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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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sábado, 12 de novembro de 2011

Algumas palavras, alguns livros 15


Que lugar tem a criança na prosa de Guimarães Rosa?

             O grande romancista Guimarães Rosa nos deixou um importante acervo de contos, gostosos de serem lidos por adultos, por adolescentes, por crianças. E importantes para entendermos a infância. Que etapa é essa do desenvolvimento?
Em alguns contos, nos deparamos ainda com questões da passagem para a puberdade, do confronto entre vida e morte e entre infância e velhice. O que há de tão misterioso nessa nossa existência? Daí, Guimarães trata o sobrenatural como algo que faz parte da vida, da literatura, da infância, da arte. Num mesmo conto, ele inclui questões da infância, da morte, do sobrenatural, como elementos que fazem parte da vida.
E também podemos ler seus contos para discutir o que é a literatura infantil. Haveria, de fato, uma literatura destinada às crianças? Ou são os editores que preparam as obras com feições para os pequenos? O que seria mais relevante numa obra para crianças: o ponto de vista do narrador que respeite o olhar da infância? Ou o tratamento da língua, cheia de jogos de linguagem, de palavras? Ou a presença da personagem criança?
Contos como Fita verde no cabelo (Nova Fronteira, ilustrações Roger Mello, 1992 e Ave, palavra, Nova Fronteira) e “As margens da alegria”, “Os cimos” e “A menina de lá” (Primeiras estórias, Nova Fronteira, 2001) nos dão pistas para essa reflexão sobre a infância, sobre as passagens de diferentes etapas do desenvolvimento humano, sobre as produções culturais voltadas aos pequenos leitores. São obras com personagens crianças que vivenciam descobertas, perdas, mudanças, as dificuldades de entendimento de um mundo cheio de regras e valores adultos.
 Em primeiro lugar, notamos como a criança em Guimarães tem voz e vez: é sujeito de suas ações. Em Fita verde no cabelo, temos uma menina que se depara com a velhice, com a partida da avó, com o mistério e inexplicável. A menina está em crescimento, vê a morte, atravessa o medo e o desconhecido.
Já em “A menina de lá”, a personagem franzina, miúda, econômica na comunicação, pressente acontecimentos, faz milagres. Na verdade, a menina prevê a própria morte. Isso é confirmado após a sua partida, que havia deixado como um desejo de ser enterrada em caixãozinho rosa com verdes funebrilhos. A perda da menina é reparada com o próprio milagre: o de Santa Nihinhinha.
Em “As margens da alegria”, passeamos e nos deslocamos com um menino que vai para a casa do tio na capital que está sendo construída, supostamente Brasília. A primeira vez que viajava de avião, estava sem a mãe, sentia medo, estranha o mundo grande. O menino se encanta por um peru, que acaba na mesa de refeição. Ele vive a alegria, a tristeza, a perda, o não entendimento das coisas ao seu redor.
Já em “Os cimos”, esse mesmo menino viaja para a capital, com a mãe adoentada e perde seu macaquinho bonequinho. Descobre, na natureza, o tucano, ave encantadora! Como num processo de amadurecimento e crescimento, o menino vive seus silêncios, seus assombros, seus fantasmas... Aprende a substituir o brinquedo perdido pelo pássaro recém admirado, o tucano.
Nas duas situações, o menino se depara com um mundo diferente, crescido, amplo, de coisas, pessoas e natureza exuberante. Com suas expressões coloquiais e neologismos, Guimarães usa uma linguagem bastante musical, com uma pontuação e ortografia peculiares às falas de pessoas do campo. Ele não ridiculariza o homem do campo, nem deprecia seus sentimentos, ele mostra como ali há uma sabedoria: de crenças populares, de sensibilidade da infância, da existência do sobrenatural em convivência com o mundo lógico e racional das relações. A prosa de Guimarães é para todos os leitores: crianças e adultos, cada um vai ler do tamanho que alcança suas metáforas, suas metamorfoses, suas mudanças, inclusive a da própria palavra, como matéria de salvação da nossa alma.
 Ninfa Parreiras

Algumas palavras, alguns livros, 14


CRÔNICAS DO RIO NO CEAT

Como atividade da 19ª Campanha Paixão de Ler da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, o Centro Educacional Anísio Teixeira - CEAT organizou, na Biblioteca, encontros para leitura e conversa sobre crônicas, com alunos e professores: Crônicas do Rio. Durante uma semana (de 04 a 11 de novembro 2011), foram lidas crônicas de todos os tempos, com um bate-papo ao final.
A crônica seria uma expressão literária? Alguns a consideram parente do texto jornalístico, outros a tratam como um gênero literário. Seria datada? A palavra crônica deriva da língua grega χρόνος ou chrónos (tempo). Qual a associação da crônica com o tempo? Como relato que segue uma sequência temporal, a crônica está apegada ao tempo contemporâneo, ao momento de quando foi escrita.
Como um suspiro comentado, a crônica fala de acontecimentos sociais, políticos, esportivos, culturais, atuais e traz comentários ou indagações do autor. Pode trazer também um relato de uma situação pessoal vista, sentida ou vivida por quem a escreve. Ou pode, simplesmente, discutir o que é escrever, com o uso da metalinguagem de forma bem coloquial. O humor, a ironia e a irreverência também são características da crônica, que tenta fisgar o leitor do jornal, da revista, do blog, do site. Depois, esses textos podem ser reunidos em um livro. O cronista costuma estar ligado aos acontecimentos, aos noticiários, às pequenas percepções do dia-a-dia.
Muitas crônicas ficaram atemporais pelo caráter literário com que foram feitas, as de Rubem Braga, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos e Rachel de Queiroz. A lista é longa e nela podem entrar ainda autores da contemporaneidade, como Luis Fernando Veríssimo, Zuenir Ventura e Arnaldo Jabor.
Uma questão muito discutida, hoje, a de dar voz ao negro na literatura, seja como personagem valorizado, seja também como autor, pode ser observada em crônicas de autores como Fernando Sabino e Vinicius de Moraes. O negro aparece como sujeito, sem tratamento piegas, nem depreciativo.
Em “Batizado na Penha”, de Vinicius, da obra As cem melhores crônicas brasileiras, organização e introdução de Joaquim Ferreira dos Santos, editora Objetiva, 2007, ele nos relata a ida dele e de familiares a um batizado na Igreja da Penha, no Rio de Janeiro. Uma pretinha de uns cinco anos, Leonor, cria da casa dos avós paternos, os acompanhava. A menina, ao brincar de pular os tantos degraus da igreja (mais de 300!), se escapole e rola abaixo. O poeta descreve, com carinho e minúcias, como a menina foi salva e como aquilo foi um milagre de salvação da vida dela, o último milagre da Penha que ele teve notícia!
Notamos que a menina era como um brinquedo para eles e era tratada com respeito, com cuidado, com mimo. A forma como ela é comentada nos mostra um tratamento sem discriminação (ela acompanhava a família que a criava). O olhar de Vinicius é de quem fala de alguém especial, familiar, próximo: “era danada de bonitinha”. Ele assume que eles pintavam com ela, como fazemos com os irmãos menores, nas relações de crianças, de adolescentes.
Em outra crônica, de Fernando Sabino, “A última crônica”, de Elenco de cronistas modernos, 19 ed, José Olympio, o autor nos narra algo que viu, fora de si, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica, em suas palavras. Ele observa, num botequim, na Gávea, no Rio de Janeiro, um casal de pretos com uma negrinha de três anos, laço na cabeça, arrumadinha.
Um ritual discreto daquela família prepara os parabéns, com uma garrafa de coca-cola e uma fatia de bolo e mais três velinhas brancas minúsculas levadas pela mãe. Sabino nos conta isso com uma minúcia e, ao mesmo tempo, com encantamento. E fala da alegria do sorriso daquele pai, satisfeito. Toma esse sentimento como o que gostaria de transmitir nessa sua última crônica, supostamente de um ano que terminara. Cada detalhe, cada sentimento da família são motivos para a crônica acontecer como queria o autor: com a alegria da pureza.
Diante desses dois exemplos de textos de décadas atrás, percebemos como o olhar desses autores sobre o negro traz delicadeza e cuidado. Um misto de admiração, de encantamento, que transborda o papel e contagia o leitor. Isso é crônica!
                                                             Ninfa Parreiras

Algumas palavras, alguns livros, 13

Que sentido os sentidos têm?
Poemas: Vânia Alsalek
Ilustrações: Anielizabeth
Rio de Janeiro: Gryphus, 2011
Primeira obra para crianças da educadora Vânia Alsalek, Que sentido os sentidos têm?,  traz um convite ao leitor para degustar os versos cheios de lirismo e espontaneidade. Coisas simples, da natureza, do cotidiano, da alimentação podem ser motivos para prestarmos atenção aos cheiros, aos sentidos e à vida: pão com manteiga e geléia; chuva; caminhão do lixeiro; o pipoqueiro... E o que mais? Abra o livro e descubra você também!
“Que cheiro esse cheiro tem”; Um brilho diferente”; “Todo mundo tem ouvidos”; “Tem gosto pra tudo” e “Nem tudo se vê com os olhos” são os poemas que fazem parte desse livro editado pela Gryphus, que mistura os sentidos às descobertas das crianças. Brincadeiras de palavras e non sense são utilizadas, como recursos da poesia que encanta leitores de todas as idades.
Ilustrações de Anielizabeth trazem movimentos, deslocamentos e compõem um trabalho bem realizado. As cores bem fortes fazem uma sintonia com as imagens evocadas pelos poemas.
Também autora da obra para educadores A criança até 4 anos – um guia descomplicado, da editora Summus, Vânia conviveu por muitos anos com crianças em idade de creche no trabalho que desempenhava. Sua linguagem na produção para crianças flui com espontaneidade e despojamento, rica em figuras de linguagem e ludicidade. Na sua obra dirigida aos adultos, estamos diante de um importante estudo sobre os primeiros anos da vida de uma criança, na verdade, os anos que as funções motora, cognitiva, psíquica e emocional são constituídas. Ou seja, os anos mais importantes da vida de uma pessoa. O livro está bem dirigido aos pais, educadores e cuidadores dos bebês e pequenos. Que venham outros livros para crianças e para adultos, Vânia!
                                                                   Ninfa Parreiras



O acervo iconográfico da Biblioteca Nacional
Estudos de Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha
Renata Santos, Marcus Venicio Ribeiro e Maria de Lourdes Viana Lyra (organizadores)
Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2010

       Obra de caráter histórico, cultural, bibliográfico e artístico, importante para pesquisas e estudos. Aqui estão reunidos os pioneiros estudos iconográficos realizados ao longo de mais de 50 anos por Lygia Cunha, bibliotecária e antiga chefe da Seção de Iconografia da Biblioteca Nacional, a mais antiga e importante Biblioteca Nacional do Brasil, localizada no Rio de Janeiro e uma das dez maiores bibliotecas do mundo e a maior da América Latina.
Entre os artistas contemplados nos estudos, encontramos: Albrecht Dürer, Debret, Thomas Ender, Carlos Julião, James Forbes, Joseph Martinet, entre muitos outros, de diferentes procedências. São 256 páginas de pesquisas, comentários, bibliografias, reproduções iconográficas. É um verdadeiro contato com a nossa história, a nossa idiossincrasia: as vestimentas, as funções sociais das pessoas, a natureza tão retratada nas paisagens: bichos, plantas e vistas. E, além de tudo, um importante registro do processo de documentação do olhar sobre o país: desde a fotografia à pintura, ao desenho, às gravuras.
Páginas em papel couché e reproduções das artes em cores são alternadas no miolo da bela edição desse estudo. Como um livro de arte, ele se abre aos nossos olhos e ao deleite do manuseio, da leitura e da pesquisa.
Se viajantes, cientistas e estudiosos nos deixaram seu olhar sobre o nosso povo, a nossa pátria, chegou a hora de conhecermos essa amostra significativa de arte histórica de séculos passados. Parabéns à estudiosa bibliotecária Lygia da Fonseca pelo cuidado e dedicação! E parabéns aos organizadores da obra que fazem das memórias iconográficas a nossa história!

Ninfa Parreiras