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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Cinzas e Letras

Cinzas e Letras

 Ninfa Parreiras
Um fogão de lenha de paredes avermelhadas foi o papel onde escrevi as primeiras letras. Brincava de ser professora com as bonecas e a turma da rua. Enquanto minha mãe banhava o fundo das panelas em riscos indecifráveis, eu experimentava a cinza molhada em figuras e letras. Por que aquela curiosidade com as palavras?
Com os sons trazidos pela brincadeira de juntar uma letra com a outra. Com a textura do resto de lenha. Por que escrever em paredes que estavam quase sempre aquecidas?
Aquele fogão era um tapete mágico onde escutávamos histórias e casos. Dali presenciava o fazer doces, o sapecar o frango, o transformar o leitão em comida para o mês. Lugar da fome e da satisfação, da água aquecida para o banho, do estalar da madeira, do ajuntamento das pessoas. O que fazer com as cinzas?
Minha casa era um livro de histórias: um entra e sai de gente com um dizer das colheitas, dos animais, das pessoas que partiam, das assombrações, da roça. Vinham queijos, roscas. Iam biscoitos, doces. Meu pai nasceu em uma fazenda na pequena Crucilândia e minha mãe num sítio na Serra Azul. Foram morar na cidade maior e se conheceram. A vida rural os visitava com queixas, festejos, casos, choros, carroças. Minha imaginação foi regada por aqueles falatórios e silêncios que atravessavam conversas sem fim. 
Meu pai lia para os sete filhos: sonetos, prosas, verbetes de dicionários e história do Brasil e do mundo. Em voz alta, chegavam notícias de jornal e textos do Antigo Testamento. Minha mãe falava por gestos, piscar de olhos, franzir de testa, emudecer-se ao longo da tarde, proteger o fundo das panelas com a lama da lenha queimada. Sem perceber, aprendíamos a linguagem dos sentimentos. Minha avó paterna adorava contar casos de gente aparecida e desaparecida. Gente que voltava de outra vida.
Tive uma predileção por ler jornais que vinham como embrulho de carnes, verduras, sapatos e objetos retornados das oficinas de consertos. Os jornais tinham serventia variada para saber o que acontecia em outras terras. Quando já circulava pelas ruas da cidade, com pouco mais de oito anos, frequentava a biblioteca pública e lia livros de autores brasileiros e traduzidos. Lembro-me da ida à biblioteca como algo da mais alta importância. Uma conquista! Visitar sozinha o Sítio do Pica-pau Amarelo... Algumas professoras sugeriam livros e autores. Férias era tempo para leituras longas e caderno cheio de composições.
Ser escritora não fazia parte dos meus sonhos. Queria ser professora. Quem sabe, médica. E escrever. Não vinculava o escrever ao ser escritora. Para mim, escrever foi e é uma prática de liberdade: guardar os segredos no papel, dar conta das fantasias e compartilhar textos com pessoas amadas. A escrita nasce como necessidade de elaborar as leituras.
Na faculdade de letras, estagiei na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, onde trabalhei por 20 anos. Foi uma escola de vida, leituras, livros, obras brasileiras e estrangeiras. Ler era parte do trabalho e me fazia companhia. Fui estudar psicologia e psicanálise, pensava que a literatura ia ficar de lado, me dedicaria exclusivamente à clínica. Engano meu!
A literatura faz parte da minha vida, dos atendimentos clínicos, dos estudos da subjetividade. Não que a psicanálise me sirva como instrumento de leitura literária. Na verdade, a literatura me ajuda a entender as pessoas, a escutar o outro. Ela é o estranho que não sai do mundo interno. É minha loucura.
Tenho trabalhos diferentes com a leitura, a literatura, a psicanálise... Transito nesses territórios como uma estrangeira, ao pisar letras desconhecidas a serem descobertas e desenhadas com cinzas. Ora escuto, ora leio, ora escrevo, num exercício que me alimenta de desejos.
Caminhos, mergulhos, fotografias. Em algum momento, chegam palavras, repousam silêncios. Cinzas. O que fazer com isso?


Para o painel do Movimento por Um Brasil Literário – MBL, FLIP 2013, Paraty, juntamente com Flávia Tebaldi, Ricardo Azevedo, Ricardo Ramos Filho e Volnei Canonica
leia no site do MBL: 
fotos: arquivo pessoal, fogão de lenha em Minas Gerais, verão 2008

terça-feira, 30 de julho de 2013

Thomas Hirschhorn no Inhotim

 Thomas Hirschhorn em exposição no Inhotim Brumadinho, MG

     Ninfa Parreiras

     O que poderia caracterizar nossos hábitos contemporâneos? Embalagens de mudança? Papelão? Fitas embaladoras? Aquelas adesivas que são capazes de lacrar os embrulhos. E de criar cicatrizes onde as colamos. Somos seres transitórios, em permanentes mudanças. Deslocamo-nos, embalamos nossos pertences, nossos sonhos. E o que é desnecessário também. Colamos nossas imagens em redes sociais. Pregamos e tiramos numa rapidez que um piscar de olhos não acompanha.
     Consumimos o que está à venda: produtos fabricados em série, com identidades genéricas. Produtos de pouca valia, de qualidade baixa: de 0,99; de 1,99; de 9,99... Descartamos, compramos, jogamos fora. São os verbos que marcam nossa vida atual. Pouco valor tem o objeto usado, o antigo, o que caiu de moda. Trocamos de aparelhos celulares, de computadores, em curtos intervalos de tempo. Somos obrigados a nos atualizar. Por que?
     As fitas que colam as embalagens se configuram como elementos líquidos, de uma vida em estado provisório, em ampla liquidez. Ao colar um objeto, elas também os destroem. 
      O artista suíço, residente em Paris, Thomas Hirschhorn, criou a exposição (Restore now, de 2006) que está numa das galerias do Inhotim para visitação. Ao mesclar fotos de pessoas mutiladas (são pesadas!) com obras da filosofia, da literatura, da arte e da sociologia, ele nos confronta com o lixo excessivo que produzimos. Com produtos que consumimos e não digerimos. Somos bonecos, ou melhor, somos fragmentos engessados. 
     Podemos portar ferramentas (serrotes, facão, tesoura e livros) e fazer uma revolução. Há livros colados, sugeridos como leitura. Encontrei ali exemplares raros de muitos estudiosos, os quais admiro. Em diferentes línguas: português, espanhol, inglês...

      Há uma diversidade de ferramentas que podem (re)construir o mundo que vivemos: desde obras para serem lidas a instrumentos de atividades artesanais, como um martelo, uma pua, um machado. Há muito que lavrar, que roçar, que cortar, que picar, que ler, nesta nossa vida recheada de excessos. Colocar as mãos naquilo que vivemos caracteriza um modo de vida mais artesanal, como um pão feito em casa, uma roupa costurada com agulha manual, uma planta cultivada no jardim. 
     A leitura de obras literárias e filosóficas nos trazem um desconforto parecido ao da exposição de Hirschorn. Elas nos trazem cicatrizes, pois mexem em zonas sagradas do nosso mundo interno e da nossa pele.
     Pregos marcam presença nesta instalação que traz uma advertência sobre as cenas de mutilação (muitas delas publicadas em jornais e exibidas na televisão, sem censura). Aliás, precisamos da cesura, do corte. Mais do que nunca, este mundo nos exige saber cortar, saber limpar, saber escolher, em relação ao que usamos, ao que vemos, ao que postamos, às pessoas com as quais nos encontramos. 
fotos: site do Inhotim, julho 2013
visite: http://www.inhotim.org.br/index.php/arte/artista/view/170