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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Blue Jasmine

 Blue Jasmine


                           Ninfa Parreiras

Em Blue Jasmine, passeamos por cidades charmosas da América do Norte, Nova York e São Francisco, de duas costas diferentes: a leste e a oeste. Não é exatamente um roteiro para turistas. O que o filme do roteirista e diretor Woody Allen nos faz pensar com esse deslocamento do olhar e da cena? Um mundo em ruínas, em que o luxo vivido antes em Nova York agora é levado ao pânico e à angústia em São Francisco, habitada por uma personagem falida e sem muitas opções de vida.
Visitamos com a protagonista Jasmine (ou Jeanette?), interpretada belamente por Cate Blanchett, outras cidades de charme europeu, como Paris e Viena. Observamos a fama com certo distanciamento humorado e crítico. Grifes como Ralph Lauren, Fendi, Hèrmes e Chanel desfilam pela vida de Jasmine, que, apesar de falida, vive internamente seus momentos de glória e glamour e os partilha com o expectador. Crítica ao capitalismo selvagem? Ou à falta de oxigenação das grandes cidades? Jasmine estaria elaborando as tantas perdas que sofreu? 
Interessante como as janelas retratadas no filme nos levam a pensar não somente na beleza fotográfica das cenas como também nas saídas para as cidades, além do que há de claustrofóbico nelas: o mar, a natureza, o céu.   
Há dualidades no filme que merecem nossa atenção, além das duas cidades, da riqueza e da pobreza: Jasmine e Ginger (a proletária, interpretada por Sally Hawkings) são irmãs e não irmãs. Isso é trabalhado por Allen, num jogo de semelhança e oposição. O filme traça ainda uma cartografia da fraude e da falência. Como as pessoas precisam ser enganadas e outras gostam de enganar! 
Por falar em semelhança, Blue Jasmine se parece com o clássico O bonde chamado desejo, de Tennessee Williams, que foi para as telas assinado por Elia Kazan.
Ao final, surpresos, nos levantamos da poltrona com uma lentidão necessária: sem risos, nem choros. Minha filha menor, ainda uma criança, não poupa o comentário: 
"Não entendi nada. Achei que a vida delas fosse melhorar."
Que dizer de um comentário que aposta num sonho de mudança? Ou numa fantasia de futuro? Num mundo que brote das ruínas e nos traga caminhos mais afetivos... É, as crianças esperam as metamorfoses, a lapidação da alma humana.

fotos: https://www.google.com.br/search?q=blue+jasmine&espv=210&es_sm=93&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ei=aWyXUr_ELu-1sATZr4GgBg&sqi=2&ved=0CAkQ_AUoAQ&biw=1024&
acesso em 28/11/2013

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Algumas palavras, alguns livros, 22

Algumas palavras, alguns livros, 22

O casaco de Marx – roupas, memória, dor
de Peter Stallybrass, organização e tradução Tomaz Tadeu.
Belo Horizonte: Autêntica, 3 ed., 2008.
As coisas que usamos
Resenha da obra de ensaios do inglês Peter Stallybrass, que traz três artigos: “A vida social das coisas: roupas, memória, dor”; “O casaco de Marx” e “O mistério do caminhar”. O autor nos leva a passear pela relação entre as pessoas e as roupas. E entre o caminhar e as pessoas. Por um lado, a memória que as roupas carregam e, por outro lado, a transformação das roupas em mercadoria do mundo capitalista, a exemplo do que aconteceu com Karl Heinrich Marx.
Palavras chave: ensaio, sociologia, afetos, subjetividade, memória

Abstract:
The coat we use
Review of the book of the English Peter Stallybrass, which brings three articles: "The social life of things: clothes, memory, pain"; "Marx's coat" and "The mystery of walking." The author takes us walking the relationship between people and the clothes. And walking and people. On the one hand, the memory that carry the clothes and on the other hand, the transformation of clothing merchandise in the capitalist world, an example of what happened to Karl Heinrich Marx (1818 - 1883), German intellectual and revolutionary, founder of Communist doctrine.
Keywords: essay, sociology, affections, subjectivity, memory

As coisas que usamos
                            Ninfa Parreiras
O que representam as coisas que usamos? E as que herdamos para nosso uso? As roupas e os objetos de uma pessoa podem ser como a colcha de retalhos da sua vida. Moldam memórias, trazem paixões, hábitos, dores, cheiros, gostos, toques, sons... Pedaços de experiências que se foram, fragmentos de encontros e desencontros.
Ao usar um casaco que foi de uma pessoa, ali está outro corpo e um odor que não são nossos. A roupa tem o jeito e a forma do corpo de outrem. Ela tem as memórias de uma vida: o caminhar, pequenos objetos guardados nos bolsos, a estética de quem a usou. Com o passar do tempo, o corpo que usa a roupa a molda com uma bagagem afetiva própria, feita de silêncios. Com sons, formas, cheiros, texturas...
Uma roupa usada traz uma linguagem não verbal de sentimentos, de experiências. Ela é um depositário da alma da memória de quem a usa. A roupa usada é um patrimônio da subjetividade.
Dividida em três breves e intensos ensaios, a obra do estudioso inglês Peter Stallybrass leva o leitor a caminhar por roupas, objetos e memórias. No primeiro ensaio, nos deparamos com as roupas daqueles que partiram. Como a família lida com as roupas que ficaram? Alguns se desfazem imediatamente dos objetos do falecido, outros guardam por incontáveis anos. O autor afirma, por experiência própria, que quando se veste a roupa que antes era de outro você leva junto a memória daquela pessoa. Você veste a bagagem afetiva do outro.
Já o segundo ensaio, que dá nome ao livro, é um pensar sobre a transformação das roupas em mercadoria. Acompanhamos a história das roupas no século XIX, principalmente o casaco de Karl Heinrich Marx (1818 - 1883), intelectual e revolucionário alemão, fundador da doutrina comunista; suas idas e vindas à loja de penhores. A luta para se resgatar o que ficou. A necessidade do dinheiro e o valor da roupa. Marx e sua família sofriam, na Inglaterra, quando ele escrevia O capital e não contavam com sustento suficiente. Penhorava vez ou outra o casaco que o protegia do frio e que o permitia entrar no Museu Britânico para as suas pesquisas. Vivia um conflito e uma perda a cada ida à loja de penhores: pelo frio que passaria e pela perda simbólica do casaco que o permitia realizar os estudos.
Importante ver como a roupa era uma marca de distinção, já que Marx somente poderia ir ao Museu Britânico para trabalhar se o seu casaco não estivesse penhorado. Stallybrass apresenta, como aspectos diferentes de hoje, as cores e certos tecidos que distinguiam as classes sociais. Questiona o caso dos prisioneiros que são despojados de sua roupa como forma de despojar do que são. Curioso ver como ele associa estudos acadêmicos com a vida daqueles que os escrevem, como também de uma forma mais direta com a sociedade que vivem. Podemos pensar também nos uniformes neutros e impessoais usados por determinados profissionais. O neutro parece impessoalizar, tira a identidade e as peculiaridades de quem o vestem.
O último ensaio versa sobre a noção de caminhar em diferentes peças clássicas da literatura universal. Stallybrass discute a dramaturgia de diferentes séculos, como Édipo Rei, Édipo em Colono e Rei Lear. Édipo não pode caminhar com segurança pela mutilação que sofreu nos pés, enquanto Lear não precisa andar pelo poder que tem. Stallybrass levanta um importante ponto sobre a dificuldade de se caminhar e como desvalorizamos esse ato quando conseguimos o realizar naturalmente depois de aprendido. Isso não vale somente para o andar, muitas atitudes que tomamos são tão naturais em nossas vidas que não percebemos mais como devemos valorizá-las. Um dos aspectos centrais do ser humano é o caminhar. A Esfinge nos possibilita ver a singularidade do caminhar.
Mais adiante, Stallybrass lembra dos livros É isto é um homem? e A trégua, ambos do prisioneiro e sobrevivente de Auschwitz-Birkenau, Primo Levi (1919-1987), como reflexões sobre as pré-condições do caminhar do homem. Nos campos de concentração, os prisioneiros que conseguiam sapatos que não entravam bem em seus pés, percebiam que não conseguiriam caminhar com eles. E se não podiam andar, não davam conta de trabalhar. E a morte começava pelos sapatos (a falta deles ou a incompatibilidade dos pés com o calçado).
Em A trégua, Levi, de volta para casa, descobre que os sapatos são fundamentais para a sobrevivência humana. Numa guerra, quem tem sapatos, pode fugir em busca de comida. O caminhar inaugura a possibilidade do ficar de pé, do equilíbrio, do ser homem (animal que anda sobre duas patas). Notável esse ensaio que nos coloca diante de algo tão natural, o caminhar, e, ao mesmo tempo, tão complexo! Um paciente, quando anda sozinho por sua própria conta, deixa a análise.
As roupas e os adereços são meros objetos de uso? Ou nos servem de proteção e de ninho para nossas memórias e sentimentos? A obra de Stallybrass nos traz essas questões, como enigmas da nossa existência.
Lembro-me de um analisando que costumava usar um mesmo casaco nos quatro anos que esteve em análise. Saía do escritório de advocacia onde estava empregado no centro da cidade e trajava o casaco que fora do pai, um senhor alcoólatra, falecido há uma década em terras frias. Meu analisando lutava naquele momento contra a tentação da bebida e o gosto da solidão em sua vida: separado, morava com as filhas moças, não possuía casa própria e se sentia cada vez mais humilhado pelo vício da bebida.
Após um trabalho de transferência com a elaboração da representação da figura do pai alcoólatra, ele tirou o casaco. A vestimenta o envolvia de representações negativas e ameaçadoras. Trocou-a por um blazer mais leve, ao gosto do clima temperado da cidade do Rio de Janeiro. Deixar o casaco do pai, que representava a ruína de ambos, inaugurou um momento diferente, em que ele também deixava a bebida destilada que costuma ter como companhia diariamente. Durante os últimos meses da sua análise, ele pode ir ao trabalho e à análise com seu blazer de linho, leve, sem a memória ferida do alcoolismo. Ele trazia uma memória que começava a somar experiências novas, de um homem decidido a refazer a vida, com feições de sua própria identidade, não mais a identidade do pai, colada simbolicamente naquele casaco.
No estúdio do artista Paul Cézanne (1839-1906), em Aix-en-Provence, no sul da França, além de objetos que ele pintava, como frutas, garrafas, há o seu chapéu dependurado, seus casacos, seu guarda-chuva, sua bolsa de couro. Parece que Cézanne foi dar uma volta ali e já retornará. Cada um de nós que tocamos os olhos naqueles objetos de uso pessoal e em sua arte compartilhamos de suas dores, sonhos, sensações. Seu estúdio não é um mero museu depositário de objetos e pinturas. É mais do que isso!
Criamos, com Cézanne, ao apreciar aquelas coisas cheias de existência. Sentimos cheiros, sons, uma vida que não foi apagada, não somente pela universalidade e atemporalidade de suas pinturas, como também pelo frescor do seu estúdio, com móveis, potes, imagens, panos decorativos e seu jeito singular de lidar com a arte. Seus objetos pessoais imprimem uma singularidade e imortalizam Cézanne.
Em uma matéria do jornal britânico The Guardian, http://www.guardian.co.uk/travel/interactive/2013/may/17/paul-cezanne-studio-aix-en-provence-france-audio-slideshow (acesso em 23/05/2013, 22h25), podemos apreciar a vida em cada objeto usado. Como eles guardam as feições do grande pintor francês!
Aprendemos com Donald Winnicott (1896-1971) que o objeto transicional pode ser representado por um cobertorzinho, a manga de um casaquinho do bebê ou até mesmo aquele pano (mulambinho) que ganha cheiro forte, impregnado de suor, lágrimas, leite, a que muitos pequenos se agarram numa determinada fase. Esse objeto é, ao mesmo tempo, uma coisa objetiva, que existe num mundo compartilhado; e subjetiva, para o seu dono. Ele faz parte de uma fantasia, possui vida própria. Seria como um casaco herdado? Um casaco que tem cheiro, forma e lembranças de outro?
Se, por sua vez, o objeto transicional prolonga o período em que o bebê se acredita onipotente, enquanto ele substitui essa crença com a aceitação de uma realidade sobre a qual não tem controle nem pode modificar por meio da imaginação, o casaco reedita reminiscências de alguém que se foi, mas permanece ali em memórias sensoriais. O bebê se vê com poderes mágicos e, com o tempo, percebe a ilusão. Com as brincadeiras e o aprendizado do mundo, a criança, o adolescente e o adulto retêm o poder de criar e adaptam-se às possibilidades reais. A fantasia é de fato a marca do humano: ela pode vir em casacos, mulambinhos, em sapatos, em criações que fazemos das coisas que usamos.
E para viver e caminhar, que venham os sapatos, confortáveis! Aprendemos com a leitura dos ensaios de Stallybrass, que nossas roupas e adereços não são apenas objetos de uso descartável e utilitário. São mais do que isso, vão além das necessidades sociais e corporais de usá-los. São extensões do nosso corpo e possibilidades de reedições de nossos sonhos. 

Resenha para a Revista da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro - SPCRJ, Cadernos de Psicanálise – SPCRJ, A Perversão Normatizada e o Lugar do Analista, vol. 29, n. 32, 2013
Indicação da leitura da obra: Bruna Foureaux Parreiras

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Algumas palavras, alguns livros 21

Flores raras e banalíssimas
A história de Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop
Carmen R. Oliveira
Rio de Janeiro: Rocco, 1995
            Conhecer um relacionamento amoroso entre duas mulheres, talentosas e sensíveis, nos faz pensar sobre a criação amorosa e o trabalho. Chegam ainda dores e perdas. As relações são feitas de tudo isso. De novembro de 1951 a setembro de 1967, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares (1910-1967), brasileira, nascida em Paris, e a norte-americana Elizabeth Bishop (1911–1979) viveram uma relação intensa, marcada por descobertas e viagens. Entre Lota e Bishop, havia ora um compasso, ora um descompasso de trocas e paixões. Realizaram uma vida amorosa, rodeadas de amigos, de um ambiente natural da serra fluminense. E também de tensões e incompatibilidades.
Por um lado, da parte de Lota, a construção de uma casa e jardins em Samambaia, Petrópolis, RJ, a idealização do Parque do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, a convivência com artistas, escritores e arquitetos consagrados da época, o gosto apurado, a preocupação com o viver bem. Por outro lado, da parte de Bishop, a sensibilidade para fazer poemas, o olhar que descortina o Brasil, a busca de um recanto acolhedor, a convivência com amigos de outros continentes, que vieram visitá-la: Aldous Huxley, Raymond Aron, Nicolas Nabokov, John dos Passos... Uma parceria amorosa, regada por arte, literatura e natureza.
Se uma era muito segura e empreendedora, a outra frágil e dependente. Ao conhecermos a história das duas, percebemos o quanto o desamparo as acompanhava. Lota parecia uma mulher segura e valente, mas não suportou a ideia de perder a companheira que volta para Nova York. Bishop não conseguia produzir no contexto que marcou o tempo de trabalho de Lota no projeto do Parque do Aterro do Flamengo. Uma sentia a falta da outra.
A generosidade delas, em compartilhar suas criações, os jardins da casa serrana, o Parque do Flamengo, os poemas, as traduções, nos mostra a parceria e a relação que se desenvolveu. Uma gostava de ler para a outra. Juntas, construíram uma família. Parece que o afastamento delas não foi favorável para nenhuma delas. O Brasil, inicialmente estranho para Bishop, era o lugar onde ela teve uma casa, que enriqueceu sua vida. Fez inúmeras viagens pelo país, com destaque para Ouro Preto, onde também residiu parte da sua vida e para a Amazônia, onde esteve mais de uma vez atraída pela excentricidade das pessoas, das matas e comidas.
Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Clarice Lispector foram alguns dos escritores das leituras de cabeceira de Bishop. Encantada pela informalidade e identidade desses artistas, ela traduziu alguns dos seus textos.
O que há de melhor na obra de Carmen R. Oliveira, adaptada recentemente para o cinema, pelo diretor Bruno Barreto, é o contato com a história das duas amantes. Outras obras retratam o universo de Bishop, com passagens discretas pela sua experiência brasileira. Em Flores raras e banalíssimas, temos a intensidade de afetos das duas e das pessoas e acontecimentos que as cercaram: parte importante da história do Rio de Janeiro e do Brasil protagonizada por Lota e a revelação da poesia de Bishop, considerada uma das mais importantes poetas de língua inglesa. 
                                                              Ninfa Parreiras

Antologia ilustrada da poesia brasileira, para crianças de qualquer idade
Organização e ilustrações Adriana Calcanhotto
Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013
            Ler poemas para crianças de qualquer idade inclui no público as crianças, os jovens e os adultos: toda a família! Isso realiza uma das características da literatura: a de ser universal e atemporal. A poesia não pode mesmo ser endereçada a um único público.
Ao folhear esta delicada obra organizada por Adriana Calcanhotto, passeamos por diferentes épocas, estilos e poetas brasileiros. Ela reuniu de Afrânio Peixoto, poeta baiano, a Arnaldo Antunes, poeta paulistano. Do carioca Vinicius de Moraes ao mineiro Carlos Drummond de Andrade. São dezenas de poemas que nos presenteiam com brincadeiras, dúvidas, non sense, ironia, descobertas, estações, animais. Coisas para cada leitor descobrir!
Na poesia, encontramos elementos tão necessários a nossa vida: a musicalidade, os ritmos, os movimentos e a brincadeira de palavras. E ainda o não entender o que se lê. Como na vida, não entendemos tudo o que vivemos. A poesia não é para ser entendida e interpretada, mas para ser sentida e vivida, com todas as lacunas que traz.
Uma apresentação, um sumário, a biografia dos poetas e a bibliografia enriquecem a obra editada pela Casa da Palavra, que valoriza a produção poética de tantos escritores. Nada como ler o poema e conhecer o autor! Sobre fundo claro, foi feita a impressão dos versos. Ilustrações de Calcanhotto retratam imagens associadas aos versos e nos convidam a virar a página e a ler mais um poema.
                                                                     Ninfa Parreiras 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Modos de ser 1

Modos de ser: 
Golpistas da internet, scammers nigerianos
Ninfa Parreiras
        A internet tem facilitado nossa vida social e afetiva. Muitos serviços você faz de casa: compras, movimentação bancária. Eliminamos o uso do fax, a ida ao correio para passar um telegrama: você pode fazer isso pela internet. Escreve ou conversa com amigos e familiares. São fácil e economicamente contatados por emails, facebook, bate papo on line, skype.
            Por sua vez, a internet gerou suas formas de perversão, os profissionais golpistas das diversas áreas possíveis aproveitam! E outros que usam a facilidade desse meio de comunicação para atuar de uma forma maldosa e corrupta.
       A cultura digital nos trouxe a velocidade do contato: você adiciona o conhecido ou desconhecido com a mesma facilidade que o deleta da sua conta de email e facebook. O que isso representa no campo dos afetos? Ao descartar uma pessoa dos seus contatos, você a tira com a mesma facilidade que a integrou. Não houve um vínculo afetivo que sustentasse a relação, que trouxesse mágoa, paixão, ciúme. Teria desaparecido a intensidade afetiva das paixões? Não fazemos laços nem amizades duradouras com tantos conhecidos adicionados, como os mais de mil contatos. Temos relacionamentos instantâneos que duram quanto tempo dura o interesse de troca. É o mundo do mercado e do consumo que impera sobre todas as coisas e sentimentos!
            Há quadrilhas organizadas que atuam via emails e facebook, desde 2009, conhecidas como scammers nigerianos que residem em diversos países. Dirigem-se a homens e mulheres, adultos de todas as idades do mundo todo. Já atuaram em golpes a empresários. Agora, tem sido corrente o golpe amoroso, amistoso.
Os brasileiros são alvo certo, gostam de uma conversa, são receptivos ao estrangeiro. Há solteiros, viúvos e separados que procuram seus pares: homens ou mulheres. E há as solteiras, viúvas e separadas que buscam seus pares: homens ou mulheres. Do lado de lá, há senhoras e senhores de idade que possuem um patrimônio significativo e estabelecem amizades com pessoas de cá. Há pessoas interessadas em uma amizade brasileira. Uma grande ficção!
            Aliás, a nossa vida é feita de ficções, de coisas que criamos para sobreviver e suportar aquilo que não tem volta: a nossa mortalidade. Alimentamos nossas paixões, precisamos estar acompanhados, sentimos falta do outro. Acreditamos nas narrativas pessoais e sociais, sem falar nas literárias. E a palavra nos seduz, nos deixa levar por enganosos contatos. Isso acontece com relacionamentos pessoais e virtuais.
            As conversas com os golpistas são estabelecidas na nossa língua, traduzidas pelo Google tradutor ou outro programa de tradução. Os depoimentos são superficiais, consumistas, imediatistas, cheios de lugar comum. A pessoa que está do lado de lá quer estabelecer logo um relacionamento com a vítima daqui: ter intimidade e confiança que você custa tempo e quilômetros caminhados para estabelecer. Podem até enviar flores, presentes, cartões, fotos de família, declarações de amor e de amizade... Quando percebem que a pessoa daqui está inteiramente cevada, como um animal, preparam-se para dar o bote. Geralmente acontece quando o golpista está a trabalho fora do seu país, ou a caminho do Brasil. Pode ser o pedido de um empréstimo para uma cirurgia fora ou um depósito para efetuar a compra de um produto onde a pessoa está. Ou um valor porque o golpista foi roubado. Logo, surge a solicitação de um depósito em uma conta estrangeira. E você ainda não sabe que sua paixão do lado de lá é um golpista.
           A construção narrativa das mensagens não costuma apresentar coerência nem elementos de verossimilhança. Ou seja, um texto que não serviria para uma boa novela. Repete outros tantos que foram enviados a pessoas de diferentes partes do mundo. Por sua vez, os elementos perversos se derramam pela conquista virtual que pode contar também com telefonemas e conversas via skype, geralmente em inglês mal falado. Ou seja, pegam pessoas que se entregam com facilidade a relacionamentos virtuais e que são confiáveis. Agem na falta de. Falta de companhia, de um amigo/uma amiga, de uma pessoa da família. Preenchem um espaço vazio que existe na sua vida. O risco são os prejuízos emocionais e financeiros. São modos de ser da nossa contemporaneidade: tanto a entrega apaixonada a contatos instantâneos, quanto as ações perversas dos golpistas, também instantâneas.  
            Para saber mais sobre os scammers nigerianos, consulte e leia depoimentos de pessoas que foram enganadas:
Divulgue!

foto: arquivo pessoal, Tiradentes, verão 2011

domingo, 11 de agosto de 2013

Vermelho amargo

O vermelho amargo
                                                  Ninfa Parreiras
As palavras nos levam a lugares que não conhecemos. E nos levam a lugares familiares, mas estranhos. Aqueles que habitam nossas grutas e labirintos interiores.
O que dizer de tomates, em fatias finas? Em cortes, os afetos chegavam, a ausência se acentuava e a maldade se concretizava em lâminas quase transparentes. Esta obra de Bartolomeu Campos de Queirós, laureada com o Prêmio São Paulo de Literatura em 2012, nos revela a feminilidade à flor da pele: o sangue que escorre, a fertilidade da mulher, a falta. A perversidade. Uma mulher que se vai, outra que fica, como sombra. É amargo o tomate. É amargo o existir.
Adaptada pela Companhia Aberta de Teatro, criada por Daniel Carvalho Faria e Davi de Carvalho no Rio de Janeiro em 2011, traz o espetáculo Vermelho Amargo como sua primeira experiência. Em cena, três atores: Diogo Liberano (que assina a direção), Daniel Carvalho Faria e Davi de Carvalho, com a colaboração de Vera Holtz.
O que há de bacana no trabalho desse grupo é a paixão com que se entregam ao texto de Bartolomeu: às feridas, aos amores, às partidas, às adversidades. Com um cenário que se transforma feito nuvem no céu, os atores se deslocam com fundo musical. Trazem as poéticas palavras do autor mineiro, passeiam por cidades pequenas, estradas empoeiradas, viagens de um pai distante. Imprimem no presente o que há de melhor na obra de Bartolomeu: as imagens, as metáforas e a musicalidade de uma linguagem que cativa leitores de todas as idades.
Os atores brincam, choram, riem, conversam e convivem ainda com um silêncio que corta de tristeza nossa alma. Deslocam-se por tempos que não voltam mais, a não ser da fantasia de cada um de nós.
Atenção àqueles que conhecem a obra do Bartolomeu, esse espetáculo é imperdível. E aos que não a conhecem, que tal começar por este Vermelho amargo que nos impele a falar da vida?
Para saber mais: http://amargovermelho.blogspot.com.br/ 
no facebook: https://www.facebook.com/vermelhoamargo


quarta-feira, 31 de julho de 2013

Cinzas e Letras

Cinzas e Letras

 Ninfa Parreiras
Um fogão de lenha de paredes avermelhadas foi o papel onde escrevi as primeiras letras. Brincava de ser professora com as bonecas e a turma da rua. Enquanto minha mãe banhava o fundo das panelas em riscos indecifráveis, eu experimentava a cinza molhada em figuras e letras. Por que aquela curiosidade com as palavras?
Com os sons trazidos pela brincadeira de juntar uma letra com a outra. Com a textura do resto de lenha. Por que escrever em paredes que estavam quase sempre aquecidas?
Aquele fogão era um tapete mágico onde escutávamos histórias e casos. Dali presenciava o fazer doces, o sapecar o frango, o transformar o leitão em comida para o mês. Lugar da fome e da satisfação, da água aquecida para o banho, do estalar da madeira, do ajuntamento das pessoas. O que fazer com as cinzas?
Minha casa era um livro de histórias: um entra e sai de gente com um dizer das colheitas, dos animais, das pessoas que partiam, das assombrações, da roça. Vinham queijos, roscas. Iam biscoitos, doces. Meu pai nasceu em uma fazenda na pequena Crucilândia e minha mãe num sítio na Serra Azul. Foram morar na cidade maior e se conheceram. A vida rural os visitava com queixas, festejos, casos, choros, carroças. Minha imaginação foi regada por aqueles falatórios e silêncios que atravessavam conversas sem fim. 
Meu pai lia para os sete filhos: sonetos, prosas, verbetes de dicionários e história do Brasil e do mundo. Em voz alta, chegavam notícias de jornal e textos do Antigo Testamento. Minha mãe falava por gestos, piscar de olhos, franzir de testa, emudecer-se ao longo da tarde, proteger o fundo das panelas com a lama da lenha queimada. Sem perceber, aprendíamos a linguagem dos sentimentos. Minha avó paterna adorava contar casos de gente aparecida e desaparecida. Gente que voltava de outra vida.
Tive uma predileção por ler jornais que vinham como embrulho de carnes, verduras, sapatos e objetos retornados das oficinas de consertos. Os jornais tinham serventia variada para saber o que acontecia em outras terras. Quando já circulava pelas ruas da cidade, com pouco mais de oito anos, frequentava a biblioteca pública e lia livros de autores brasileiros e traduzidos. Lembro-me da ida à biblioteca como algo da mais alta importância. Uma conquista! Visitar sozinha o Sítio do Pica-pau Amarelo... Algumas professoras sugeriam livros e autores. Férias era tempo para leituras longas e caderno cheio de composições.
Ser escritora não fazia parte dos meus sonhos. Queria ser professora. Quem sabe, médica. E escrever. Não vinculava o escrever ao ser escritora. Para mim, escrever foi e é uma prática de liberdade: guardar os segredos no papel, dar conta das fantasias e compartilhar textos com pessoas amadas. A escrita nasce como necessidade de elaborar as leituras.
Na faculdade de letras, estagiei na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, onde trabalhei por 20 anos. Foi uma escola de vida, leituras, livros, obras brasileiras e estrangeiras. Ler era parte do trabalho e me fazia companhia. Fui estudar psicologia e psicanálise, pensava que a literatura ia ficar de lado, me dedicaria exclusivamente à clínica. Engano meu!
A literatura faz parte da minha vida, dos atendimentos clínicos, dos estudos da subjetividade. Não que a psicanálise me sirva como instrumento de leitura literária. Na verdade, a literatura me ajuda a entender as pessoas, a escutar o outro. Ela é o estranho que não sai do mundo interno. É minha loucura.
Tenho trabalhos diferentes com a leitura, a literatura, a psicanálise... Transito nesses territórios como uma estrangeira, ao pisar letras desconhecidas a serem descobertas e desenhadas com cinzas. Ora escuto, ora leio, ora escrevo, num exercício que me alimenta de desejos.
Caminhos, mergulhos, fotografias. Em algum momento, chegam palavras, repousam silêncios. Cinzas. O que fazer com isso?


Para o painel do Movimento por Um Brasil Literário – MBL, FLIP 2013, Paraty, juntamente com Flávia Tebaldi, Ricardo Azevedo, Ricardo Ramos Filho e Volnei Canonica
leia no site do MBL: 
fotos: arquivo pessoal, fogão de lenha em Minas Gerais, verão 2008

terça-feira, 30 de julho de 2013

Thomas Hirschhorn no Inhotim

 Thomas Hirschhorn em exposição no Inhotim Brumadinho, MG

     Ninfa Parreiras

     O que poderia caracterizar nossos hábitos contemporâneos? Embalagens de mudança? Papelão? Fitas embaladoras? Aquelas adesivas que são capazes de lacrar os embrulhos. E de criar cicatrizes onde as colamos. Somos seres transitórios, em permanentes mudanças. Deslocamo-nos, embalamos nossos pertences, nossos sonhos. E o que é desnecessário também. Colamos nossas imagens em redes sociais. Pregamos e tiramos numa rapidez que um piscar de olhos não acompanha.
     Consumimos o que está à venda: produtos fabricados em série, com identidades genéricas. Produtos de pouca valia, de qualidade baixa: de 0,99; de 1,99; de 9,99... Descartamos, compramos, jogamos fora. São os verbos que marcam nossa vida atual. Pouco valor tem o objeto usado, o antigo, o que caiu de moda. Trocamos de aparelhos celulares, de computadores, em curtos intervalos de tempo. Somos obrigados a nos atualizar. Por que?
     As fitas que colam as embalagens se configuram como elementos líquidos, de uma vida em estado provisório, em ampla liquidez. Ao colar um objeto, elas também os destroem. 
      O artista suíço, residente em Paris, Thomas Hirschhorn, criou a exposição (Restore now, de 2006) que está numa das galerias do Inhotim para visitação. Ao mesclar fotos de pessoas mutiladas (são pesadas!) com obras da filosofia, da literatura, da arte e da sociologia, ele nos confronta com o lixo excessivo que produzimos. Com produtos que consumimos e não digerimos. Somos bonecos, ou melhor, somos fragmentos engessados. 
     Podemos portar ferramentas (serrotes, facão, tesoura e livros) e fazer uma revolução. Há livros colados, sugeridos como leitura. Encontrei ali exemplares raros de muitos estudiosos, os quais admiro. Em diferentes línguas: português, espanhol, inglês...

      Há uma diversidade de ferramentas que podem (re)construir o mundo que vivemos: desde obras para serem lidas a instrumentos de atividades artesanais, como um martelo, uma pua, um machado. Há muito que lavrar, que roçar, que cortar, que picar, que ler, nesta nossa vida recheada de excessos. Colocar as mãos naquilo que vivemos caracteriza um modo de vida mais artesanal, como um pão feito em casa, uma roupa costurada com agulha manual, uma planta cultivada no jardim. 
     A leitura de obras literárias e filosóficas nos trazem um desconforto parecido ao da exposição de Hirschorn. Elas nos trazem cicatrizes, pois mexem em zonas sagradas do nosso mundo interno e da nossa pele.
     Pregos marcam presença nesta instalação que traz uma advertência sobre as cenas de mutilação (muitas delas publicadas em jornais e exibidas na televisão, sem censura). Aliás, precisamos da cesura, do corte. Mais do que nunca, este mundo nos exige saber cortar, saber limpar, saber escolher, em relação ao que usamos, ao que vemos, ao que postamos, às pessoas com as quais nos encontramos. 
fotos: site do Inhotim, julho 2013
visite: http://www.inhotim.org.br/index.php/arte/artista/view/170

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Algumas palavras, alguns livros 20

Eu quero ver a lua
Louis Baum
Ilustrações Alarcão
Rio de Janeiro: Rocco, 2012
Editado na Inglaterra em 1984, Eu quero ver a lua é um dos mais importantes livros publicados para crianças nas últimas décadas. Nele encontramos a magia da infância e o lirismo da literatura. Louis Baum, sul- africano residente na Grã Bretanha, é o escritor dessa consagrada obra agora publicada no Brasil pela Rocco. Jornalista, editor e escritor fazem dele um grande autor a ser lido pelos brasileiros.
A sensibilidade com que criou Eu quero ver a lua nos revela um cuidado e uma escuta ao desejo da criança. Por que elas nos pedem coisas difíceis? E, algumas vezes, até inexplicáveis? Por que insistem? Isso está respondido no livro de Baum.
Qual é a mágica da literatura infantil? O que faz com que os leitores se encantem por um livro? Os conteúdos? As ilustrações? Certamente, uma boa combinação de texto e de ilustração. As crianças pedem para que nós, adultos, as ajudemos a entender a estranheza do mundo, da vida. A entender as coisas estranhas. Na literatura, esse estranhamento pode se apresentar de formas variadas, algumas vezes lúdicas, outras vezes metafóricas. E até por meio de repetições estilísticas. É o que acontece em Eu quero ver a lua.
O querer ver a lua é uma metáfora da brincadeira, da descoberta do que há de misterioso no céu de noite. É ter a companhia do pai para ver a lua. Não bastam a ida ao banheiro, uma fralda limpa, um copo d’água, uma história... A lua é a mais mágica das criaturas para Arthur. A lua é o brinquedo! E estar com o pai é algo muito gratificante!
As ilustrações de Alarcão exploram nuances e tonalidades noturnas e oníricas. Remetem o leitor ao sonho, uma criação tão próxima da literatura. Ambas são feitas de linguagens condensadas, simbólicas. Os movimentos dos personagens, como o balançar a cabeça, o olhar, a lua encoberta de nuvens valorizam a descoberta e a surpresa.
Nada melhor para as crianças pequenas que a brincadeira de esconde-esconde. É isso que escritor e ilustrador fazem nesta obra, numa composição metalinguística com a própria criação do livro. A fumaça do leite quente, as nuvens no céu, os cabelos do menino, o papel de parede, o edredom de cobrir, a fumaça das chaminés reproduzem um movimento de ondas, de imagens não reveladas, de sonhos.
(texto para a editora Rocco, catálogo da FLIP 2012)
Ninfa Parreiras
Escritora e psicanalista


domingo, 28 de abril de 2013

Olhos de Outono


Olhos de outono
                                       Ninfa Parreiras

 O outono me fascina. Gosto da luz clara, ao mesmo tempo, esfumaçada. Nítida, com realce das cores. Como a luz do Barroco. A cena banhada em ouro, em camadas que se superpõem, em volumes. A paisagem esculpida. E toda a beleza cabe nela.
Dias curtos, temperatura suave, brisa pouca. Folhas caem. Ora preguiçosas. Ora envelhecidas. Desprendem-se e bailam. Autônomas, solteiras. Aos pares, em grupos, aos pedaços. Viram lixo, viram adubo. Viram outras coisas. Folhas novas virão.
No hemisfério norte, o outono traz um espetáculo para os olhos. As árvores revestem-se de cores amareladas, queimadas. Ficam floridas de folhas. Enferrujadas e avermelhadas. Os caminhos nos parques e nas ruas são tapetes de folhas. Tudo é folha. Fotografo o outono lá como quem acaba de nascer e descobrir: a natureza é generosa.
Olhar nos olhos das pessoas faz bem. Uma conversa de silêncios, de suspiros. De dúvidas. Há olhos que são de outono. Parecem desprender folhas que caem levemente e contam coisas. Histórias que desfolham os olhos. Histórias para quem lê os olhos.
Trincados, os olhos de outono variam: ora cor de mel, ora castanhos, ora verdes, ora negros. São olhos banhados de amor. Os olhos de outono se renovam de sonhos e plantam mais dúvidas nos olhos de quem os lê. Serão folhas que caem para chegar outras?

Foto: arquivo pessoal, outono em Tiradentes, MG, 2008

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Sobre os Mortos


                                                               Ninfa Parreiras

De volta para casa, numa noite de sexta-feira, a Rua Gomes Carneiro acolhia gente de cara assustada, de cochichos, de olhar interrogativo.
            Cruzei com um automóvel nervoso da Polícia Civil, com outro estacionado da Defesa Civil. Homens carregavam um cadáver enrolado como um fardo em uma espécie de coxo de plástico. Em segundos, meu olhar fotografou uma morte misteriosa, pessoas que saíam de bares, de prédios. Por que a morte assusta? Faz juntar gente? Comentários e conversas inconclusas... Por que a morte existe como algo que não nos acomete? Como algo alheio e do acaso? A morte existe no outro, do lado de lá.
            Pensei na ilha de Poveglia, perto de Veneza, conhecida como Ilha dos Mortos. A Itália a colocou a venda recentemente, abandonada há décadas. Lá, na Idade Média, cerca de 160 mil pessoas foram queimadas e soterradas, vítimas de pragas incontroláveis que assolavam Veneza. Séculos mais tarde, abrigou um manicômio e um médico torturava pacientes ao pesquisar a cura para as doenças da mente. Há caminhos cobertos de ossos entre ruínas. O que fazer com Poveglia?
            Tudo isso nos aponta a dificuldade nossa em lidar com os mortos. Com a nossa própria morte. Na minha infância, o falecido dentro do caixão ocupava a mesa mais extensa da casa, na copa ou na sala de jantar. Era velado ali, entre bules de café, pedaços de queijo fresco e biscoitos de polvilho. As crianças abanavam os mosquitos que se aproximavam da renda roxa ou negra que cobria o defunto. Nos dias seguintes, a copa voltava a servir as refeições da família e o morto ocupava seu lugar no cemitério.
Gráficas da cidade imprimiam um aviso fúnebre a ser distribuído de mão em mão, também pelas crianças. A vida e a morte andavam juntas, de mãos dadas, como de fato estão postas para todos: são as duas coisas que experimentamos em situação de igualdade: nascer e morrer.  
Nas cidades grandes, velar um morto demanda tempo, segurança (há assaltos aos velórios) e custa caro e esse momento de despedida tem sido reduzido a breves horas. As pessoas pouco têm tempo para fazer seus rituais, tão necessários para elaborarmos as perdas e as mudanças que vivemos. Será que podemos viver para sempre? O que fazer com Poveglia e com os mortos? Ou: o que fazer para agregar a morte à vida?

 “A consideração pelos mortos que, afinal de contas, não mais necessitam dela, é mais importante para nós do que a verdade e, certamente, para a maioria de nós, do que a consideração pelos vivos.” (Sigmund Freud, 1915)

fotografia: arquivo pessoal, Veneza, inverno 2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A fotografia é uma palavra arrumada do lado de outra



Ninfa Parreiras
A fotografia é uma palavra arrumada do lado de outra. A imagem planejada, o foco num detalhe, a ampliação da claridade, brincar com o zoom... É um polir a paisagem. Um lustre na cena.
Gosto de fotografar: viagens, pessoas, paisagens, objetos, comidas, poeira, fumaça, coisas que o mar devolve. Meu pai tinha uma câmera que herdei: com uma sanfona em couro que abre a objetiva. Ela me acompanhou em viagens da adolescência para Ouro Preto, Caraça. Fazia sucesso! Hoje ela enfeita minha cristaleira.
Ainda fotografo viagens, aprecio coisas aparentemente sem importância: lodo, folha caída ao chão, escadas, telhados, pontes, gente desconhecida, janelas, comidas de feiras, quinquilharias, riscos lilás no infinito. Volto com a mala cheia de imagens, de palavras, de coisas não ditas.
Quase nunca sei o que fazer com as fotos: algumas vão para porta retratos, poucas envio aos amigos, com outras escrevo uns versos no blog. Tenho fotos guardadas: em papel, em arquivos digitais. Bom reencontrá-las, passear os olhos pelos lugares visitados.
Reparo que hoje as pessoas gostam de fotografar as comidas, as roupas, cada sorriso aberto na praia. Postam imediatamente em redes sociais, compartilham. O vivido é dividido com multidões. O tempo seria suficiente para revelar os negativos? Para secar o papel? Selecionar as nítidas expressões? Por que as pessoas não selecionam as melhores fotos? Poucas e belas. Postam tudo, mostram tudo, contam tudo.
A arte não está em tudo. A beleza está em poucas coisas.
Onde estão as entrelinhas das fotos? As ambiguidades? As metáforas? As coisas sentidas, sem palavras? Aquela foto que te surpreende pela novidade? Ou aquela que te faz calar de tanta emoção? Emoção pelo vazio. Pela coisa pequena. Pelo detalhe. Da vida.
foto: arquivo pessoal, inverno 2013, pelos becos de Veneza. 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Cadeados do Amor

Cadeados do amor

Ninfa Parreiras
 As pessoas são capazes de muitas coisas. Pelo amor. O amor é um escândalo. É uma transgressão. Um salto no mais alto escuro. Um mergulho no que há de mais fundo na nossa alma. Uma entrega sem limites. Destemperada, adoçada, apimentada.
Ao caminhar em um parque de Freiburg, no último inverno na Alemanha, uma ponte repleta de cadeados amorosos. Casais apaixonados selaram, ali, com os nomes gravados, seus compromissos amorosos. Há cadeados de todos os tipos, cores, formas, marcas. Com brilhantinhos, com alcinhas. Há cadeados de famílias, um preso ao outro. Nomes e sobrenomes. Apelidos. Em alemão, em árabe, em línguas eslavas, em outras que desconheço.
E as chaves? Estariam guardadas em algum lugar? 

 
          A ponte atravessa um belo lago rodeado de árvores e de trilhas próprias para caminhadas, passeios de bicicleta, patins. O vento soprava gelado. E os cadeados permaneciam trancados. Quase congelados. Como se a relação estivesse blindada contra surpresas, ameaças. Será possível trancar um amor assim? 
 Não posso deixar de pensar nos contos de fadas, nas juras de amor das princesas e príncipes, nos desafios impostos a personagens encantados. A vida é feita mesmo de coisas mágicas, de sonhos que inventamos e reeditamos.
Naquela tarde, vi passarem esportistas, famílias, casais, bebês levados pelos pais. Vi passar a ponte dos amores. Vi passar a vida. Não vi as chaves.

Fotos: arquivo pessoal, Freiburg, Alemanha, inverno 2013
pra Renata Gomide Hank