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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Algumas palavras, alguns livros 8

Depressões
Herta Muller
Tradução Ingrid Ani Assmann
São Paulo: Globo, 2010


Com Depressões, lemos os relatos da vida de infância de uma menina do campo, com descrições das flores, do leite fresco, das fezes dos pais e dos avós... O que encantaria ao leitor essa obra que aborda a amargura, os tempos difíceis que passaram? Com uma linguagem picada, lembra o relato de uma criança pequena. Poderíamos dizer que a linguagem é infantilizada e deixa transparecer as impressões de uma menina sobre o mundo adulto, cheio de regras, de paradoxos, de rigores. Há um confronto entre mundo da criança e mundo do adulto.

Em um clima de opressão, de silêncio imposto, traduzido nas falas e nas descrições, vivemos o isolamento, o abandono, a delação, o alcoolismo, a falta de perspectivas da vida naquela aldeia... Linguagem e conteúdos se mesclam e traduzem a voz da infância. No fundo, experimentamos as sensações, o olhar da pequena sobre as coisas que se passavam ao seu redor.

A economia dos diálogos e a secura das falas nos transportam à forma como a autora mostra as personagens e suas idiossincrasias. O texto quase fragmentado e rarefeito nos traz um incômodo com a situação da opressão política, nos convoca a pensar sobre os vértices da existência humana, sobre a entrada na puberdade, a descoberta do amor e da sexualidade.

A leitura desta obra nos proporciona um mergulho nas memórias, como se em Depressões, pudéssemos passear também por uma infância nossa, no campo, em uma situação de autoritarismo, um mundo de relações verticais. De envolvimentos ambíguos, em que, por um lado, a criança é testemunha do mundo adulto, por outro lado, é privada de esclarecimentos.

A autora, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, nasceu em um povoado romeno de língua alemã, e estreou com Depressões, em 1982, somente agora traduzido no Brasil. Conta com 19 obras publicadas e traduzidas em diversos países. É leitura obrigatória para os adultos, que podemos associar com obras de Bartolomeu Campos de Queirós, de Graciliano Ramos, quando na composição do texto, da escrita condensada que dá voz e vida às personagens.

                                                                 Ninfa Parreiras

foto de Herta Muller


A árvore
Bartolomeu Campos de Queirós
Ilustrações Mário Cafieiro
São Paulo: Paulinas

Com uma obra em prosa e poesia, os livros de Bartolomeu Campos de Queirós costumam transitar entre esses dois gêneros e trazer dificuldade aos estudiosos da literatura. Isso porque o poeta mistura a prosa à poesia e vice-versa. Cria uma linguagem em que a força da palavra rouba a cena na leitura. Onde escreve prosa, há poesia; e onde escreve poesia, aparece a prosa. Uma ambiguidade que arrebata o leitor: em trânsito por gêneros e caminhos líricos de dubiedade e de plurissignificados. 


Frases curtas, de sentimentos condensados são algumas das características de seu texto. Suas obras estão indicadas às crianças, aos adolescentes, aos adultos, principalmente as de caráter filosófico e existencial, como esta nova publicação, A árvore, das edições Paulinas.

Aqui, a admiração do poeta por uma árvore abre um texto poético, cheio de revelações e reflexões sobre a vida, o tempo, a natureza, o amadurecimento, o olhar, as mudanças. Quem é o poeta? De que é feito um sonho? São perguntas sem respostas, que nos coloca o texto de Bartolomeu. Premiado autor, indicado ao Prêmio Hans Christian Andersen do International Board on Boks for Young People – IBBY, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ, em 2010, ele brinca com o silêncio, o inexplicável, os afetos... Traz valores universais que andam desgastados na nossa prática, tão importantes para as crianças e os adolescentes: a sensibilidade e o respeito à natureza; a admiração do belo, o respeito entre as pessoas.

Acompanhamos, com A árvore, o próprio ciclo da vida: de nascimento, de crescimento e de envelhecimento. Uma árvore que é companheira, que está presente na vida de um narrador, de um artista. A árvore é a metáfora da própria vida, que nos oferece sombra e companhia e nos demanda cuidados. Obra que nos faz refletir sobre a nossa existência, o nosso estar no mundo: para que nascemos e crescemos?

Ilustrações do artista Mário Cafieiro trazem detalhes da árvore e sua relação com os animais, os humanos, o ambiente, a cidade, a poesia. Belíssimo casamento de texto e ilustrações, A árvore nos mostra como a generosidade faz parte da vida e como o ato de escrever e o de criar são gestos de generosidade.

            Ninfa Parreiras, especialista em literatura infantil, psicanalista