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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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domingo, 28 de abril de 2013

Olhos de Outono


Olhos de outono
                                       Ninfa Parreiras

 O outono me fascina. Gosto da luz clara, ao mesmo tempo, esfumaçada. Nítida, com realce das cores. Como a luz do Barroco. A cena banhada em ouro, em camadas que se superpõem, em volumes. A paisagem esculpida. E toda a beleza cabe nela.
Dias curtos, temperatura suave, brisa pouca. Folhas caem. Ora preguiçosas. Ora envelhecidas. Desprendem-se e bailam. Autônomas, solteiras. Aos pares, em grupos, aos pedaços. Viram lixo, viram adubo. Viram outras coisas. Folhas novas virão.
No hemisfério norte, o outono traz um espetáculo para os olhos. As árvores revestem-se de cores amareladas, queimadas. Ficam floridas de folhas. Enferrujadas e avermelhadas. Os caminhos nos parques e nas ruas são tapetes de folhas. Tudo é folha. Fotografo o outono lá como quem acaba de nascer e descobrir: a natureza é generosa.
Olhar nos olhos das pessoas faz bem. Uma conversa de silêncios, de suspiros. De dúvidas. Há olhos que são de outono. Parecem desprender folhas que caem levemente e contam coisas. Histórias que desfolham os olhos. Histórias para quem lê os olhos.
Trincados, os olhos de outono variam: ora cor de mel, ora castanhos, ora verdes, ora negros. São olhos banhados de amor. Os olhos de outono se renovam de sonhos e plantam mais dúvidas nos olhos de quem os lê. Serão folhas que caem para chegar outras?

Foto: arquivo pessoal, outono em Tiradentes, MG, 2008

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Sobre os Mortos


                                                               Ninfa Parreiras

De volta para casa, numa noite de sexta-feira, a Rua Gomes Carneiro acolhia gente de cara assustada, de cochichos, de olhar interrogativo.
            Cruzei com um automóvel nervoso da Polícia Civil, com outro estacionado da Defesa Civil. Homens carregavam um cadáver enrolado como um fardo em uma espécie de coxo de plástico. Em segundos, meu olhar fotografou uma morte misteriosa, pessoas que saíam de bares, de prédios. Por que a morte assusta? Faz juntar gente? Comentários e conversas inconclusas... Por que a morte existe como algo que não nos acomete? Como algo alheio e do acaso? A morte existe no outro, do lado de lá.
            Pensei na ilha de Poveglia, perto de Veneza, conhecida como Ilha dos Mortos. A Itália a colocou a venda recentemente, abandonada há décadas. Lá, na Idade Média, cerca de 160 mil pessoas foram queimadas e soterradas, vítimas de pragas incontroláveis que assolavam Veneza. Séculos mais tarde, abrigou um manicômio e um médico torturava pacientes ao pesquisar a cura para as doenças da mente. Há caminhos cobertos de ossos entre ruínas. O que fazer com Poveglia?
            Tudo isso nos aponta a dificuldade nossa em lidar com os mortos. Com a nossa própria morte. Na minha infância, o falecido dentro do caixão ocupava a mesa mais extensa da casa, na copa ou na sala de jantar. Era velado ali, entre bules de café, pedaços de queijo fresco e biscoitos de polvilho. As crianças abanavam os mosquitos que se aproximavam da renda roxa ou negra que cobria o defunto. Nos dias seguintes, a copa voltava a servir as refeições da família e o morto ocupava seu lugar no cemitério.
Gráficas da cidade imprimiam um aviso fúnebre a ser distribuído de mão em mão, também pelas crianças. A vida e a morte andavam juntas, de mãos dadas, como de fato estão postas para todos: são as duas coisas que experimentamos em situação de igualdade: nascer e morrer.  
Nas cidades grandes, velar um morto demanda tempo, segurança (há assaltos aos velórios) e custa caro e esse momento de despedida tem sido reduzido a breves horas. As pessoas pouco têm tempo para fazer seus rituais, tão necessários para elaborarmos as perdas e as mudanças que vivemos. Será que podemos viver para sempre? O que fazer com Poveglia e com os mortos? Ou: o que fazer para agregar a morte à vida?

 “A consideração pelos mortos que, afinal de contas, não mais necessitam dela, é mais importante para nós do que a verdade e, certamente, para a maioria de nós, do que a consideração pelos vivos.” (Sigmund Freud, 1915)

fotografia: arquivo pessoal, Veneza, inverno 2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A fotografia é uma palavra arrumada do lado de outra



Ninfa Parreiras
A fotografia é uma palavra arrumada do lado de outra. A imagem planejada, o foco num detalhe, a ampliação da claridade, brincar com o zoom... É um polir a paisagem. Um lustre na cena.
Gosto de fotografar: viagens, pessoas, paisagens, objetos, comidas, poeira, fumaça, coisas que o mar devolve. Meu pai tinha uma câmera que herdei: com uma sanfona em couro que abre a objetiva. Ela me acompanhou em viagens da adolescência para Ouro Preto, Caraça. Fazia sucesso! Hoje ela enfeita minha cristaleira.
Ainda fotografo viagens, aprecio coisas aparentemente sem importância: lodo, folha caída ao chão, escadas, telhados, pontes, gente desconhecida, janelas, comidas de feiras, quinquilharias, riscos lilás no infinito. Volto com a mala cheia de imagens, de palavras, de coisas não ditas.
Quase nunca sei o que fazer com as fotos: algumas vão para porta retratos, poucas envio aos amigos, com outras escrevo uns versos no blog. Tenho fotos guardadas: em papel, em arquivos digitais. Bom reencontrá-las, passear os olhos pelos lugares visitados.
Reparo que hoje as pessoas gostam de fotografar as comidas, as roupas, cada sorriso aberto na praia. Postam imediatamente em redes sociais, compartilham. O vivido é dividido com multidões. O tempo seria suficiente para revelar os negativos? Para secar o papel? Selecionar as nítidas expressões? Por que as pessoas não selecionam as melhores fotos? Poucas e belas. Postam tudo, mostram tudo, contam tudo.
A arte não está em tudo. A beleza está em poucas coisas.
Onde estão as entrelinhas das fotos? As ambiguidades? As metáforas? As coisas sentidas, sem palavras? Aquela foto que te surpreende pela novidade? Ou aquela que te faz calar de tanta emoção? Emoção pelo vazio. Pela coisa pequena. Pelo detalhe. Da vida.
foto: arquivo pessoal, inverno 2013, pelos becos de Veneza.