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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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sábado, 8 de dezembro de 2012

Por Papagaios, Cordisburgo, Itabira

Por Papagaios, Cordisburgo, Itabira
Ou: por parte de Bartolomeu, Rosa e Drummond

                                                                         Ninfa Parreiras
Minas são muitas e as Gerais são tantas! Cada pedaço desse plural traduz uma geografia, uma paisagem, um tempero, um sotaque, uma língua. Cada vez que retorno a Minas, descubro como conheço pouco da gente, dos morros, das pedras... Ainda há muito a escutar! De feio, de triste, de belo, de surpreendente.
Recentemente, foi criada a Associação Cultural Bartolomeu Campos de Queirós, em Papagaios, cidade adotada pelo saudoso poeta que nos deixou em 2012. Móveis, objetos de decoração, obras de arte, livros, estatuetas, diplomas, coleções de miniaturas, documentos foram doados à Associação CBCQ. Refizeram seu escritório, algumas salas do apartamento, com a alma viva do artista com os mais de 60 livros.
Rosinha Filgueiras, secretária de educação e cultura, Maria das Graças, irmã do poeta, e sua sobrinha Juliana se encarregaram de limpar cada uma das peças. De rearrumar os espaços. De recriar o sossego de cada história. Conseguiram! Dá pra gente se sentir bem perto do Bartolomeu, a mirar suas pausas, seus silêncios.
A Associação CBCQ, sem fins lucrativos, não conta com apoios financeiros, nem parcerias, nem sede própria. Conta com pessoas que se dispuseram a doar parte do seu tempo para preservar a memória desse autor. Gente da pequena cidade mineira mais alguns amigos do Bartolomeu dos diferentes Brasis se juntaram para divulgar a obra e criar um espaço digno de abrigar a memória e a produção artística e intelectual desse pensador. 
Num mundo cercado de competições, de coisas pouco duráveis, de consumo exacerbado, de relações descartáveis, de vínculos esfumaçados de medo, pessoas se juntam para preservar o que o poeta criou como espaço de aconchego para as dores e perdas, para a escrita, para a vida.
            De partida para buscar vínculos com outras instituições, seguimos com Rosinha, Glória, Lucilia, membros dos conselhos da Associação CBCQ, e com Eduardo Lobato, autor do busto de madeira de Bartolomeu. Rumamos a Cordisburgo e Itabira, respectivamente, terra de Guimarães Rosa e de Drummond. Que casa haveria em cada cidade para homenagear ilustres autores? Como seria a relação das pessoas da cidade com esses escritores?
             De Cordisburgo, não nos esqueceremos do Sr. Brasinha, leitor do Rosa, lojista e colecionador de cacarecos que a vida urbana e emergente descarta: ferro de passar roupas a brasa; chaleiras esmaltadas, latas enferrujadas de biscoito e de manteiga, panelas de ferro fundido, balança com pesinhos, bacia de alumínio de banho, maletas de couro... Coisas de durar, coisas pesadas, coisas passadas. Passadas? Sr. Brasinha incrementa cada objeto desse e traz vida para um presente tão assolado de tecnologia. Recheou os ferros de cacos de vidro e ali instalou uma luz vermelha que reproduz calor, fogo, trabalho, luz. Genial!
            No Sarapalha, restaurante pitoresco, apreciamos a comida do fogão de lenha, a cordialidade das pessoas que nos atenderam, o prosear fundo dentro de nossos olhos. Sem falar na Casa Museu Guimarães Rosa, preparada para receber grupos de visitantes, com gente informada sobre a obra do autor de Grande Sertão: Veredas. Reparamos que as pessoas estão ligadas ao autor, a cidade respira seu filho escritor. Havia uma estudiosa de Belo Horizonte, Angelina, que nos orientou, nos ouviu, nos recebeu. Dedicou seu tempo aos nossos olhares cheios de dúvidas.
            De partida para Itabira, a paisagem mudou. Saímos da roça, da região das grutas, com aspecto sertanejo e partimos para o Vale do Aço, coroado de montanhas e de matas verdes. Em Itabira, o que mais fizemos foi perguntar pela Casa do Drummond. Alheias ao poeta, as pessoas hesitavam em responder e diziam para seguirmos. Para onde? Descobrimos quatro pontos de visita em homenagem a ele, com direito a estátuas e poemas reproduzidos em chapas de ferro. Memorial CDA, bem perto do Pico do Amor; Fazenda CDA, onde o poeta nasceu; Fundação CDA, um amplo prédio de ares modernistas; e a Casa CDA, um sobrado no centro histórico. Um estava em obras, outros fechados no sábado de tarde. E um apresentava um ar tão frio e distante da simpatia que Drummond conquista ainda hoje nos leitores. Até o motorista que nos conduzia ficou fatigado com o não conhecimento de Drummond pelos transeuntes. Talvez a existência de tantos pontos na cidade (que não me pareceu abraçar o poeta) confunda visitantes.
            A área urbana, esparramada entre morros e ladeiras, não apresenta uma unidade, nem um centrinho. Avenidas largas, cheias de lojas repetidas que há em cidades médias e grandes. Uma descaracterização do singular. Vimos montanhas estragadas pela exploração de minério de ferro, sentimos falta de verde, de pedras no meio do caminho. Sentimos falta do Drummond. Aprendemos o que não devemos fazer em Papagaios que agora abriga Bartolomeu.
            À procura do caminho de volta para a capital mineira, ironicamente, formos abordados por jovens em um sinal de trânsito: entregaram-nos, afoitos, panfletos de uma igreja evangélica. “Para onde você está indo?” era a frase de efeito do folheto. Estamos indo pra onde há poesia, onde há Drummond, onde há Bartolomeu, onde há Guimarães Rosa... e muitos outros e outras! Coisas do acaso...
            A gente carece de colo, de amparo, de aconchego. A literatura nos traz isso ao lermos a prosa, a poesia. A história nos recebe, o poema nos embala com música. As palavras nos dão o contorno necessário para sobre-vivermos. Sem gente ao nosso redor, sem memória, sem arte, somos pouco. Ou quase nada. A vida é feita de afetos, de sonhos. Que nos fazem procurar por uma estação de trem. Mesmo sabendo que o trem não vai passar. Procurar por uma prosa. Por um olhar nos olhos. Por um tocar o outro pela respiração. Procurar por uma navegação, nem que seja inventada. Procurar por parte de pai. Por parte de Minas. Por parte do outro. Que nem Bartolomeu nos ensinou.

De Minas Gerais, novembro/dezembro de 2012
para: Eduardo Lobato, Gloria Valladares, Juliana Queiróz Seabra, Lucilia Soares, Maria das Graças Queiróz Seabra, Rosinha Filgueiras, Rafael Borges

fotos: arquivo pessoal, Minas Gerais, primavera, 2012

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Além dos Livros 1

Por parte de pai

Bartolomeu Campos de Queirós está bem perto de nós, no Rio de Janeiro, no Teatro Maria Clara Machado (Planetário da Gávea), na interpretação da atriz Nathália Marçal. A direção é de André Paes Leme e a produção da Rubim Projetos e Produções. A peça de montagem mineira Por parte de pai, baseada na obra do autor, nos aproxima de suas palavras, de seus tempos, de seus pensares. Da escrita, da criação.
Imperdível, o trabalho de Nathália nos reproduz o texto de Bartolomeu. É ele que está ali, com o Seu Queiroz, a avó de saias rodadas, a rua da Paciência, a casa cheia de paredes escritas pelo avô janeleiro. Iluminação, cenário, movimentos de cena se deslocam por um tempo que passou, mas continua presente na memória de cada um.
O que há de bacana na interpretação de Nathália é a irreverência na mudança de papeis, de personagens. Com muitas vozes, ela nos fala direto ao coração. Ao modo do escritor, ela se faz em muitos. Beleza de espetáculo!

Até 07 de outubro 2012, no Rio de Janeiro, sextas e sábados, 21h e domingos, 20h, no Planetário da Gávea, Teatro Maria Clara Machado

Ninfa Parreiras


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Algumas palavras, alguns livros 19


Cantarim de Cantará
Sylvia Orthof
Ilustrações Mariana Massarani
Rio de Janeiro: Rovelle, 2010
            Em linguagem híbrida, como grande parte da obra de Sylvia Orthof, Cantarim de Cantará evoca o drama e a poesia, passeia pela prosa. A passarinhada se junta para aclamar a liberdade. A Pomba-Rolinha, ao perder seu lar, descobre sua independência e a autonomia de voar livre.
            Originalmente, é um texto teatral que marcou época no teatro infantil brasileiro. A peça usa como símbolo e personagem central um passarinho, e conta sobre uma época em que as grades interrompiam o voo da criação, mais precisamente a ditadura, os tempos do autoritarismo. Pela linguagem, a autora cria neologismos, reinventa a vida.
Inspirada na antológica obra de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, quer pelos aspectos da linguagem, quer pelos deslocamentos das aves, quer pelas dificuldades por que passa Pomba-Rolinha, é um belíssimo texto poético. Publicado pela primeira vez em 1984, o texto de Sylvia acaba de receber nova roupagem da editora Rovelle, com ilustrações de Mariana Massarani. Humor e graça são traços das imagens que se somam à aclamação à vida das palavras de Sylvia.nos traços de Massarani, alçamos voos e passeamos por caminhos de mudanças.
Aves brasileiras estão presentes, como o urubu, o bem-te-vi, o sabiá. E ainda o milharal, o sol, a lua, as estrelas e uma boa ciranda nordestina e mineira. Isso é o texto orthófico: cheio de misturas, de mesclas culturais, linguísticas, com a abordagem do outro (diferente de nós) que deve ser respeitado como tal. Parabéns à Rovelle ao trazer para os leitores novas edições de obras da saudosa Sylvia Orthof que completaria 80 anos em 2012!
Ninfa Parreiras 



terça-feira, 21 de agosto de 2012

Algumas palavras, alguns livros 18


Contracorrente: conversas sobre leitura e política
Ana Maria Machado
São Paulo: Ática, 1999

            Ana Maria Machado é uma das consagradas autoras da literatura brasileira, com livros para crianças, jovens e adultos, em prosa, poesia, ensaios, teatro, não ficção, além de inúmeras traduções impecáveis. Sua obra ultrapassa os cem títulos publicados e abrange um universo amplo de assuntos e de gêneros. Os números fazem parte da carreira desta brilhante escritora, premiada diversas vezes no Brasil e no exterior e Membro da Academia Brasileira de Letras – ABL. Para saber mais sobre sua obra, vale a pena consultar o site: http://www.anamariamachado.com
Com ampla experiência na área de literatura infantil e juvenil, Ana Maria foi livreira, editora, jornalista, crítica literária, professora. Conhece a cadeia do livro e da leitura e atualmente é a presidente da ABL. Tudo isso tem repercutido no seu fazer literário, na sua forma de pensar a cultura, em especial, a leitura e a literatura.
Dentre seus tantos livros de ensaios, em torno de dez, destacamos Contracorrente: conversas sobre leitura e política, da década de noventa. São onze textos que refletem sobre o direito de ler, a ideologia da leitura, as novas tecnologias e a leitura, o acesso aos livros no Brasil hoje. Ou seja, são temas atuais e necessários para serem debatidos entre educadores e adultos que lidam com as crianças, os jovens e a cultura.
Em “Ideologia e livro infantil”, a autora nos mostra como a ideologia faz parte das expressões literárias e que não há literatura neutra. Ler esses ensaios nos nutre de informação e de questionamentos sobre a função da literatura e da leitura e sobre a importância que exercem na vida contemporânea de crianças, adolescentes e adultos.

Ninfa Parreiras

Leituras de escritor
Ana Maria Machado (org)
Ilustrações Thais Beltrame
São Paulo: Comboio de corda, 2009


            Quais são as leituras de uma consagrada escritora?             Seria ela uma leitora atenta? Quando falamos em Ana Maria Machado, sabemos que é leitora voraz, como ela mesma diz, conhece a literatura clássica, a literatura brasileira, a literatura popular. Ou seja, entende muito bem de livros, de criação literária e transita nesse meio com segurança. Além de escritora, Ana Maria é tradutora de contos, novelas e romances. A mensagem que criou em 2003, para o Dia Internacional do Livro Infantil – DILI do International Board on Books for Young People - IBBY, “Livros: o mundo numa rede encantada” (http://www.fnlij.org.br/imagens/Atividades%20Internacionais/Mensagem%20DILI%20Ana%20Maria%20Machado.pdf), nos mostra seus caminhos como leitora curiosa desde a sua infância. Suas palavras instigam em que as lê um desejo de também conhecer e ler.
            Na obra Como e por que ler os clássicos universais desde cedo, da editora Objetiva, a autora nos presenteia com um passeio variado e rico pela literatura de todo o mundo. Diferentes obras, de diferentes épocas são comentadas, como se fosse um bate papo com a autora.
Já em Leituras de escritor, da Coleção Leituras de escritor, Ana Maria selecionou e comentou quatorze contos de autores estrangeiros e nacionais. De Edgar Allan Poe a Francis Scott Fitzgerald; de Machado de Assis a Clarice Lispector; de Julio Cortázar a Gabriel García Márquez são narrativas surpreendentes. Após cada conto, há uma apresentação para cada autor e preciosos comentários sobre os textos. Imperdível seleta de contos!
Ninfa Parreiras


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Algumas palavras, alguns livros 17

O fim da fila
Ilustrações: Marcelo Pimentel
Rio de Janeiro: Rovelle, 2011
            Ilustrador conhecido por seus trabalhos que privilegiam a cultura popular nacional, Marcelo lançou este belíssimo livro de imagem, em 2011. Ao utilizar as cores preto e vermelho sobre papel pardo, o artista imprime um ambiente imaginário, com uma mescla de elementos naturais (bichos, plantas) e outros inventados (pinturas corporais). Há traços que lembram as artes indígenas de pintura sobre o corpo.

A obra foi selecionada para a exposição e catálogo White Ravens 2012 (um conjunto de livros de diferentes países que são recomendados para leitura e tradução), da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique (Alemanha), maior biblioteca de livros para crianças do mundo (http://www.ijb.de/files/whiteravens/wr12/brazil.htm). Além de valorizar aspectos da nossa brasilidade, como os elementos indígenas e os bichos brasileiros, essa narrativa sem texto nos coloca em contato com a nossa própria existência. O começar de novo, o movimento de reeditar a vida.
Em tempos de se discutir a sustentabilidade, é uma obra que abre o diálogo para pensarmos sobre a existência dos animais nas nossas florestas, a integração do meio ambiente e dos bichos.
            O urucum e o jenipapo, utilizados pelos indígenas para pintarem o corpo são aqui lembrados na narrativa visual. Para a criança pequena, o reconhecimento do corpo é a própria construção da identidade. Ao mesmo tempo, o contato com diferentes bichos e a transformação que sofrem no corpo, acontece como num jogo de faz de conta.
            Uma fila que leva a uma brincadeira e ao imprevisível dessa história cheia de surpresas. Um bicho que cutuca outro bicho. O trabalho de horizontalidade traz um movimento e um ritmo muito interessantes. Um livro que poderá ser lido/apresentado aos bebês, às crianças e a todos aqueles que gostam de arte. Ao final, queremos seguir a fila e ver o que vai acontecer. Isso porque a vida caminha num movimento contínuo, circular, giratório...
Ninfa Parreiras

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Homenagem a Joel Rufino dos Santos


Rio de Janeiro, 06 de maio de 2012.

Joel, querido amigo,


Fico olhando aquele quadro, aquele painel feito pelos alunos do CEAT com seu rosto, sua imagem (aquele coordenado pela professora Gisele Felix, meio estilo Vik Muniz), ele me faz pensar nas suas cartas. No fazer a mão. Cartas ao filho, cartas ao Brasil, cartas aos brasileiros. O que você escreveu é uma ética para a infância. Uma ética para a relação pai-filho. Ali, tem ainda um tratado do que é literatura para crianças, do que é a transmissão das histórias. 
A tentativa de um pai escutar o filho. De longe. Detrás das grades.
Você fez o que o Freud nos ensinou com a sublimação, transformou dor em arte, transformou falta em escrita.
Joel Rufino dos Santos: você é um exemplo de pai. Um pai não somente para Nelson e Juliana, e os seus netos. Um pai para nós brasileiros. Somos todos um pouquinho seus filhos. Pelas páginas de História que escreveu. Pelas paisagens brasileiras que passou a limpo. Pelos movimentos políticos, étnicos, sociais e culturais que liderou e participou. Pelo exemplo que reedita a cada texto escrito, a cada ensaio, a cada livro, a cada fala.
Nós, que andamos tão órfãos de pais, precisamos de um cuidador. Das suas palavras lapidadas em contos. Do seu compromisso com a palavra, a história, o país. Num tempo em que as leis se desmoronam, há a falência da função paterna, Quando eu voltei, tive uma surpresa é um exemplo de holding, de contorno, de colo, nas palavras do psicanalista inglês Winnicott. Pai amoroso, pai que corresponde com o filho (responde com o coração).
Você abria as celas da prisão e deixava o seu coração falar em cores, em desenhos, em palavras... Sua voz ecoava para um país calado pela ditadura. Agradecemos à Teresa, sua esposa e companheira, o cuidado em ter guardado tão preciosas cartas! Joel, pai, Joel autor, o CEAT lhe presta essa homenagem como reconhecimento ao seu trabalho, à sua presença cidadã, às suas palavras de pai, de escritor, de mestre, de professor, de contador de histórias.

Ninfa Parreiras 
Psicanalista, especialista em Literatura Infantil e Juvenil

foto: arquivo pessoal, Casa Vermelha, Santa Teresa, Rio, outono 2012





terça-feira, 6 de março de 2012

Algumas palavras, alguns livros 16

Na rota dos tubarões: o tráfico negreiro e outras viagens
Joel Rufino dos Santos
Ilustrações: Rafael Fonseca
Rio de Janeiro: Pallas, 2011
            O que o colonialismo trouxe para as sociedades africanas, as colônias ameríndias e os países europeus? Que setores da nossa vida estão marcados pelo período do tráfico negreiro? Com a habilidade de escritor e historiador, Joel recria a viagem de um navio negreiro para refletir sobre questões étnicas, sociais, econômicas, históricas e culturais. Ler Na rota dos tubarões: o tráfico negreiro e outras viagens é uma oportunidade para entendermos a identidade do próprio brasileiro.
       Com lentes de aumentar, acompanhamos a narrativa de Joel, da pré-história à colonização, passamos pela África, pela Europa, pelas Américas. Sentimo-nos embarcados em uma viagem pelo mundo. Alcançamos nosso país e nos perguntamos, com o autor: “De que vale a cor?” Por que a cor discrimina, afasta? Não podemos falar em discriminação de raça, mas de etnia. A raça é humana. Inseridos em uma história que tem sido recentemente contada a partir de diferentes pontos de vista de estudiosos, escritores e professores, poderemos construir conceitos mais esclarecedores sobre as populações negras, brancas e mestiças.
       Autor homenageado na 4ª Festa Literária de Santa Teresa – FLIST do Centro Educacional Anísio Teixeira – CEAT, Joel Rufino dos Santos conta com uma significativa produção literária, de livros de história, e de ensaios. Sua obra, merecedora de prêmios, traduções e de adoções em escolas, é lida por crianças, adolescentes e adultos.
                                                        Ninfa Parreiras




Quando eu voltei, tive uma surpresa: (cartas a Nelson)
Joel Rufino dos Santos
Rio de Janeiro: Rocco, 2000
        Um livro de cartas, do amor de um pai para o filho, do desejo de liberdade e de justiça social. Joel Rufino dos Santos, historiador e escritor, foi detido em 1972 e em 1973 começou a cumprir pena no Presídio Tiradentes e, em seguida, no Presídio do Hipódromo, em São Paulo. No Rio de Janeiro, seu filho de oito anos, Nelson, recebe suas cartas carimbadas e censuradas pelo Presídio.
Da prisão, de 1972 a 1974, Joel escreveu cartas ao filho, quando falava da sua rotina de preso, dos companheiros de cela e dos sonhos de jovem pai afastado do filho. Essas cartas (guardadas pela esposa de Joel) foram reunidas mais tarde – Quando eu voltei, tive uma surpresa: (cartas a Nelson), Prêmio Orígenes Lessa, como o Melhor Livro para Jovens, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ, em 2000. São cartas ao filho como metáforas dirigidas ao nosso país (ainda pequeno que ia crescer). Joel estava preso como um dos envolvidos no grupo da História Nova, que teve a coragem de contar a história do Brasil que ainda não havia sido feita.
É considerada uma obra de caráter não somente histórico, como literário e memorialístico. Enquanto esteve preso, dedicou-se a estudos de cultura popular, especialmente às matrizes ameríndia e afro-brasileira, o que consolidaria as primeiras tendências da sua literatura.
Com lirismo e cuidados, Joel conta ao filho sobre os motivos que o levaram a ficar preso, era um condenado político. Relata situações da história do país, como a vinda dos navios negreiros, histórias de escravidão e outras histórias mais que nos fazem brasileiros... Por sorte, as cartas puderam ser organizadas em forma de um livro para as crianças, os jovens, os adultos. É uma obra que testemunha a história de um país na luta contra dificuldades frente à liberdade de expressão e à participação social igualitária para brancos, negros, mestiços e outros grupos étnicos.
Se, por um lado, a obra tem um caráter histórico e social relevante, por outro lado, foi feita com lirismo, mostra a marca das memórias no fazer literatura.
                                               Ninfa Parreiras



Logunedé: Santo menino que velho respeita
Nei Lopes
Rio de Janeiro: Pallas, 2007
 
     Logunedé, orixá pouco conhecido no Brasil, é também chamado de Logum-Edé. Andrógino,divindade iorubá, nasceu no povo Ijexá e é detentor de um segredo. Do mito à religião, dos rituais à devoção, a obra de Nei Lopes é esclarecedora, informativa e nos faz entender que Logunedé é o orixá filho por excelência, traz em si as naturezas da mãe, Oxum Panda, e do pai, Inlê.
      Artista múltiplo, Nei Lopes é compositor, sambista, intérprete, pesquisador, escritor. Desde os anos 90 tem se esforçado pelo rompimento das fronteiras discriminatórias que separam o samba da chamada MPB e tem trabalhado em discografia, televisão, teatro e nos livros.
     Mais um livro de Nei é uma contribuição bem vinda à cultura brasileira, de caráter antropológico, fruto de pesquisas e de estudos. Logunedé vem mostrar a aproximação entre lenda, religião, culto e mitologia. Natureza, sabedoria e crença são contextualizadas, o que poderá facilitar o entendimento de elementos do candomblé, tão cheio de variações e de simbologias.
     Dividida em capítulos, a obra aborda desde os cultos aos orixás, trajes e adereços, símbolos e animais votivos, catolizações, até principais terreiros e mitos. Há cantos que são reproduzidos, bem como um glossário de palavras ao final.
                                                            Ninfa Parreiras




Kofi e o menino de fogo
Nei Lopes
Ilustrações: Hélène Moreau
Rio de Janeiro: Pallas, 2008
          Kofi e o menino de fogo é a história de duas crianças diferentes, de um encontro. Kofi, um menino pretinho nascido em Gana (antiga Costa do Ouro, pertencente à Inglaterra), no oeste da África, não conhecia ninguém além do seu povo. O menino sabia que havia gente de pele cor de milho ou de ave depenada, de cabelos amarelos como juba de leão. Fantasias de crianças...
         O que haveria além da aldeia? Além da vizinhança e da família? Ao chegar um barco de ingleses, Kofi fica assustado e começa a suar frio. E descobre que um menino inglês também suava e estava surpreso com o que via. A descoberta do diferente é feita pelas duas crianças: cada uma a seu modo estranha o outro. O estranho é aquilo que é novo, que faz pensar e pode nos ajudar a um entendimento de nós mesmos.
         Na história entre as crianças, o ser diferente pode ser rompido pela brincadeira, pela espontaneidade, o que acontece com as personagens de Kofi e o menino de fogo. Primeiro livro infantil de Nei Lopes, ele é ilustrado pela artista francesa Hélène Moreau. Em traços bem realistas, ela recria fisionomias, expressões e cenas que caracterizam as diversidades e os olhares das crianças.


                                                             Ninfa Parreiras