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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Algumas palavras, alguns livros 10

A árvore

Yacy Saboya
Ilustrações: Marina D’Aiuto
Rio de Janeiro: Galerinha Record, 2011



Em sua primeira obra, Yacy Saboya nos conduz a um universo de seca, de desolamento. Uma paisagem do sertão cearense, onde o solo trinca, poucos animais sobrevivem e uma rara vegetação. Que vidas haveria lá?


Que palavras usar para falar da falta? Para falar da vida? Havia lá um “quase-nada”, onde existia uma árvore. A economia de palavras e as frases enxutas embalam o texto árido e sofrido. Cada oração parece um verso, a prosa se confunde com a poesia.


Que árvore seria aquela num lugar tão inóspito? Nela, as crianças brincavam, as pessoas descansavam da ardência do calor. Os jovens Zé de Bruno e Tidinho eram os guardiões da árvore que daria um broto posteriormente. É na infância que está o gérmen da continuidade da vida.


O ciclo da vida, as transformações, a criação da literatura: são questões que o texto de Yacy nos traz. Longe de desenvolver uma pretensão didática ou moralizante, a obra nos convoca a pensar e a passear por palavras selecionadas e aguçadas de sentimentos.


As ilustrações reproduzem imagens de xilogravura sobre papel reciclado. São impactantes e fazem um elo interessante com o texto. Sugerem formas, ampliam sonhos... Cavam fundo na pedra, no solo trincado, na madeira esturricada e fazem brotar nova vida.


Tive a oportunidade de ver este texto nascer: de silêncios, de palavras cortadas, de papéis guardados. E agora me deparo com o texto-livro-árvore de Yacy coroado de poesia e de beleza. Uma grata surpresa!
Ninfa Parreiras


Classificados e nem tanto
Marina Colasanti
Ilustrações Rubem Grilo
Rio de Janeiro: Galerinha Record, 2010

Poemas breves e densos como doses únicas de humor e delicadeza. Sem títulos, os versos se apresentam pelas páginas com uma imagem de xilogravura do artista plástico Rubem Grilo. A imagem funciona como um selo ou título para cada poema. Imprime graça, ludicidade e amplia as palavras.


Como classificados poéticos, os poemas anunciam alguma coisa, registram feitos. Não são anúncios comuns, nem corriqueiros. Investidos de fantasia, passeiam pelo inusitado, pelo surpreendente: “Bicicleta procura/seu dono ciclista/fora de pista”. Ora marcados pelo uso do non sense, ora pelo uso da ironia, os versos trazem sonhos, fantasias e tudo aquilo que a imaginação permitir: “Veleiro procura/vento trabalhador/disposto a levá-lo/ além do equador.” e “Recados perdidos /pertencem/a quem presta ouvidos.”


Há palavras que aparecem destacadas: no projeto gráfico, estão em outra cor, ou em outro tamanho... Pela aproximação sonora: “segundo” e “mundo”. Ou pela repetição: “boca” e “bate-boca”. Ou pela associação semântica: “barba” e “gilete”.


O que anuncia a poesia? A própria vida? A necessidade de reinventar cada instante, cada verso, cada metáfora? Pois é: o texto de Marina nos cutuca a pensar sobre isso. Sobre a função da poesia na vida das pessoas, sobre o contato com expressões carregadas de sentidos e de vozes, que podem dar conta de sentimentos tão desconhecidos que temos.


É na economia de palavras que a autora alcança um trabalho condensado, simples e lírico. Poemas que estão dirigidos a todas as idades, a todos aqueles que precisam das invenções e das brincadeiras para viver.


As imagens captam conteúdos, ideias e lançam símbolos. Impressos sobre fundo claro, texto e ilustrações abrem espaços de leitura e encantamento para o leitor.
Ninfa Parreiras




Mururu no Amazonas
Flávia Lins e Silva
Ilustrações Maria Inês Martins e Silvia Negreiros
Rio de Janeiro: Manati, 2010
O Amazonas, uma viagem pela floresta e pelo mundo imaginário de criaturas fantásticas, de lendas, de exuberante natureza. Que transformações um lugar como este pode proporcionar a uma pessoa, além do contato com um meio ambiente diversificado? E o que poderia proporcionar ao leitor?


Nas palavras de abertura, percebemos a poesia da prosa de Flávia Lins e Silva: “Não me fio na Terra. Meu entendimento é com a água, por onde escorro os dias. A terra aqui só vem de visita. No mais, é lama submersa.” À procura do pai, a moça/personagem encontrará suas identidades, outras possibilidades de viver.


Mururu é um tipo de barco de uma pessoa só, um pequeno casco onde cabe a menina-moça Andorinha. Onde uma pessoa se acomoda e vai sozinha, a desbravar o desconhecido. De rio em rio, de sonho em sonho, de lugar em lugar, moça e barco passam por descobertas, aventuras, em pleno Amazonas... Acontece a transformação de menina em mulher, numa metamorfose envolvente: menina-amazona, mulher-pássaro.


Este livro faz também uma transformação na obra da autora Flávia Lins e Silva. Imprimi uma identidade nova, plástica, de linguagem reveladora de uma prosa sem pressa e poética. Uma escrita que investe em metáforas e metamorfoses e em figuras de linguagem e características que tão bem marcam a literatura.


Obra voltada às questões internas da personagem reveladas pela paisagem, traz uma narrativa dividida em capítulos, que poderá ser bem lida por crianças com fôlego de leitura e por jovens. Em capa dura, traz pequenas ilustrações em preto e branco no miolo e cuidado editorial com o projeto gráfico. Foi premiada pela FNLIJ em 2011, como o Melhor para o Jovem.
Ninfa Parreiras




O livro quadrado
Texto e ilustrações Caulus
Rio de Janeiro: Rocco Pequenos Leitores, 2010


Obra dirigida aos pequenos leitores: brinca com o espaço e a forma do próprio livro. Texto e ilustrações se unem para mostrar os seus muitos lados. E no lado de dentro? Olhares e pontos de vista brincam e revelam as muitas facetas de um livro. Estaria aí a singularidade de cada obra, a ser descoberta pelo leitor.


Surpresas se sucedem e nos instigam a virar a próxima página. Sobre fundo branco, palavras e desenhos abrem espaços de comunicação, além de trazerem uma quebra de expectativa na leitura, numa brincadeira de forma redonda/quadrada.

O livro comprido
Texto e ilustrações Caulus
Rio de Janeiro: Rocco Pequenos Leitores, 2010
No livro comprido, nos deparamos com a largueza das coisas. O olhar se estica para os lados. Poucas palavras e imagens que nos levam a outras páginas ou nos trazem ilusões da página anterior ou da página ao lado.


Uma sombra de um poste, o nariz do Pinocchio, um rabo de um macaco, o sonho de uma centopéia, a boca do jacaré... São situações e elementos que criam uma surpresa, uma revelação. Instigam o pequeno leitor a experimentar, a manusear este pequeno livro indicado às crianças bem pequenas.


O livro estreito
Texto e ilustrações Caulus
Rio de Janeiro: Rocco Pequenos Leitores, 2010
Mais uma vez, o ilustrador e escritor Caulus brinca com a forma e os sentidos num livro que poderá ser bem usado pelas crianças pequeninas. Em O livro estreito, tudo fica bem apertadinho, como os dois dedos e o buraco da agulha, como a pipa solta no céu, a gravata do pai...


O que podemos encontrar num livro? Nele cabe a nossa imaginação e a fantasia de cada um. De formatos variados, esses livros inauguram o olhar do leitor para as formas, os conteúdos, as questões espaciais, tão necessárias no processo anterior à alfabetização. A coleção realizada por Caulus prima pela simplicidade e pelo uso do elemento lúdico.



O livro redondo
Texto e ilustrações Caulus
Rio de Janeiro: Rocco Pequenos Leitores, 2010
Desde o formato à abordagem, esta obra dirigida aos pequenos vai brincar com as coisas arredondadas. Imagens coloridas sobre fundo branco deixam espaços de entrada para o leitor construir suas percepções espaciais e visuais.


Conteúdos do cotidiano das crianças trazem a bola, o prato, o balão, a gema do ovo, o sol... Ao final, uma surpresa: algumas páginas que podem ser vistas de qualquer posição. Um livro para a criança tocar, brincar, folhear e descobrir o mundo que se abre aos seus olhos.
Ninfa Parreiras



Todos os contos do LÁPIS SURDO
Texto e ilustrações Ramiro S. Osório
São Paulo: Paulinas, 2011

Pela primeira vez publicada integralmente, a obra Todos os contos do LÁPIS SURDO reúne 16 histórias de autoria do artista português Ramiro S. Osório. Recebeu o Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura de Portugal, embora não tenha sido publicada inteiramente por lá. Foi editado um primeiro volume dos contos, que agora recebe nova roupagem em terras brasileiras juntamente com os contos inéditos.


Nesta edição das Paulinas, as ilustrações são também de Ramiro S. Osório: ora antecedem os contos em vinhetas, ora ocupam páginas inteiras, num caleidoscópio de cores e de formas. Reproduzem sonhos, pensamentos absurdos, surpresas... E a literatura não seria isso: o que nos leva ao desconhecido de nós mesmos, aos sustos?


Fantasia e ironia são algumas das marcas da escrita irreverente e transgressora desse autor que vai abordar a criação literária, a hierarquia nas relações, a comunicação entre as pessoas, a existência de coisas inexplicáveis na nossa vida e a presença de seres fantásticos e das muitas vozes que acompanham um artista: a voz da criação, a voz do absurdo... Com uma linguagem bem próxima da coloquial (sofreu uma adaptação do português feita pelo próprio autor), o texto de Ramiro nos conduz por um mundo de ilusões, do non sense: um mundo fantástico!


"Os professores não existem nas histórias de dragões" é o trecho da história A caminho da escola que privilegia o olhar da criança, as sensações, o mundo que ela vê. Genial!
Ninfa Parreiras


Mamãe trouxe um lobo para casa; A coleção de bruxas de meu pai
Rosa Amanda Strausz
Ilustrações Laurent Cardon
São Paulo: FTD, 2011

Duas histórias em uma, dois livros em um: para comemorar os 15 anos de literatura para crianças e jovens de Rosa Amanda Strausz, a editora FTD produziu nova edição dessas duas obras que foram premiadas em 1995, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ, com o prêmio Revelação escritora. Agora os leitores poderão ter contato com essas duas histórias reunidas em um único livro.


De temas bem atuais, as obras tratam de relacionamentos, das configurações familiares: separações dos pais e novos relacionamentos. Em Mamãe trouxe um lobo para casa, tomamos contato com uma família em que a mãe leva o namorado para a casa e o menino o sente como um lobo. Por que ter medo do namorado da mãe? Que pessoa estranha era aquela? Era um lobo-mau? Em A coleção de bruxas de meu pai, conhecemos uma família em que o pai separado tem uma porção de namoradas, que a menina as vê como bruxas. A cada dia, uma pessoa diferente que acompanhava o pai, como se ele colecionasse bruxas, ou seja, mulheres diferentes, desconhecidas e assustadoras.


Em ambas as histórias, o sentimento de ameaça da criança de perder seu espaço, sua mãe, seu pai... A chegada de uma pessoa diferente, as marcas da separação dos pais, tudo isso vem junto com sentimentos ainda não nomeados, como a insegurança. A graça do texto de Rosa Amanda é a habilidade em lidar com questões que são difíceis para todos (as separações) e o modo descontraído e irreverente de tratar tais perdas.
Ninfa Parreiras




O livreiro do Alemão
Otávio Júnior
São Paulo: Panda, 2011



Otávio Júnior, um jovem autor e promotor de leitura, é a personagem principal desta obra que mostra como a presença de um livro na vida de uma pessoa pode fazer diferença. Conheço Otávio há bastante tempo e acompanho a sua coerência e a sua trajetória de morador do Complexo da Penha, de produtor cultural e mediador de leitura em favelas, grotões e comunidades. Otávio é poeta e um cuidador da região onde nasceu, o Morro do Caracol, na Penha.


Como ele mesmo diz, o artista anda na contramão: enquanto as aspirações da maioria dos jovens de uma favela são a fama do futebol, o enriquecimento e a saída do morro, com este autor o movimento foi inverso. Ele literalmente sobe o morro: leva os livros onde a cultura escrita não chega: no bem alto das favelas; insiste em contar e ler histórias para crianças alijadas do mundo das artes e se mantém um morador fiel de onde passou a sua infância, além de ter criado uma biblioteca comunitária no alto da favela.


Em linguagem bastante coloquial e lúcida, as memórias deste carioca estão agora registradas em um livro: é escutar um depoimento emocionado e comovente da história de uma criança de origem humilde que encontra um livro no lixão. A partir daí, sua vida ganha interesse pela literatura, pelas palavras, pelos materiais impressos. Além desta obra publicada, Otávio acumula histórias que ouviu, que viveu e que cria para contar às crianças: adivinhas, poemas, contos... Que venham outras publicações para encantar os leitores de todas as idades!
Ninfa Parreiras


Do Rio de Janeiro e seus personagens: Crônicas para jovens
Clarice Lispector
Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2011

Aproximar os jovens da obra de Clarice Lispector pode ser um passo para apreciarem contos e romances de uma das mais importantes autoras da literatura brasileira. Sua obra, de caráter bastante subjetivo, de acentuados elementos metalinguísticos, engloba também crônicas escritas para o Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, de 1967 a 1973. Aqui estão reunidos 39 pequenos textos que têm em comum a cidade do Rio de Janeiro, por quem Clarice era assumidamente apaixonada. Dois volumes de crônicas foram publicados anteriormente: De escrita e vida: Crônicas para jovens e De amor e amizade: Crônicas para jovens pela editora Rocco.


Como cantos de amor à cidade maravilhosa, as crônicas revelam um olhar sobre a vida, as pessoas e a cidade. Um olhar sobre a escrita. No fundo, tocam na questão da condição humana, da nossa existência frente à literatura e à vida.


Os olhos de Clarice passeiam pelas matas, pelos morros, pelo mar e por diálogos com pessoas comuns, como motoristas de táxi, feirantes e empregadas domésticas. Além disso, se deixam levar pela existência de um rato asqueroso que a faz pensar em Deus e na escrita, como em “Perdoando Deus”. Aliás, a escrita era motor da vida dessa surpreendente autora que dizia escrever por necessidade e transpirava literatura sem ser uma intelectual assumida. Cada crônica é uma declaração de amor à cidade maravilhosa e à palavra: esta é Clarice Lispector!
Ninfa Parreiras