Arquivo do blog

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
Visite:

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A Grande Beleza




Tudo é um truque!
                                                                      
                                Ninfa Parreiras
A Grande Beleza (La Grande Bellezza, 2013), filme de Paolo Sorrentino, revela a brilhante atuação de Toni Servillo como o escritor/cronista/observador, o Jap Gambardella. Surgem críticas, ora sutis, ora ácidas, à falência da sociedade ocidental, às relações vazias, aos excessos e ao oco que há nos encontros (ou desencontros?) das pessoas. O que fazer deste vácuo? Como transformá-lo em palavras? Ou como encontrar beleza nisso? A beleza é o que garante fazer da palavra literatura, mesmo quando as palavras estão desgastadas e inúteis.
Roma é a grande protagonista deste belo filme que nos captura pelo roteiro, música, fotografia e pelos deslocamentos da câmera que nos faz testemunhas de um império (ainda) em ruínas. O coliseu e a cobertura do apartamento de Jap são os monumentos que a tudo presenciam, a arquitetura antiga e deteriorada não nos engana. Revela a falta de delicadeza das pessoas e a ambição voraz. O tempo desenfreado e a vaidade exagerada no corpo, na moda, na comida, nas bebidas e no lazer nos assustam (ou nos divertem?). Metáfora da sociedade e da futilidade, a arte (seja antiga, seja contemporânea) dá voz às relações vazias e ao consumo exacerbado.
 O barroco impera na estética e nos envolvimentos afetivos. Encontrar a beleza das coisas e das pessoas para escrever outro livro parece difícil ao escritor Jap. Enquanto isso, ele faz entrevistas e bisbilhota a vida de famosos (dos envolvidos com beleza, arte, política, religião). O Jap cronista vai percebendo a vida lhe escorrer pelas mãos, amigos que se vão, criações vazias, coisas sem sentido: um mundo de nada. E “mais além?”

É na ficção (no truque e na brincadeira) que ele encontra combustível para seguir sua crônica diária com críticas na ponta da língua. Seu passado lhe cobra lugar no presente e Jap mantém seu olhar apurado e irônico sobre aquela barbárie que vive.
Tudo é um truque, Jap, a vida, as relações, a escrita e a beleza. A literatura, tanto quanto a vida, nos ensina tão bem isso!

(imagens de divulgação do filme)