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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Marina Colasanti, a tecelã das palavras

 
 
 
                      Marina Colasanti, a tecelã das palavras
                                                                                       Ninfa Parreiras
Feitas de meadas, de tramas, de linhas. Grossas, ásperas, finas, deslizantes, transparentes, felpudas, espinhentas. Assim são feitas as histórias e poemas tecidos por Marina Colasanti.  A palavra ora nos cobre de neblina no mundo feérico dos contos de fadas, ora nos inebria de imagens condensadas dos poemas. Ora nos faz transitar por crônicas e diálogos do dia-a-dia, ora nos embriagam de histórias breves como cânticos de amanhecer.
Marina traz o mar em seu nome, traz uma mina preciosa de palavras. Tece e destece qual Penélope. Ao destecer, ela desconstrói estigmas, padrões congelados. Chega uma voz feminina de grandeza da literatura brasileira, da fêmea escritora. Ao tecer, ela nos conduz a um universo lírico e onírico: a poesia e o sonho. O sonho que nos alimenta para a vida e a literatura.     
Somos também fios como leitores e tecemos e nos entristecemos com as suas histórias. Seus poemas conversam com o leitor e dialogam com a própria criação. Isso é competência dos grandes autores!
Como escritora consagrada de contos de fadas para crianças e jovens de todas as idades, tem uma produção singular, como a grande autora latino-americana da contemporaneidade.
Em 1979, ela publicou Uma ideia toda azul, com texto e ilustrações de sua autoria, com 10 contos curtos, breves e sintéticos. Em suas histórias, importa menos a descrição das personagens, e mais a metaforização de verdades humanas, de afetos universais, o ser nas suas buscas e as descobertas intermináveis da subjetividade de cada um. A dissecação da nossa alma. Nos seus contos de fadas, atualmente são centenas publicados, ela costuma abordar (e bordar) questões como o amor, a autonomia, a liberdade, o construir, o recomeçar, a ruptura, o destino.
Marina é uma tecelã das palavras. Ou uma bordadeira de imagens. Com letras cria paisagens, cenas fantásticas, melodias que nos transportam ora para contos, ora para poemas. Parece escrever com linha, agulha e tesoura de ouro. Ela sabe tão bem cortar o texto, no ponto certo. Uma das coisas mais difíceis para um escritor.
Como ilustradora, cria imagens condensadas, carregadas de lirismos e de representações simbólicas. Uma roca, uma coluna, um aro. Carregadas de sentimentos, de valores universais e atemporais.
Como poeta, versa com uma navalha de prata e lâmina de cristal. Versos delicados, concentrados em substantivos e verbos. Nosso olhar se desloca e se aloca nas belas imagens geradas pelos poemas. E mais, passeia por música versada em ritmos ancestrais, outros mais contemporâneos. Sempre clássicos.
Como contista, suas histórias são para serem lidas num deslocamento de ônibus, de trem, de avião, de carroça (como nos dizia Edgar Alan Poe acerca do conto). Cada relato dura a viagem que escolhermos. Nossos olhos se deslocam e passeiam por identidades, casas, colunas, memórias.
Como ensaísta, Marina nos leva a pensar sobre a literatura, como arte maior da vida. Discute leitura, contos de fadas, livros, autores clássicos. E discursa em um fio que flui com naturalidade, sem pressa, inclusive para leitores leigos. Seus ensaios são literários.
Como cronista, Marina fica de olho na esquina dela, na minha, na sua. De onde brotam coisas às vezes sem importância, que ganham relevo com suas palavras. Viram uma pedra a ser lapidada em suas mãos.
Como autora de contos breves, recentemente, em Hora de alimentar serpentes, ela encerra com o livro com o conto Porto. Sigam comigo:
E o navio fantasma atracou na terceira margem do rio (p 445).
Com 10 palavras, ela cria um oceano, uma viagem, um porto, uma vida, uma assombração, um medo, um enfrentamento, um passado, uma solidão, uma busca, um passado, um presente, um desejo... Para que serve viver? Quantas margens descobrimos aí, Marina!
Como tradutora, conserva a linguagem original dos textos, traz soluções para as traduções. E nos presenteia com o melhor que temos de Pinóquio, por exemplo.
Como tecelã, ela tece seus textos, contextos, panos, planos, cobertas, morada. Marina é uma fada das histórias!
E como contadora de histórias, ah, não sei dizer se prefiro Marina como contadora de histórias do que como escritora. Sei que quando escuto a Marina contar, eu vou pra lá, pra onde ela me leva. Que nem quando leio seus textos...
homenagem na 6ª Festa Literária de Santa Teresa - FLIST 2014, CEAT

Ziraldo: seus avessos e suas (tantas) faces


                        Ziraldo: seus avessos e suas (tantas) faces

 Ninfa Parreiras

Falar de Ziraldo é considerar a arte em suas múltiplas linguagens. Ziraldo é um artista de muitas faces: o cartazista, o caricaturista, o chargista, o cartunista, (se ficarmos na letra c). Seu abecedário se estica como o Rio Doce que atravessa a sua terra mineira, Caratinga, até o mar.
Em suas criações, traz a marca do despojamento e do ritmo. Imagens carregadas de bom senso e polifonia. Ele retrata personagens, cenas, protestos, encontros e capta o núcleo de alguma mensagem a ser transmitida. Ou o foco de uma abordagem social, política ou artística. Ele sabe conduzir nossos olhos, expectadores do mundo.
É um artista de muitos avessos: o ilustrador, o pintor, o publicitário, o escritor, o dramaturgo. Suas criações são para todos os públicos. Suas expressões estão destinadas a todos que vemos, lemos, interpretamos e nos deleitamos. Desde seu consagrado Flicts, aos seus Maluquinhos e Maluquinhas, bichinhos da maçã, Meninos Marrom, Morenos e tantos outros brasileiros e de outras nações. Seu personagem é o menino que habita dentro de cada um de nós. A fantasia que não podemos abandonar.
Além de tudo isso, Ziraldo é um entrevistador nato, capaz de fazer entrevistas a artistas sem um roteiro definido. Basta começar a falar que ele associa ideias e memórias. Isso acontece no seu programa ABZ do Ziraldo, do qual tive a oportunidade de participar e acompanhar diversos escritores e ilustradores entrevistados.
As marcas da sua literatura são tantas, destacamos a coloquialidade e o humor. É difícil fazer um livro com graça, com ironia. Sustentar o riso do leitor demanda fôlego e criatividade. Demanda cortes e surpresas, e isso Ziraldo sabe fazer. As questões abordadas em suas obras brotam de dentro para fora dos seus textos. Não são apelativas. Se ele trata sobre o autoritarismo, a identidade, isso não é a questão maior. O que se destaca são os jogos de palavras, a ludicidade de texto e ilustrações, num casamento inseparável. Aliás, assim são as suas obras de autoria de texto e imagem. Ziraldo foi ilustrador de célebres escritores como Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Ana Maria Machado, Chico Buarque, Darcy Ribeiro. E, mais, recentemente, de Paulo Leminski.
Menino do Rio Doce e Menina Nina são duas obras primas, para leitores de todas as idades. Lirismo e metáforas as caracterizam, são minhas prediletas. O som está presente nas imagens e nos textos, parece que acompanhamos uma orquestra com suas melodias, ritmos, alegorias, movimentos. E junto chegam os afetos, o olhar da criança a se deslocar por descobertas; ora de um rio e seus fantasmas; ora de uma dor e suas assombrações.
Outro aspecto interessante da obra de Ziraldo é a pesquisa de nomes, de grafias, seu encantamento pela palavra. Pela forma, pelo conteúdo, pelo som, pelo sentido e pelo sem fim de coisas que um nome pode trazer. Desde o início de sua obra literária para crianças e jovens, ele mostrou interesse por essa descoberta sem fim.
Ziraldo acumula prêmios nacionais e internacionais, está publicado em diversos países e tem um reconhecimento por seu trabalho artístico que merece nossos aplausos. Obrigada, Ziraldo, por compartilhar com a gente sua manhã de sábado!

homenagem apresentada na 6ª Festa Literária de Santa Teresa - FLIST, 2014, CEAT