do Alemão
Otávio Júnior
São Paulo: Panda, 2011



Otávio Júnior, um jovem autor e promotor de leitura, é a personagem principal desta obra que mostra como a presença de um livro na vida de uma pessoa pode fazer diferença. Conheço Otávio há bastante tempo e acompanho a sua coerência e a sua trajetória de morador do Complexo da Penha, de produtor cultural e mediador de leitura em favelas, grotões e comunidades. Otávio é poeta e um cuidador da região onde nasceu, o Morro do Caracol, na Penha.


Como ele mesmo diz, o artista anda na contramão: enquanto as aspirações da maioria dos jovens de uma favela são a fama do futebol, o enriquecimento e a saída do morro, com este autor o movimento foi inverso. Ele literalmente sobe o morro: leva os livros onde a cultura escrita não chega: no bem alto das favelas; insiste em contar e ler histórias para crianças alijadas do mundo das artes e se mantém um morador fiel de onde passou a sua infância, além de ter criado uma biblioteca comunitária no alto da favela.


Em linguagem bastante coloquial e lúcida, as memórias deste carioca estão agora registradas em um livro: é escutar um depoimento emocionado e comovente da história de uma criança de origem humilde que encontra um livro no lixão. A partir daí, sua vida ganha interesse pela literatura, pelas palavras, pelos materiais impressos. Além desta obra publicada, Otávio acumula histórias que ouviu, que viveu e que cria para contar às crianças: adivinhas, poemas, contos... Que venham outras publicações para encantar os leitores de todas as idades!
Ninfa Parreiras


Do Rio de Janeiro e seus personagens: Crônicas para jovens
Clarice Lispector
Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2011

Aproximar os jovens da obra de Clarice Lispector pode ser um passo para apreciarem contos e romances de uma das mais importantes autoras da literatura brasileira. Sua obra, de caráter bastante subjetivo, de acentuados elementos metalinguísticos, engloba também crônicas escritas para o Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, de 1967 a 1973. Aqui estão reunidos 39 pequenos textos que têm em comum a cidade do Rio de Janeiro, por quem Clarice era assumidamente apaixonada. Dois volumes de crônicas foram publicados anteriormente: De escrita e vida: Crônicas para jovens e De amor e amizade: Crônicas para jovens pela editora Rocco.


Como cantos de amor à cidade maravilhosa, as crônicas revelam um olhar sobre a vida, as pessoas e a cidade. Um olhar sobre a escrita. No fundo, tocam na questão da condição humana, da nossa existência frente à literatura e à vida.


Os olhos de Clarice passeiam pelas matas, pelos morros, pelo mar e por diálogos com pessoas comuns, como motoristas de táxi, feirantes e empregadas domésticas. Além disso, se deixam levar pela existência de um rato asqueroso que a faz pensar em Deus e na escrita, como em “Perdoando Deus”. Aliás, a escrita era motor da vida dessa surpreendente autora que dizia escrever por necessidade e transpirava literatura sem ser uma intelectual assumida. Cada crônica é uma declaração de amor à cidade maravilhosa e à palavra: esta é Clarice Lispector!
Ninfa Parreiras