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Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa

Encontros Literários no Novo Nicho pra Santa, na Casa Lygia Bojunga, Santa Teresa, Rio de Janeiro.
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terça-feira, 22 de julho de 2014

O Grande Hotel Budapeste


            O Grande Hotel Budapeste

                                              Ninfa Parreiras
Filme do norte-americano Wes Anderson, O Grande Hotel Budapeste nos prende do início ao fim. Nele, uma história mora dentro da outra. As décadas de 30, 60 e 80 do século passado nos chegam como um mergulho em abismos. Uma sucessão de sinestesias. Cenas assustadoras se repetem como a constrangedora travessia de trem no campo de cevada na neve. O uso de cores antigas, desbotadas, alternado com tons cinzas e a neve do exterior. Quando muda o tempo histórico, as cores e as vestimentas mudam também. Uma provocação às nossas reminiscências. A alternância entre imagens de fotografias e de ilustrações com imagens ‘reais’. A alegoria Transitamos entre a ficção e a realidade com conforto.
Tomadas de cima para baixo, as cenas passeiam com nossos olhos que se deslocam de 180º a 360º por pilhas de caixas, escadarias, elevadores, janelas, torres... Há contrastes entre objetos miúdos (frasco de perfume, livro de poesia) e os gigantescos (o plano inclinado, as escadas do hotel). As personagens nos olham fixa e vagamente. Livros, enfeites decorativos, bolos confeitados, armas, são também personagens. E ainda há uma exuberância de cores que beiram ao exagero. No fundo, uma delicada crítica à barbárie contemporânea, aos excessos e à decadência do mundo capitalista. Vazio seria o que vivemos hoje?
Metalinguagem, verossimilhança, ficção, juntas, numa comédia que é também um drama. E a belíssima homenagem ao escritor austríaco Stefan Sweig, um dos mais consagrados dos anos 20/40. Vale dizer que o roteiro do filme foi criado a partir de histórias de Sweig, que morou no Brasil no último ano da sua vida. Logo nas primeiras cenas do filme, quando um escritor (Tom Wilkinson) declara que a melhor parte de escrever como ofício é não se preocupar nem buscar histórias, porque elas chegam naturalmente a ele, notamos uma referência à obra Coração impaciente, de Sweig. Também percebemos que no filme há elementos que são da vida dele: a retirada para as montanhas, a saída para um país da América do Sul, como se tivesse antecipado a fuga dos judeus da Europa.
A história é protagonizada por um escritor que se hospeda no hotel e presencia a decadência de um edifício e de uma era (o ocidente em declínio?). Qualquer semelhança não é mera coincidência. Essa história é contada pelo enigmático Mr. Moustafa (interpretado pelo excelente F. Murray Abraham).
A poesia, além do perfume, é uma das paixões do concierge M. Gustave (vivido brilhantemente pelo inglês Ralph Fiennes). Nas palavras de seu assistente Zero (encenado por Tony Revolori), ele é: um lampejo de civilização no matadouro bárbaro que conhecemos como humanidade.
Gustave é a metáfora da poesia, da recriação, da paixão pela vida e pelas pessoas. E uma das coisas que este filme nos provoca é o desejo de olharmos as pessoas, de lermos e ouvirmos poesia, de sermos solidários. A vida não é somente feita de ganâncias, disputas, interesses. É também povoada de delicadezas, como um jantar para escutar uma longa história de um misterioso dono de um hotel decadente. Acima de tudo, o filme nos brinda com histórias, para ver, ler, escutar e sentir. E nos brinda com muitas pessoas que parecem ter chegado de um livro de histórias e nos convidam a entrar que a porta está aberta para a ficção.

Imagens do filme veiculadas na internet



segunda-feira, 21 de julho de 2014

E viva a liberdade!


                                                Ninfa Parreiras
Surpreendente quando um ator se veste de tal maneira do personagem que a gente demora a perceber que ele mudou de máscara. Ou melhor, de filme. Toni Servillo, ator italiano, em seu Jap Gambardella, o cronista/escritor/observador, no filme A grande beleza, de Paolo Sorrentino arrebatou os expectadores. Demorei uns cinco minutos a entrar em seu novo papel, também definitivo. Singular e plural.
Gestos, olhares, movimentos ora bruscos, ora leves. E nossos olhos seguem e sentem cada mudança de figurino, de atores, de cenário. Os olhos bebem a ironia, a crítica à sociedade italiana (e à nossa). Um belo filme!
Agora ele está em cena novamente, em outra película italiana, Viva a liberdade, de Roberto Andò. Brilhante, ele atua como um duplo. Ou ele seria múltiplo? Como as muitas facetas que nos vestem na contemporaneidade?
Como o senador Enrico Oliveri, secretário do principal partido de oposição na Itália, ele tem sua imagem desgastada e resolve dar um sumiço. Seu assessor e sua esposa vão encontrar uma solução que vai mudar os rumos do partido. Do país. Enquanto isso, Oliveri volta ao passado, se re-aproxima da grande arte que é o cinema e o expectador ganha com um humor delicado e profundo. Rimos aos poucos, refletindo.
Até porque o filme não é uma mera crítica à política em cena. É a cena contemporânea que precisa de uma política com nova cara e novo corpo. Nem que seja pelas palavras imaginadas, embebidas de poesia e filosofia. Se acreditarmos que a vida é uma grande ficção, precisamos de políticos que contem histórias mais verossímeis e que o engano não seja no bolso do cidadão, mas na imaginação. Isso sim! Precisamos de arte, do cinema, da literatura, da poesia. É disso também que nos fala o filme de Andò.
Mais surpreendente, para mim, foi rir sozinha, rir com meus filhos. E rir com a plateia (desconhecida) do filme. E, ao final, minha filha de onze anos me diz cheia de alegria: - Mãe, adorei o filme! Mas não entendi nada do final.
Nem eu entendi. Nem seria para entender, porque a vida mesma é para a gente se divertir! Com a boa ficção.

Imagens: de divulgação do filme encontradas na internet