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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Dia D Drummond: 31 de outubro

DIA D DRUMMOND: 31 DE OUTUBRO
Ninfa Parreiras
Em 31 de outubro de 2002, nascia o menino Carlos em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, conhecida pelas suas fazendas e serras de minério de ferro. O minério deixou a cidade desdentada, desbotada em sombras de ferrugem. Fez dela um retrato da exploração desenfreada e mal cuidada. Ficaram a memória e a poesia de Carlos Drummond de Andrade, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa.
A infância, a família, os dias vividos na fazenda iluminaram a sua escrita de pó e de ferro. De amor e de tristeza. De lama e de lamento. Uma poética única, de linguagem universal, em permanente conversa com a filosofia, a psicanálise, a sociologia, a política. E com outras formas de manifestação de arte.
Em 1987, o poeta parte, depois de morar anos no Rio de Janeiro, nos deixa uma obra imortal, feita de minérios, constituída de contos, crônicas, cartas e poemas. Sua incansável poesia nos consola, nos envolve, nos subtrai, nos arremessa em universos inesperados que só a Arte Poética é capaz.
A partir de 2011, o Instituto Moreira Salles – IMS passou a promover o dia 31 de outubro como o Dia D Drummond, para homenagear o poeta e perpetuar a sua obra. Para 2014, o longa-metragem “Vida e verso de Carlos Drummond de Andrade”, produzido pelo IMS, com roteiro e direção de Eucanaã Ferraz e fotografia de Walter Carvalho, está sendo exibido em diferentes partes do país. Consulte a programação: http://www.ims.com.br/ims/visite/programacao/diadrummond
O filme reúne quatro consagradas vozes contemporâneas da nossa literatura: Joca Reiners Terron, Antonio Cicero, Alberto Martins e Afonso Henriques Neto.

            Para abrir a semana, do alto de Santa Teresa, no castelo do Centro Educacional Anísio Teixeira – CEAT, a multiplicidade de vozes de Drummond e dos escritores recitadores ecoa pelos ventos da Cidade Maravilhosa.

imagens: IMS

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Quem é Roger Mello?

 Quem é Roger Mello?
Ilustrador vencedor do Prêmio Hans Christian Andersen do IBBY, a mais alta premiação internacional de literatura infantil!
                                                                         Ninfa Parreiras
            Roger Mello é um artista completo (da imagem, da palavra, do projeto visual) que concebe e cria obras literárias para a infância, a juventude e os adultos de todas as idades. Completo no sentido de saber lidar com uma sintonia dessas três linguagens, que, no Brasil, ainda está em processo de construção.
Seus livros reúnem a beleza e o cuidado de quem sabe criar um objeto de arte, um brinquedo. Isso porque a literatura para as crianças tem, em seu íntimo, a brincadeira, que desloca nosso olhar e nos comove. Roger, ao escrever e ilustrar para a infância, convoca a criança que habita dentro de si. Seus livros são brinquedos que os adultos também manuseiam e se deleitam, como Zubair, Zoo e João por um fio.
Dos temas folclóricos (brasileiros e de outras nações) presentes em obras como Maria Teresa, Cavalhadas de Pirenópolis, Nau Catarineta, aos contemporâneos (solidão, nomadismo), como Selvagem e Contradança, a pesquisa de Roger ultrapassa as fronteiras culturais e sociais do Brasil. Ultrapassa os regionalismos. Sua produção artística é universal e atemporal.
O cuidado com a infância está imortalizado nas obras dedicadas ao trabalho infantil, como Meninos do Mangue e Carvoeirinhos. Uma denúncia sutil, sem apelos, sem moralismos, sem didatismos; em narrativas carregadas de lirismo. Trazem a voz da infância, nas palavras e ilustrações. Aliás, a ilustração, para o Roger, é um texto e vice-versa.
O sonho é outro tema presente em sua obra, como em João por um fio, Jardins e Zubair.  Seja o sonho de um menino (brasileiro ou estrangeiro), seja o sonho de uma nação, seja o sonho da humanidade em manter um mundo de paz e de tolerância. Certamente, o sonho da própria literatura!
A falta, tão presente na vida de todos nós e necessária para lidarmos com a solidão, o vazio, o envelhecimento, a crise, marca presença em Contradança e Selvagem. Seus livros abrem espaços para o leitor, ao se deparar com algo incompleto, perguntas, sem lições de moral. O último ponto de cada texto, a última imagem de cada ilustração cabe ao leitor. Até porque na sua arte não há linearidade nem ponto final.
A oralidade, forte marca da nossa cultura, aparece em Nau Catarineta, Maria Teresa. Reproduzida nos textos e nas imagens, a tradição oral atualiza o gosto do popular e do antigo. Roger não despreza o velho, o decadente: ele os recria.
Abordagens históricas e sociais atravessam sua obra de maneira intensa, como notamos em Zubair e outros livros. Roger é um artista conectado com o seu tempo. E também com o passado, a história da arte, a literatura para crianças, o meio ambiente. Ele aborda em sua produção uma visão histórica. Lida com a intertextualidade como uma ferramenta que enriquece seu trabalho. Pinta animais e os personifica.
A fragmentação e o deslocamento, características da contemporaneidade, estão em Contradança e Todo cuidado é pouco. A exploração temática e linguística, na escrita e na criação de imagens, vem por meio da metalinguagem bem trabalhada.  Ao abordar o deslocamento de uma personagem, notamos o deslocamento atento e curioso de Roger. E, claro, do leitor.
fotos: arquivo pessoal, Bonito, inverno, 2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

O Grande Hotel Budapeste


            O Grande Hotel Budapeste

                                              Ninfa Parreiras
Filme do norte-americano Wes Anderson, O Grande Hotel Budapeste nos prende do início ao fim. Nele, uma história mora dentro da outra. As décadas de 30, 60 e 80 do século passado nos chegam como um mergulho em abismos. Uma sucessão de sinestesias. Cenas assustadoras se repetem como a constrangedora travessia de trem no campo de cevada na neve. O uso de cores antigas, desbotadas, alternado com tons cinzas e a neve do exterior. Quando muda o tempo histórico, as cores e as vestimentas mudam também. Uma provocação às nossas reminiscências. A alternância entre imagens de fotografias e de ilustrações com imagens ‘reais’. A alegoria Transitamos entre a ficção e a realidade com conforto.
Tomadas de cima para baixo, as cenas passeiam com nossos olhos que se deslocam de 180º a 360º por pilhas de caixas, escadarias, elevadores, janelas, torres... Há contrastes entre objetos miúdos (frasco de perfume, livro de poesia) e os gigantescos (o plano inclinado, as escadas do hotel). As personagens nos olham fixa e vagamente. Livros, enfeites decorativos, bolos confeitados, armas, são também personagens. E ainda há uma exuberância de cores que beiram ao exagero. No fundo, uma delicada crítica à barbárie contemporânea, aos excessos e à decadência do mundo capitalista. Vazio seria o que vivemos hoje?
Metalinguagem, verossimilhança, ficção, juntas, numa comédia que é também um drama. E a belíssima homenagem ao escritor austríaco Stefan Sweig, um dos mais consagrados dos anos 20/40. Vale dizer que o roteiro do filme foi criado a partir de histórias de Sweig, que morou no Brasil no último ano da sua vida. Logo nas primeiras cenas do filme, quando um escritor (Tom Wilkinson) declara que a melhor parte de escrever como ofício é não se preocupar nem buscar histórias, porque elas chegam naturalmente a ele, notamos uma referência à obra Coração impaciente, de Sweig. Também percebemos que no filme há elementos que são da vida dele: a retirada para as montanhas, a saída para um país da América do Sul, como se tivesse antecipado a fuga dos judeus da Europa.
A história é protagonizada por um escritor que se hospeda no hotel e presencia a decadência de um edifício e de uma era (o ocidente em declínio?). Qualquer semelhança não é mera coincidência. Essa história é contada pelo enigmático Mr. Moustafa (interpretado pelo excelente F. Murray Abraham).
A poesia, além do perfume, é uma das paixões do concierge M. Gustave (vivido brilhantemente pelo inglês Ralph Fiennes). Nas palavras de seu assistente Zero (encenado por Tony Revolori), ele é: um lampejo de civilização no matadouro bárbaro que conhecemos como humanidade.
Gustave é a metáfora da poesia, da recriação, da paixão pela vida e pelas pessoas. E uma das coisas que este filme nos provoca é o desejo de olharmos as pessoas, de lermos e ouvirmos poesia, de sermos solidários. A vida não é somente feita de ganâncias, disputas, interesses. É também povoada de delicadezas, como um jantar para escutar uma longa história de um misterioso dono de um hotel decadente. Acima de tudo, o filme nos brinda com histórias, para ver, ler, escutar e sentir. E nos brinda com muitas pessoas que parecem ter chegado de um livro de histórias e nos convidam a entrar que a porta está aberta para a ficção.

Imagens do filme veiculadas na internet



segunda-feira, 21 de julho de 2014

E viva a liberdade!


                                                Ninfa Parreiras
Surpreendente quando um ator se veste de tal maneira do personagem que a gente demora a perceber que ele mudou de máscara. Ou melhor, de filme. Toni Servillo, ator italiano, em seu Jap Gambardella, o cronista/escritor/observador, no filme A grande beleza, de Paolo Sorrentino arrebatou os expectadores. Demorei uns cinco minutos a entrar em seu novo papel, também definitivo. Singular e plural.
Gestos, olhares, movimentos ora bruscos, ora leves. E nossos olhos seguem e sentem cada mudança de figurino, de atores, de cenário. Os olhos bebem a ironia, a crítica à sociedade italiana (e à nossa). Um belo filme!
Agora ele está em cena novamente, em outra película italiana, Viva a liberdade, de Roberto Andò. Brilhante, ele atua como um duplo. Ou ele seria múltiplo? Como as muitas facetas que nos vestem na contemporaneidade?
Como o senador Enrico Oliveri, secretário do principal partido de oposição na Itália, ele tem sua imagem desgastada e resolve dar um sumiço. Seu assessor e sua esposa vão encontrar uma solução que vai mudar os rumos do partido. Do país. Enquanto isso, Oliveri volta ao passado, se re-aproxima da grande arte que é o cinema e o expectador ganha com um humor delicado e profundo. Rimos aos poucos, refletindo.
Até porque o filme não é uma mera crítica à política em cena. É a cena contemporânea que precisa de uma política com nova cara e novo corpo. Nem que seja pelas palavras imaginadas, embebidas de poesia e filosofia. Se acreditarmos que a vida é uma grande ficção, precisamos de políticos que contem histórias mais verossímeis e que o engano não seja no bolso do cidadão, mas na imaginação. Isso sim! Precisamos de arte, do cinema, da literatura, da poesia. É disso também que nos fala o filme de Andò.
Mais surpreendente, para mim, foi rir sozinha, rir com meus filhos. E rir com a plateia (desconhecida) do filme. E, ao final, minha filha de onze anos me diz cheia de alegria: - Mãe, adorei o filme! Mas não entendi nada do final.
Nem eu entendi. Nem seria para entender, porque a vida mesma é para a gente se divertir! Com a boa ficção.

Imagens: de divulgação do filme encontradas na internet



quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pelos cabelos

   
Pelos cabelos
                                                       Ninfa Parreiras
Ah!, as histórias que escutamos e observamos nas crianças... Recebemos pistas dos nossos filhos. Coisas pequenas. Com que brincam e o que fazem para se divertir? Será que a gente se importa com isso?
Lembro-me da minha filha com cinco anos, ela apreciava brincar com produtos de beleza. De certa feita, em um sábado de manhã que me alonguei no sono, ela se fartou com um spa para bonecos. O amplo banheiro com a banheira colada à parede abrigava sonhos de menina. Era um dos locais preferidos para as brincadeiras. Onde morava a alquimia da água, dos óleos e aromas.
Quando me levantei, ela havia deitado meus perfumes (uma coleção de dezenas de miniaturas francesas) e mais outros, usados em ocasiões especiais. Isso mesclado com cremes hidratantes, águas de colônias e outras coisas tais. Aquela mistura dentro de uma bacia era aplicada com cuidado em cada uma das bonecas de plástico, de pano, de borracha. Encostadas na parede, de braços abertos, as meninas sorriam com a limpeza corporal e facial. Gente de todas as cores e tamanhos! Uma festa!
Foi uma tristeza para mim, ao perceber que havia perdido a coleção de perfumes! E mais os outros produtos. As crianças precisam brincar, ora bolas, tocar as coisas, experimentar. Não se contentam com vitrines nem com conservas. E as conversas, para que servem, diante da possibilidade de brincar?
De outra feita, com um pouco mais de idade, ela resolveu cortar os próprios cabelos. Inventou um corte arrojado, desses em que o tamanho ficava irregular e radical. Tomei outro susto!
 
Também me lembro de uma tosa geral nos cabelos das bonecas, em que algumas ficaram carecas e ganharam um colorido pintado na cabeça, ora laranja, ora roxo, ora verde... Já pensou quanta mudança? Quanta coisa experimentada, descoberta...
Depois disso, já perto dos treze anos, ela foi me entregando as bonecas (aos poucos) para oferecermos a outras crianças. Como se também tivessem crescido: não traziam mais os cabelos originais, nem a pele limpa. Estavam tatuadas, cortes e pinturas das madeixas. Dedos com unhas pintadas. Orelhas furadas.
Minha menina cresceu, hoje é uma mulher. Bem recentemente, apareceu com os cabelos cortados acima dos ombros. Eram longos e inteiros. Perguntei o que aconteceu, ao que me respondeu que resolveu mudar e os cabelos cortados seriam doados para uma instituição de crianças portadoras de câncer em tratamento. Fariam perucas para as crianças. Como assim?
Os filhos nos surpreendem (e muito!). Pequenas pistas aparecem nas brincadeiras, nos sonhos. Ficamos ligados nas repreensões, nem sempre valorizamos as ideias criativas. Soluções chegam para a vida deles. Fazem mudanças e lidam com as perdas e cortes sem tantos sofrimentos. Estão muito além da gente! Têm vida própria e nos ensinam a não ter tanto apego às coisas, muito menos ao que pode crescer de novo, como os cabelos.
Afinal de contas, ela está de partida para o mundo dos gregos e dos latinos. Vai lá conferir no mármore e em outras pedras como a beleza pode ficar imortalizada.

Fotos: arquivo pessoal, primavera 2014, Itália

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Algumas palavras, alguns livros 23

Meu encontro com O Gato
                                            Ninfa Parreiras
Li O Gato pela primeira vez em 2011. Manhã de poucos ruídos. Estava organizando a coletânea Contos e poemas para ler na escola, para a editora Objetiva, a pedido do meu saudoso amigo Bartolomeu.
Ele abriu o computador e O Gato chegou miúdo, miava baixinho: história para ser publicada sozinha em livro, nas suas palavras. Lembro-me que era um texto metafórico, de muitas imagens e poucas palavras. Uma linha, muitas vidas. Um enamoramento de gato e lua. A vida a escorrer pelos fios da noite. A solidão a visitar rotineiramente aquele que compõe literatura.
Com a sua partida em janeiro de 2012, escaparam-me lembranças de seus textos inéditos. Quem parte, leva parte de nós. Mutilados, ficamos órfãos de palavras, inundados em silêncio indizível. Assim tem sido comigo.
Em contato com a família, procuramos no computador dele se havia textos inéditos que pudessem compor a obra Contos e poemas para ler na escola, ainda não acabada. Abrir aquele computador sem a presença do seu escritor doeu fundo.
Algo tão sagrado esperar que texto ia ser aberto, lido. Ou guardado em gavetas de dormir. Havia um ritual de lermos, conversarmos, silenciarmos. Um dia trazia às vezes um texto pequeno. Outras vezes, páginas e páginas em versos. E houve dias que ficávamos na prosa solta: comidas, temperos, viagens. Num tempo capturado em cumplicidade e olhares.
Com a ajuda da Juliana, tomamos coragem e descobrimos O Gato logo ali na área de trabalho, se oferecendo, miando para ser redescoberto. Reli o conto e percebia que havia ganhado algumas palavras e mantinha a polifonia escutada no primeiro encontro. Uma beleza de texto! Era uma despedida e eu só pude perceber isso depois que meu amigo partiu. Como nos cegamos ao dourado do outono, ao calor do verão... A cegueira pode ser boa companhia quando nos despedimos com dor de quem admiramos!
Maria Alexandre, das Paulinas, havia comentado comigo que o poeta a prometera um texto a ser publicado. Para fazer companhia ao A árvore. Seria O Gato? Muitas perguntas e longa ausência.
O texto foi para lá, aos cuidados da Goretti, publicado em  belas ilustrações de Anelise Zimmermann, projeto gráfico esmerado dela e do André Neves. Não sei se Bartolomeu virou uma estrela, não sei se nos lê de onde está. Não sei por onde anda. Sei que fiquei satisfeita em ver O Gato miando alto para os leitores e reforçando o lirismo e a delicadeza de uma obra imortal.


Capa: O Gato, Bartolomeu Campos de Queirós, ilustrações Anelise Zimmermann, editora Paulinas

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Marina Colasanti, a tecelã das palavras

 
 
 
                      Marina Colasanti, a tecelã das palavras
                                                                                       Ninfa Parreiras
Feitas de meadas, de tramas, de linhas. Grossas, ásperas, finas, deslizantes, transparentes, felpudas, espinhentas. Assim são feitas as histórias e poemas tecidos por Marina Colasanti.  A palavra ora nos cobre de neblina no mundo feérico dos contos de fadas, ora nos inebria de imagens condensadas dos poemas. Ora nos faz transitar por crônicas e diálogos do dia-a-dia, ora nos embriagam de histórias breves como cânticos de amanhecer.
Marina traz o mar em seu nome, traz uma mina preciosa de palavras. Tece e destece qual Penélope. Ao destecer, ela desconstrói estigmas, padrões congelados. Chega uma voz feminina de grandeza da literatura brasileira, da fêmea escritora. Ao tecer, ela nos conduz a um universo lírico e onírico: a poesia e o sonho. O sonho que nos alimenta para a vida e a literatura.     
Somos também fios como leitores e tecemos e nos entristecemos com as suas histórias. Seus poemas conversam com o leitor e dialogam com a própria criação. Isso é competência dos grandes autores!
Como escritora consagrada de contos de fadas para crianças e jovens de todas as idades, tem uma produção singular, como a grande autora latino-americana da contemporaneidade.
Em 1979, ela publicou Uma ideia toda azul, com texto e ilustrações de sua autoria, com 10 contos curtos, breves e sintéticos. Em suas histórias, importa menos a descrição das personagens, e mais a metaforização de verdades humanas, de afetos universais, o ser nas suas buscas e as descobertas intermináveis da subjetividade de cada um. A dissecação da nossa alma. Nos seus contos de fadas, atualmente são centenas publicados, ela costuma abordar (e bordar) questões como o amor, a autonomia, a liberdade, o construir, o recomeçar, a ruptura, o destino.
Marina é uma tecelã das palavras. Ou uma bordadeira de imagens. Com letras cria paisagens, cenas fantásticas, melodias que nos transportam ora para contos, ora para poemas. Parece escrever com linha, agulha e tesoura de ouro. Ela sabe tão bem cortar o texto, no ponto certo. Uma das coisas mais difíceis para um escritor.
Como ilustradora, cria imagens condensadas, carregadas de lirismos e de representações simbólicas. Uma roca, uma coluna, um aro. Carregadas de sentimentos, de valores universais e atemporais.
Como poeta, versa com uma navalha de prata e lâmina de cristal. Versos delicados, concentrados em substantivos e verbos. Nosso olhar se desloca e se aloca nas belas imagens geradas pelos poemas. E mais, passeia por música versada em ritmos ancestrais, outros mais contemporâneos. Sempre clássicos.
Como contista, suas histórias são para serem lidas num deslocamento de ônibus, de trem, de avião, de carroça (como nos dizia Edgar Alan Poe acerca do conto). Cada relato dura a viagem que escolhermos. Nossos olhos se deslocam e passeiam por identidades, casas, colunas, memórias.
Como ensaísta, Marina nos leva a pensar sobre a literatura, como arte maior da vida. Discute leitura, contos de fadas, livros, autores clássicos. E discursa em um fio que flui com naturalidade, sem pressa, inclusive para leitores leigos. Seus ensaios são literários.
Como cronista, Marina fica de olho na esquina dela, na minha, na sua. De onde brotam coisas às vezes sem importância, que ganham relevo com suas palavras. Viram uma pedra a ser lapidada em suas mãos.
Como autora de contos breves, recentemente, em Hora de alimentar serpentes, ela encerra com o livro com o conto Porto. Sigam comigo:
E o navio fantasma atracou na terceira margem do rio (p 445).
Com 10 palavras, ela cria um oceano, uma viagem, um porto, uma vida, uma assombração, um medo, um enfrentamento, um passado, uma solidão, uma busca, um passado, um presente, um desejo... Para que serve viver? Quantas margens descobrimos aí, Marina!
Como tradutora, conserva a linguagem original dos textos, traz soluções para as traduções. E nos presenteia com o melhor que temos de Pinóquio, por exemplo.
Como tecelã, ela tece seus textos, contextos, panos, planos, cobertas, morada. Marina é uma fada das histórias!
E como contadora de histórias, ah, não sei dizer se prefiro Marina como contadora de histórias do que como escritora. Sei que quando escuto a Marina contar, eu vou pra lá, pra onde ela me leva. Que nem quando leio seus textos...
homenagem na 6ª Festa Literária de Santa Teresa - FLIST 2014, CEAT

Ziraldo: seus avessos e suas (tantas) faces


                        Ziraldo: seus avessos e suas (tantas) faces

 Ninfa Parreiras

Falar de Ziraldo é considerar a arte em suas múltiplas linguagens. Ziraldo é um artista de muitas faces: o cartazista, o caricaturista, o chargista, o cartunista, (se ficarmos na letra c). Seu abecedário se estica como o Rio Doce que atravessa a sua terra mineira, Caratinga, até o mar.
Em suas criações, traz a marca do despojamento e do ritmo. Imagens carregadas de bom senso e polifonia. Ele retrata personagens, cenas, protestos, encontros e capta o núcleo de alguma mensagem a ser transmitida. Ou o foco de uma abordagem social, política ou artística. Ele sabe conduzir nossos olhos, expectadores do mundo.
É um artista de muitos avessos: o ilustrador, o pintor, o publicitário, o escritor, o dramaturgo. Suas criações são para todos os públicos. Suas expressões estão destinadas a todos que vemos, lemos, interpretamos e nos deleitamos. Desde seu consagrado Flicts, aos seus Maluquinhos e Maluquinhas, bichinhos da maçã, Meninos Marrom, Morenos e tantos outros brasileiros e de outras nações. Seu personagem é o menino que habita dentro de cada um de nós. A fantasia que não podemos abandonar.
Além de tudo isso, Ziraldo é um entrevistador nato, capaz de fazer entrevistas a artistas sem um roteiro definido. Basta começar a falar que ele associa ideias e memórias. Isso acontece no seu programa ABZ do Ziraldo, do qual tive a oportunidade de participar e acompanhar diversos escritores e ilustradores entrevistados.
As marcas da sua literatura são tantas, destacamos a coloquialidade e o humor. É difícil fazer um livro com graça, com ironia. Sustentar o riso do leitor demanda fôlego e criatividade. Demanda cortes e surpresas, e isso Ziraldo sabe fazer. As questões abordadas em suas obras brotam de dentro para fora dos seus textos. Não são apelativas. Se ele trata sobre o autoritarismo, a identidade, isso não é a questão maior. O que se destaca são os jogos de palavras, a ludicidade de texto e ilustrações, num casamento inseparável. Aliás, assim são as suas obras de autoria de texto e imagem. Ziraldo foi ilustrador de célebres escritores como Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Ana Maria Machado, Chico Buarque, Darcy Ribeiro. E, mais, recentemente, de Paulo Leminski.
Menino do Rio Doce e Menina Nina são duas obras primas, para leitores de todas as idades. Lirismo e metáforas as caracterizam, são minhas prediletas. O som está presente nas imagens e nos textos, parece que acompanhamos uma orquestra com suas melodias, ritmos, alegorias, movimentos. E junto chegam os afetos, o olhar da criança a se deslocar por descobertas; ora de um rio e seus fantasmas; ora de uma dor e suas assombrações.
Outro aspecto interessante da obra de Ziraldo é a pesquisa de nomes, de grafias, seu encantamento pela palavra. Pela forma, pelo conteúdo, pelo som, pelo sentido e pelo sem fim de coisas que um nome pode trazer. Desde o início de sua obra literária para crianças e jovens, ele mostrou interesse por essa descoberta sem fim.
Ziraldo acumula prêmios nacionais e internacionais, está publicado em diversos países e tem um reconhecimento por seu trabalho artístico que merece nossos aplausos. Obrigada, Ziraldo, por compartilhar com a gente sua manhã de sábado!

homenagem apresentada na 6ª Festa Literária de Santa Teresa - FLIST, 2014, CEAT

 

 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A Grande Beleza




Tudo é um truque!
                                                                      
                                Ninfa Parreiras
A Grande Beleza (La Grande Bellezza, 2013), filme de Paolo Sorrentino, revela a brilhante atuação de Toni Servillo como o escritor/cronista/observador, o Jap Gambardella. Surgem críticas, ora sutis, ora ácidas, à falência da sociedade ocidental, às relações vazias, aos excessos e ao oco que há nos encontros (ou desencontros?) das pessoas. O que fazer deste vácuo? Como transformá-lo em palavras? Ou como encontrar beleza nisso? A beleza é o que garante fazer da palavra literatura, mesmo quando as palavras estão desgastadas e inúteis.
Roma é a grande protagonista deste belo filme que nos captura pelo roteiro, música, fotografia e pelos deslocamentos da câmera que nos faz testemunhas de um império (ainda) em ruínas. O coliseu e a cobertura do apartamento de Jap são os monumentos que a tudo presenciam, a arquitetura antiga e deteriorada não nos engana. Revela a falta de delicadeza das pessoas e a ambição voraz. O tempo desenfreado e a vaidade exagerada no corpo, na moda, na comida, nas bebidas e no lazer nos assustam (ou nos divertem?). Metáfora da sociedade e da futilidade, a arte (seja antiga, seja contemporânea) dá voz às relações vazias e ao consumo exacerbado.
 O barroco impera na estética e nos envolvimentos afetivos. Encontrar a beleza das coisas e das pessoas para escrever outro livro parece difícil ao escritor Jap. Enquanto isso, ele faz entrevistas e bisbilhota a vida de famosos (dos envolvidos com beleza, arte, política, religião). O Jap cronista vai percebendo a vida lhe escorrer pelas mãos, amigos que se vão, criações vazias, coisas sem sentido: um mundo de nada. E “mais além?”

É na ficção (no truque e na brincadeira) que ele encontra combustível para seguir sua crônica diária com críticas na ponta da língua. Seu passado lhe cobra lugar no presente e Jap mantém seu olhar apurado e irônico sobre aquela barbárie que vive.
Tudo é um truque, Jap, a vida, as relações, a escrita e a beleza. A literatura, tanto quanto a vida, nos ensina tão bem isso!

(imagens de divulgação do filme)