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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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terça-feira, 6 de março de 2012

Algumas palavras, alguns livros 16

Na rota dos tubarões: o tráfico negreiro e outras viagens
Joel Rufino dos Santos
Ilustrações: Rafael Fonseca
Rio de Janeiro: Pallas, 2011
            O que o colonialismo trouxe para as sociedades africanas, as colônias ameríndias e os países europeus? Que setores da nossa vida estão marcados pelo período do tráfico negreiro? Com a habilidade de escritor e historiador, Joel recria a viagem de um navio negreiro para refletir sobre questões étnicas, sociais, econômicas, históricas e culturais. Ler Na rota dos tubarões: o tráfico negreiro e outras viagens é uma oportunidade para entendermos a identidade do próprio brasileiro.
       Com lentes de aumentar, acompanhamos a narrativa de Joel, da pré-história à colonização, passamos pela África, pela Europa, pelas Américas. Sentimo-nos embarcados em uma viagem pelo mundo. Alcançamos nosso país e nos perguntamos, com o autor: “De que vale a cor?” Por que a cor discrimina, afasta? Não podemos falar em discriminação de raça, mas de etnia. A raça é humana. Inseridos em uma história que tem sido recentemente contada a partir de diferentes pontos de vista de estudiosos, escritores e professores, poderemos construir conceitos mais esclarecedores sobre as populações negras, brancas e mestiças.
       Autor homenageado na 4ª Festa Literária de Santa Teresa – FLIST do Centro Educacional Anísio Teixeira – CEAT, Joel Rufino dos Santos conta com uma significativa produção literária, de livros de história, e de ensaios. Sua obra, merecedora de prêmios, traduções e de adoções em escolas, é lida por crianças, adolescentes e adultos.
                                                        Ninfa Parreiras




Quando eu voltei, tive uma surpresa: (cartas a Nelson)
Joel Rufino dos Santos
Rio de Janeiro: Rocco, 2000
        Um livro de cartas, do amor de um pai para o filho, do desejo de liberdade e de justiça social. Joel Rufino dos Santos, historiador e escritor, foi detido em 1972 e em 1973 começou a cumprir pena no Presídio Tiradentes e, em seguida, no Presídio do Hipódromo, em São Paulo. No Rio de Janeiro, seu filho de oito anos, Nelson, recebe suas cartas carimbadas e censuradas pelo Presídio.
Da prisão, de 1972 a 1974, Joel escreveu cartas ao filho, quando falava da sua rotina de preso, dos companheiros de cela e dos sonhos de jovem pai afastado do filho. Essas cartas (guardadas pela esposa de Joel) foram reunidas mais tarde – Quando eu voltei, tive uma surpresa: (cartas a Nelson), Prêmio Orígenes Lessa, como o Melhor Livro para Jovens, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ, em 2000. São cartas ao filho como metáforas dirigidas ao nosso país (ainda pequeno que ia crescer). Joel estava preso como um dos envolvidos no grupo da História Nova, que teve a coragem de contar a história do Brasil que ainda não havia sido feita.
É considerada uma obra de caráter não somente histórico, como literário e memorialístico. Enquanto esteve preso, dedicou-se a estudos de cultura popular, especialmente às matrizes ameríndia e afro-brasileira, o que consolidaria as primeiras tendências da sua literatura.
Com lirismo e cuidados, Joel conta ao filho sobre os motivos que o levaram a ficar preso, era um condenado político. Relata situações da história do país, como a vinda dos navios negreiros, histórias de escravidão e outras histórias mais que nos fazem brasileiros... Por sorte, as cartas puderam ser organizadas em forma de um livro para as crianças, os jovens, os adultos. É uma obra que testemunha a história de um país na luta contra dificuldades frente à liberdade de expressão e à participação social igualitária para brancos, negros, mestiços e outros grupos étnicos.
Se, por um lado, a obra tem um caráter histórico e social relevante, por outro lado, foi feita com lirismo, mostra a marca das memórias no fazer literatura.
                                               Ninfa Parreiras



Logunedé: Santo menino que velho respeita
Nei Lopes
Rio de Janeiro: Pallas, 2007
 
     Logunedé, orixá pouco conhecido no Brasil, é também chamado de Logum-Edé. Andrógino,divindade iorubá, nasceu no povo Ijexá e é detentor de um segredo. Do mito à religião, dos rituais à devoção, a obra de Nei Lopes é esclarecedora, informativa e nos faz entender que Logunedé é o orixá filho por excelência, traz em si as naturezas da mãe, Oxum Panda, e do pai, Inlê.
      Artista múltiplo, Nei Lopes é compositor, sambista, intérprete, pesquisador, escritor. Desde os anos 90 tem se esforçado pelo rompimento das fronteiras discriminatórias que separam o samba da chamada MPB e tem trabalhado em discografia, televisão, teatro e nos livros.
     Mais um livro de Nei é uma contribuição bem vinda à cultura brasileira, de caráter antropológico, fruto de pesquisas e de estudos. Logunedé vem mostrar a aproximação entre lenda, religião, culto e mitologia. Natureza, sabedoria e crença são contextualizadas, o que poderá facilitar o entendimento de elementos do candomblé, tão cheio de variações e de simbologias.
     Dividida em capítulos, a obra aborda desde os cultos aos orixás, trajes e adereços, símbolos e animais votivos, catolizações, até principais terreiros e mitos. Há cantos que são reproduzidos, bem como um glossário de palavras ao final.
                                                            Ninfa Parreiras




Kofi e o menino de fogo
Nei Lopes
Ilustrações: Hélène Moreau
Rio de Janeiro: Pallas, 2008
          Kofi e o menino de fogo é a história de duas crianças diferentes, de um encontro. Kofi, um menino pretinho nascido em Gana (antiga Costa do Ouro, pertencente à Inglaterra), no oeste da África, não conhecia ninguém além do seu povo. O menino sabia que havia gente de pele cor de milho ou de ave depenada, de cabelos amarelos como juba de leão. Fantasias de crianças...
         O que haveria além da aldeia? Além da vizinhança e da família? Ao chegar um barco de ingleses, Kofi fica assustado e começa a suar frio. E descobre que um menino inglês também suava e estava surpreso com o que via. A descoberta do diferente é feita pelas duas crianças: cada uma a seu modo estranha o outro. O estranho é aquilo que é novo, que faz pensar e pode nos ajudar a um entendimento de nós mesmos.
         Na história entre as crianças, o ser diferente pode ser rompido pela brincadeira, pela espontaneidade, o que acontece com as personagens de Kofi e o menino de fogo. Primeiro livro infantil de Nei Lopes, ele é ilustrado pela artista francesa Hélène Moreau. Em traços bem realistas, ela recria fisionomias, expressões e cenas que caracterizam as diversidades e os olhares das crianças.


                                                             Ninfa Parreiras