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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Voz da Poesia 1

POR DENTRO DA POESIA
Ninfa Parreiras
            Como tem sido a aproximação das crianças e dos jovens à poesia? Os poemas são trabalhados nas salas de aula? Como os professores lidam com os versos e como os leitores recebem a poesia? A poesia está presente nas leituras das famílias? São questões relevantes que nos levam a pensar a poesia no universo escolar e social em que vivemos.
A poesia é uma expressão gostosa de ser ouvida, de ser lida em voz alta, de ser passada de uma pessoa à outra. Trazemos aqui alguns registros de publicações e de atividades com e sobre a poesia que têm acontecido em diversas partes do nosso país.

- DIA D CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (31 de outubro 2011) comemorado na Estação das Letras, Rio de Janeiro, RJ
No dia 01 de novembro, em homenagem a Drummond, os alunos do curso de Literatura Infantil (terças, às 18h40) vão fazer leituras de poemas do poeta de Itabira, além da leitura de textos criados pelo participantes do grupo.


- SARAU DE POESIA NO RIO DE JANEIRO, RJ
O Sarau acontecia na Livraria DaConde, situada no Leblon, no Rio de Janeiro, RJ, coordenado pela professora e poetisa Helen Queiroz. Desde setembro de 2009, uma vez ao mês, sempre numa quarta-feira, entre 19h e 21h, crianças e adolescentes se encontravam para ler poemas e tocar seus instrumentos: flauta, violão, guitarra, piano... Em algumas vezes, havia a participação especial de corais de crianças de escolas de bairros diferentes. Também costumava haver a presença de autores de literatura infantil, que conversavam com o público sobre poesia. No Sarau, as crianças levavam livros de casa, consultavam livros da livraria, faziam leituras e comentários sobre o que leram. Muitas separavam poemas para ler para o grupo, o que mostrava a satisfação de cada uma em participar da noite poética. A partir de 2011, o Sarau acontecerá na Livraria da Travessa de Ipanema, RJ.

- A CALIGRAFIA DE DONA SOFIA ESPALHA POESIA PELO BRASIL
Escrita e ilustrada por André Neves, a obra A caligrafia de Dona Sofia, atualmente publicada pela editora Paulinas, está na 9ª edição. É um sucesso entre os professores e os alunos em escolas de todo o país. A personagem é uma professora aposentada que envia poemas aos amigos, além de registrar poemas em sua casa. Na obra, há mais de 50 poetas com estrofes ou versos citados, ao longo do relato. É uma antologia de poesia, com poetas contemporâneos e clássicos e uma bibliografia completa ao final.  Tive a oportunidade de conhecer em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e em outras partes, projetos de leitura que se inspiraram em Dona Sofia: colchas poéticas, varais de poesia, caixas de poemas, bibliotecas dedicadas à poesia, cadernos de poesia... Para adquirir a obra: http://www.paulinas.org.br/

- INSTITUTO CULTURAL ELIAS JOSÉ – ICEJ, GUAXUPÉ, MG
Coordenado por Sílvia Monteiro Elias, viúva do poeta Elias José, o ICEJ foi criado em 2008 e funciona na cidade de Guaxupé, MG. Recebe a visita de escolas com alunos de até 12 anos. No ICEJ, as crianças têm contato com livros do poeta, além de obras de literatura infantil. Em 2009, foram mais de 1000 crianças que participaram dos projetos Contação de Histórias e Incentivo à Leitura, além de mais de 1000 crianças beneficiadas pelo projeto Caixa Mágica de Surpresas que vai até creches e escolas do município. A memória do poeta Elias José está viva no ICEJ e no contato de cada criança com os livros. Há um espaço com biblioteca, sala de fantasias, sebo e sala de contação de histórias. Diversas empresas, entidades, e pessoas voluntárias colaboram com o funcionamento do instituto. Acesse para conhecer: http://wwwiceliasjose.blogspot.com  

- O POETA LEO CUNHA NO TWITER
A página do escritor Leo Cunha no Twitter existe desde dezembro de 2009, a Frase & Verso: www.twitter.com;frase_e_verso (com underline entre as palavras, e não hífen). Lá, o consagrado poeta mineiro publica versos, frases, aforismos e palíndromos inéditos, além de comentários sobre notícias da atualidade. Leo também republica, como divulgação, alguns poemas curtos já publicados em suas obras. Sua única regra (auto-imposta) é que ele nunca publica nenhum texto que tenha mais de 140 toques. Nem divide um texto em dois twits, por exemplo. O bacana é que Leo encontrou, na poesia, uma forma de se comunicar com o público de todo o Brasil pelo twitter.

- TIGRE ALBINO: REVISTA VIRTUAL DE POESIA
O Tigre Albino apresenta um panorama e um debate sobre poesia para crianças e jovens. A revista virtual foi lançada em 2007, com edições em março, julho e novembro de cada ano. É produzida por um grupo de voluntários, sem apoios institucionais. Os editores são profissionais de diferentes partes do país: Annete Baldi, Elizabeth D’Angelo Serra, Maria da Glória Bordini, Miguel Rettenmaier, Regina Zilberman, Sergio Capparelli e ainda há um conselho editorial. Cada editor fica responsável por uma seção da revista que traz entrevistas, relato de experiências, resenhas, lançamentos, análises de poemas. Vale a pena conferir:
http://www.tigrealbino.com.br 









- 2ª FLIST HOMENAGEIA MANOEL DE BARROS, NO RIO DE JANEIRO, RJ
A Feira Literária de Santa Teresa, organizada em maio de 2010, pelo Centro Educacional Anísio Teixeira – CEAT, homenageou o poeta Manoel de Barros. Com isso, nos meses que antecederam a FLIST, os alunos do CEAT leram e estudaram poemas do poeta do centro-oeste brasileiro. Houve um encontro sobre poesia contemporânea, com a participação de Geraldinho Carneiro e Salgado Maranhão, além do almoço poético, da chuva poética e dos poemas musicados. A FLIST acontece em Santa Teresa no primeiro semestre de cada ano e pode ser mais bem conhecida pelo blog Gato de Sofá: http://gatodesofa.blogspot.com/ ou no site do CEAT: http://www.ceat.org.br/

           


















- ACADEMIA DE GINÁSTICA POÉTICA
Por três anos, o escritor Luiz Raul Machado coordena na Estação das Letras, no Rio de Janeiro, RJ, a oficina ACADEMIA DE GINÁSTICA POÉTICA: EXERCÍCIOS PARA A MENINA DOS OLHOS, dirigida a adultos interessados em ler e escrever poesia. São lidos poemas de autores brasileiros e portugueses, que preparam as atividades de escrita de textos. A cada semestre, são formados pequenos grupos de pessoas interessadas em ler, discutir e criar poesia. Para conhecer mais: http://www.estacaodasletras.com.br
(Ninfa Parreiras, escritora, psicanalista, especialista em literatura, trabalhou na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil por duas décadas. Ministra cursos de formação de leitores e de criação de textos.) 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Algumas palavras, alguns livros, 12

As coisas da vida: 60 crônicas

António Lobo Antunes
Rio de Janeiro: Objetiva, 2011


António Lobo Antunes, um dos consagrados escritores de Portugal, conta com uma obra em prosa, de romances e de crônicas. No caso dos romances, ele transgride a narrativa e cria uma linguagem e fio narrativos absolutamente próprios. Sua estreia se deu com Memória de elefante, romance que traz a densa separação de um casal e a mudança de vida do narrador, um psiquiatra que retorna de Angola.
Com a crônica, Lobo Antunes lida com naturalidade, mistura passado e presente, recria memórias, dialoga com ficção e realidade, faz interferências subjetivas que fisgam o leitor na primeira linha. O autor conta com uma significativa produção no Brasil, pela editora Objetiva, com uma dúzia de obras publicadas que merecem ser lidas por adolescentes e adultos.
Aqui estão reunidos sessenta textos, que foram publicados no jornal Público e na revista Visão, ambos de Portugal. Divididas em sete blocos temáticos (infância, literatura/metalinguagem, relações amorosas, humor, cotidiano, guerra em Angola, memórias), as crônicas nos levam a passear em Portugal, em Angola (onde o autor serviu como médico do Exército português, nos últimos anos da guerra) e no Brasil.
Nesse conjunto de narrativas curtas, o autor nos abre sua intimidade, seus enlaces, rompimentos, paixões, desamores, memórias, questões com a criação, a família, a literatura, os países onde viveu. É um passeio por uma história vivaz, por uma linguagem singular e envolvente.


                                                                               Ninfa Parreiras


Antes das primeiras estórias
João Guimarães Rosa
Ilustrações Carlos Chambelland & H. Cavalleiro
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011



Conhecemos a produção de Guimarães Rosa que reinventa a linguagem, cria personagens brasileiros, do interior do país, e cenários áridos, do sertão das Minas Gerais. Conhecemos o autor que subverteu a linguagem, criou um romance repleto de questões existenciais e subjetivas, numa fala que pode ser a metáfora da própria literatura. Como nos diz o escritor moçambicano, Mia Couto, na apresentação: “A maior parte das vezes, os escritores escrevem exatamente porque não sabem. E quando sabem eles escrevem para deixar de saber”.
Nessa reunião de quatro contos publicados pela revista Cruzeiro e no Suplemento dos Domingos de O Jornal, de 1929 a 1930, identificamos uma escrita anterior à publicação de Magma (único livro de poemas, o primeiro publicado); de Sagarana (o primeiro em prosa) e de Grande sertão: veredas (sua obra mais consagrada). O autor contava com pouco mais de vinte anos, recém formado em Medicina e ensaiava sua tecitura de palavras, com uma linguagem ainda presa a modelos clássicos. São textos importantes para entendermos o processo de criação de Guimarães Rosa e o desenvolvimento do seu apurado escrever.
Parece que estamos diante de um autor de língua inglesa, que caminha por mistérios, revelações e horror. De importância histórica e literária, essas narrativas nos levam a conhecer um outro Rosa, um escritor em formação. O autor venceu três concursos com relatos cheios de efeitos especiais, mudanças... O prêmio era a publicação dos textos, com ilustrações de Carlos Chambelland e H. Cavalleiro. “Makiné” foi publicado no Suplemento dos Domingos de O Jornal, de 1930. Os outros três contos (“O mistério de Highmore Hall”, “Chronos kai anagke” e “Caçadores de camurça”)receberam a premiação da revista Cruzeiro. São contos para os leitores jovens, numa possibilidade de aproximação da obra de um dos mais importantes autores da literatura brasileira.


                                                                    Ninfa Parreiras






Há prendisagens com o xão: o segredo húmido da lesma & outras descoisas
Ondjaki
Rio de Janeiro: Pallas, 2011
Os grandes autores são poetas, do verso ou da prosa. Este é o caso do escritor angolano Ondjaki. Autor de romances e contos, ele também tem seus poemas que reproduzem uma linguagem híbrida (o português e outros falares de Luanda, cidade onde nasceu) e própria: uma singularidade poética. Obra que homenageia o poeta pantaneiro Manoel de Barros, com uma nota, ao final, cheia de emoção e humildade.
Alguns poemas também homenageiam outras pessoas: Clarice Lispector, Paula Tavares. Em versos livres, a sonoridade se sobrepõe aos conteúdos e o uso coloquial de palavras e expressões deixa os versos leves: fluem como água em direção ao mar.
Percebemos diálogos com o tempo, a liberdade, a palavra, a literatura, a natureza. Ondjaki nos leva a acompanhar as formigas, a seguir sinais da natureza e a reparar pessoas, lugares, mosquitos e pequenas coisas e seres diferentes, como as descoisas, expressão usada pelo poeta.
Alguns títulos de poemas que por si só já são poesia: “Quinto mim guante”; “Arve jánãoelógica”, “Geadações & orvalhamentos”. São poemas que penetram na existência das coisas, dos seres, do humano e da própria poesia. Em “Penúltima vivência”, temos: “quero só/ o silêncio da vela./ o afogar-me/ na temperatura/ da cera./ quero só/ o silêncio de volta:/ infinituar-me; em poros quer hajam/num chão de ser cera”. Imagens e musicalidade nos convidam a um mergulho na poesia de Ondjaki.


                                                                              Ninfa Parreiras