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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Homenagem a Joel Rufino dos Santos


Rio de Janeiro, 06 de maio de 2012.

Joel, querido amigo,


Fico olhando aquele quadro, aquele painel feito pelos alunos do CEAT com seu rosto, sua imagem (aquele coordenado pela professora Gisele Felix, meio estilo Vik Muniz), ele me faz pensar nas suas cartas. No fazer a mão. Cartas ao filho, cartas ao Brasil, cartas aos brasileiros. O que você escreveu é uma ética para a infância. Uma ética para a relação pai-filho. Ali, tem ainda um tratado do que é literatura para crianças, do que é a transmissão das histórias. 
A tentativa de um pai escutar o filho. De longe. Detrás das grades.
Você fez o que o Freud nos ensinou com a sublimação, transformou dor em arte, transformou falta em escrita.
Joel Rufino dos Santos: você é um exemplo de pai. Um pai não somente para Nelson e Juliana, e os seus netos. Um pai para nós brasileiros. Somos todos um pouquinho seus filhos. Pelas páginas de História que escreveu. Pelas paisagens brasileiras que passou a limpo. Pelos movimentos políticos, étnicos, sociais e culturais que liderou e participou. Pelo exemplo que reedita a cada texto escrito, a cada ensaio, a cada livro, a cada fala.
Nós, que andamos tão órfãos de pais, precisamos de um cuidador. Das suas palavras lapidadas em contos. Do seu compromisso com a palavra, a história, o país. Num tempo em que as leis se desmoronam, há a falência da função paterna, Quando eu voltei, tive uma surpresa é um exemplo de holding, de contorno, de colo, nas palavras do psicanalista inglês Winnicott. Pai amoroso, pai que corresponde com o filho (responde com o coração).
Você abria as celas da prisão e deixava o seu coração falar em cores, em desenhos, em palavras... Sua voz ecoava para um país calado pela ditadura. Agradecemos à Teresa, sua esposa e companheira, o cuidado em ter guardado tão preciosas cartas! Joel, pai, Joel autor, o CEAT lhe presta essa homenagem como reconhecimento ao seu trabalho, à sua presença cidadã, às suas palavras de pai, de escritor, de mestre, de professor, de contador de histórias.

Ninfa Parreiras 
Psicanalista, especialista em Literatura Infantil e Juvenil

foto: arquivo pessoal, Casa Vermelha, Santa Teresa, Rio, outono 2012